Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver...

Os ocultos caminhos da linguagem

grande sertao riobaldo diadorim
Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver, interessado em identificar a seus alunos as suas partes constituintes. Ou como um legista, preocupado apenas com a autópsia. São pessoas que esquecem ser a mudança a lei natural da língua, porque lei do Universo.

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Mais do que um corpo, na frieza do rigor mortis, de que se desvendam os seus mistérios anatômicos, a língua é um corpo vivo, que precisa ser entendida na sua fisiologia, no seu funcionamento complexo, cujo desenvolvimento é proporcionado pelos seus usuários, em vários níveis e contextos. Se o poeta Carlos Drummond de Andrade fala da “luta vã” com as palavras, embora a cada manhã retomemos o embate com elas, eu diria – sem querer emendar poetas, como diria Machado de Assis – que o dinamismo da língua obedece mais a um jogo, que pode ser habilidosamente sutil e natural, revelando as suas metamorfoses, ainda que com o perigo de, às vezes, traduzirem-na por uma pesada engrenagem de artificialidade.

Afirmo isso pensando em João Guimarães Rosa, refletindo no quanto de magia o escritor consegue extrair da sua linguagem inventiva, da sua criatividade, sempre apontando para uma infinitude de possibilidades, que deságuam em caminhos diversos e inesgotáveis.

Considerando as várias ordens de neologismos que existem na sua prosa, pensemos no neologismo fechabrir (Grande sertão: veredas. 22ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2019, p. 120). Trata-se de uma construção mais refinada do que o neologismo por sufixação (tratantaz, p. 119) ou por prefixação
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(disidéia, p. 132 – em todos os exemplos, respeitaremos a grafia do escritor). A construção de fechabrirse dá no contexto da briga entre Diadorim e Fancho-Bode, jagunço que lhe faz uma desfeita e põe em dúvida a sua macheza, por estar frequentemente acompanhado de Riobaldo. Enquanto Diadorim o derruba e está a ponto de matá-lo – “e o punhal parou ponta diantinho da goela do dito” –, Riobaldo, num átimo, busca a sua arma, de olho numa possível intervenção do companheiro de Fancho-Bode, Fulorêncio – “O fechabrir de olhos, e eu também tinha agarrado o meu revólver.” –, revelando a rapidez de reação aos acontecimentos.

Não se trata de um neologismo neutro, no sentido de que se pretende criar uma palavra nova, por uma decisão apenas estilística, sem que tenha funcionalidade ou expressividade na narrativa. Basta ficarmos atentos à sua construção fonética, para compreendermos o quanto há de inventividade, na criação de um neologismo que se fosse abrefechar, por exemplo, não teria a mesma força. Fechabrir corresponde à piscada do olho. Não se pisca abrindo e fechando, mas fechando e abrindo, num gesto rápido, muitas vezes imperceptível, quando estamos concentrados.

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Por outro lado, a própria construção fonética traz em si, quando prolatamos, a funcionalidade do fechar e do abrir, começando com uma fricativa /f/, que nos leva obrigatoriamente ao fechamento labial, e terminando com um fonema vocálico anterior, por sua posição alta /i/, considerando, sobretudo, o apagamento do fonema velar /r/, no final dos infinitivos, fenômeno muito comum na maior parte da prolação brasileira. Se o escritor tivesse escolhido abrefechar, essa funcionalidade aqui descrita não existiria.

Como afirmamos antes, há neologismos e neologismos, em Guimarães Rosa. Não se pode comparar fechabrir com viciice (p. 118), por exemplo. A inventividade do primeiro, conforme já demonstramos,
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é inquestionável. Com relação ao segundo, também é inquestionável que se trata de uma palavra que não foi dicionarizada. No entanto, o fato de uma palavra não constar como verbete nos dicionários, isso não a torna, necessariamente, um neologismo. Só no lato sensu. Em primeiro lugar, vemos que o seu processo de formação, diferentemente de fechabrir, está na lógica da língua, como um sistema, que se encontra em doidice (p. 177). A criatividade de Guimarães Rosa consiste na utilização do sufixo /-ice/ em um substantivo, transformado um defeito ou mau costume, o vício, que é estático, quando tomado absolutamente, em uma ação, que se desenvolve com frequência, a viciice. Vejamos o contexto em que o termo ocorre (p. 118):

“Diadorim ― dirá o senhor: então, eu não notei viciice no modo dele me falar, me olhar, me querer-bem? Não, que não ― fio e digo. Há-de-o, outras coisas... O senhor duvida? Ara, mitilhas, o senhor é pessoa feliz, vou me rir... Era que ele gostava de mim com a alma; me entende? O Reinaldo. Diadorim, digo. Eh, ele sabia ser homem terrível.”
No conflito entre um amor dificultoso, com Diadorim, e um amor que se anuncia, com Otacília, Riobaldo descarta a vileza do vício, na maneira como Diadorim fala, olha e demonstra querer bem. O que o une é algo maior, um amor que vem da alma, diverso da necessidade viciosa e frequente que a carnalidade exige – a viciice.

