Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.
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O problema não se restringe aos falsos profetas comprados, que vendem bênçãos e revelações sob medida para clientes interessados em obter aprovação daquilo que já decidiram fazer. A mesma lógica se reproduz em toda parte: nos pseudoterapeutas que, em vez de ajudarem alguém a confrontar suas contradições e padrões comportamentais destrutivos, alimentam suas ilusões; nos amigos da onça que aplaudem as piores decisões porque delas extraem vantagens; nos
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É inevitável recordar Jean-Paul Sartre e uma das situações discutidas em O Existencialismo é um Humanismo. Durante a ocupação nazista da França, um jovem procurou o filósofo, angustiado diante de uma escolha dolorosa: deveria permanecer ao lado da mãe, que dependia emocionalmente dele, ou partir para a Inglaterra e juntar-se às forças da França Livre? De um lado, o dever filial; do outro, a luta contra o nazismo. Não era uma questão de escolher entre o bem e o mal com a facilidade de quem marca uma alternativa numa prova escolar. Eram dois compromissos que reclamavam sua consciência.
É aqui que Sartre incomoda. O ser humano gosta de imaginar que existe uma autoridade capaz de retirar de seus ombros o peso de escolher. Quer um decreto que decida, uma autoridade que o autorize, um "profeta" que o absolva, um amigo improvisado que confirme o que quer e já decidiu fazer. Assim, se alguma coisa der errado, sempre haverá alguém a quem atribuir uma parcela conveniente da culpa. A liberdade, entretanto, não vem acompanhada de um funcionário encarregado de responder por nossos atos. Somos livres para escolher, mas não para abolir a responsabilidade que acompanha nossas escolhas.
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O curioso é que continuamos procurando absolvição onde deveríamos procurar correção, integridade e coragem. Quando queremos trair, encontramos especialistas em justificar a infidelidade. Quando queremos alimentar o ressentimento, aparecem conselheiros dispostos a transformar rancor em vingança. Quando desejamos fazer o que nos convém, descobrimos interpretações surpreendentemente elásticas para princípios que, até ontem, pareciam inegociáveis. A consciência humana anestesiada é um tribunal peculiar: o acusado escolhe o juiz, redige a sentença e ainda exige aplausos pela própria inocência.
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Minha fé em Jesus me leva a acrescentar algo que não pertence à filosofia de Sartre: acredito que Deus pode transformar o coração humano. Mas essa convicção não me autoriza a imaginar que a transformação dispense a responsabilidade pessoal, a consciência, a liberdade ou o compromisso de cada pessoa com seus atos.
A Graça não serve de esconderijo para a irresponsabilidade, assim como o aconselhamento de conveniência não funciona como cartório de autenticação dos nossos caprichos mesquinhos e covardes.
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A aprovação que arrancamos de outro pode até tranquilizar nossa consciência por algum tempo. Não tem, contudo, o poder de transformar uma escolha em outra coisa senão aquilo que efetivamente fizemos.
A melhor orientação moral não é aquela que nos poupa da dor de reconhecer nossos próprios erros, mas a que nos ajuda a encontrar forças para corrigi-los. Aprendi, também, que ninguém se perde definitivamente enquanto conserva a disposição sincera de recomeçar. Podemos
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A vida não nos pede perfeição, mas esforço e vergonha na cara; não exige que nunca caiamos, mas que não façamos da queda uma morada. O verdadeiro amigo, o verdadeiro conselheiro e a verdadeira fé não são aqueles que nos oferecem desculpas fáceis para permanecermos iguais, mas os que, com amor e firmeza, nos ajudam a levantar.
Ninguém consegue enganar indefinidamente a própria consciência. Deus, que conhece nossas fraquezas muito melhor do que nós mesmos, não está interessado em nos humilhar por nossos erros, mas em nos ensinar, através deles, o caminho paciente da transformação e da autoeducação.
Naquele grande dia, estaremos diante de Deus e da nossa própria consciência, sem disfarces. Não haverá pastor de bode, amigo encardido, terapeuta fajuto ou falso profeta bem remunerado para responder por nós. Cada um encontrará o retrato das escolhas que efetivamente fez. Como escreveu Paulo em Romanos 14:12: “Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.”