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Em segundo lugar, o que podemos tomar como um neologismo bem pode ser um uso contínuo da oralidade regional. Assim, viciice, pode estar na mesma posição do conhecido jeguice ou breguice, que tanto usamos. A novidade é estar presente numa obra, que se caracteriza pela expressividade da sua linguagem. Para usar um termo de Guimarães Rosa, quando funde um sufixo (-ência) a um verbo arcaico (soer), criando um neologismo, sua obra se destaca pela soência (p. 183) da expressividade.

No nível de fechabrir, como neologismo, estão acãoada (p. 159) e manupeia (p. 192). No primeiro caso, temos uma genial fusão entre cão e acuar, resultando em acãoada, cujo sentido é “acuada por um cão”,
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conforme o contexto do trecho em que se frustra a tocaia contra os zé-bebelos, e em que morrem o Montesclarense e Garanço – “A morte é corisco que sempre já veio.” (p. 158) –, com a chegada de mais gente do bando inimigo, o que obriga Hermógenes a ordenar a retirada (p. 158-159, itálico nosso):

“A bala com bala ripostavam. Mas, nós, nesse entrequanto, rompemos o arvoredo, aqui e ali, rojamos para baixo, embora, mesmo. Desunir, assim, verga pior do que avançar. A lanço a lanço, fui, pulei, nos abertos entre árvores, acompanhei o Hermógenes. Aí, eu já estava para lá dele; mas virei e esperei. Porque, na desordem de mente do alvoroço, aquela hora era só no Hermógenes que eu via salvamento, para meu cão de corpo. Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também. Vim. Ainda divulguei, nas sofraldas descentes, homens que corriam, meus iguais, às vezes se subiam do bamburral baixo, feito acãoada codorniz.”
O segundo caso, manupeia, se dá no contexto do julgamento de Zé Bebelo, que pede licença a Joca Ramiro, para se defender das acusações de Hermógenes, mas para isso solicita que suas mãos sejam desamarradas (p. 192, itálico nosso):

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Manupeia é, sem dúvida, uma “peia para as mãos”. O que torna o termo interessante é a sua construção, como neologismo. Peia é termo que se origina de pēs, pĕdis, pé, em latim. A ligadura das mãos, portanto, sendo a mesma que se usa para os pés, revela que, mesmo com a perda do sentido primeiro da palavra, houve uma ampliação semântica, que não soa distorcida ou artificial. Ocorreu com peia a fossilização do seu sentido original, passando a designar algo que se serve para atar ou prender, não importando se são os pés ou as mãos.

A inovação linguística de Guimarães Rosa também se aplica aos frequentes ditos populares, que saem da boca de seus personagens, sobretudo de Riobaldo. Quantas sentidos se podem encontrar na frase “Viver é perigoso”, tantas vezes repetida, no decorrer da narrativa de Grande sertão:
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veredas? Antes, porém, de nos debruçarmos sobre ela, matéria para outro ensaio, fiquemos com uma que surge ainda no início do romance, abrindo uma parte dos seus segredos – “Quem mói no asp’ro, não fantasêia” (p. 15).

Sabe-se que o dito popular, por sua densidade, tem um poder de síntese, que substitui todo um discurso perifrástico, chegando a assumir certo ar proverbial. No caso da frase de Riobaldo, cuja oralidade é patente, ela se reveste de uma outra significação. É ela que abre o caminho para todo um discurso subjacente à ação romanesca, e que vai aparecendo naturalmente na boca do narrador: a construção de uma teoria da narrativa, que ocupa parte considerável das mais de 400 páginas do romance.

Ao definir-se como um narrador que procura contar o que é verdadeiro e o que é importante (“Agora, o tudo que eu conto, é porque acho que é sério preciso, p. 129), Riobaldo tem consciência de que não é fácil retomar os fatos já passados, e, mesmo diante da necessidade de não fantasiar, a memória pode ser, não apenas enganosa, mas, sobretudo, caprichosamente seletiva (p. 136):

“Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas,
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tantas coisas em tantos tempos, tempo miúdo recruzado.”
E nessa dificuldade, Riobaldo reconhece as digressões, os descaminhos de sua narrativa, com avanços e recuos, na aprendizagem da arte de dizer; reconhece que a travessia a que ele se dispõe é complexa e exige paciência na aprendizagem de saber a quem contar e como contar. Mas saber, sobretudo, voltar aos pontos de encaixe (p. 146):

“Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa. Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo ― me escutando com devoção assim ― é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. E para o dito volto. Como eu estava, com o senhor, no meio dos Hermógenes.”
Escritor sempre disposto a aproveitar as possibilidades da língua, explorando continuamente as suas veredas paradigmáticas, João Guimarães Rosa chega ao ponto de nos brindar, de repente com um de per mim (p. 115), devidamente chancelado pelo sistema linguístico. É a prova maior de que não é só a vida que “está cheia de ocultos caminhos” (p. 115), a língua também.

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