Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aq...

Você busca um cúmplice?

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Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.

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Ao longo dos anos, vi pessoas procurarem aconselhamento pastoral não para descobrir o que deveriam fazer, mas para encontrar alguém que abençoasse aquilo que já haviam decidido fazer. Queriam um cúmplice. Quando não encontravam em mim a concordância desejada para seus projetos, atitudes, traições, delírios, transgressões, vilanias, sinistroses, perfídias e comportamentos incompatíveis com o Evangelho, procuravam outro pastor, outra igreja, outro discurso, qualquer lugar onde a consciência pudesse receber um atestado de bons antecedentes. Não lhes faltava orientação. Faltava-lhes uma orientação que não contrariasse diretamente seus desejos imediatos.

O problema não se restringe aos falsos profetas comprados, que vendem bênçãos e revelações sob medida para clientes interessados em obter aprovação daquilo que já decidiram fazer. A mesma lógica se reproduz em toda parte: nos pseudoterapeutas que, em vez de ajudarem alguém a confrontar suas contradições e padrões comportamentais destrutivos, alimentam suas ilusões; nos amigos da onça que aplaudem as piores decisões porque delas extraem vantagens; nos
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conselheiros que chamam de coragem aquilo que é irresponsabilidade e de liberdade aquilo que é canalhice. Todos têm algo em comum: não estão comprometidos com a verdade, mas com o benefício que podem obter ao negá-la. E o mais perturbador é que quem os procura sabe perfeitamente disso. O sujeito não quer ser corrigido, quer ser confirmado; não procura alguém que lhe mostre o abismo, mas alguém que lhe assegure que atirar-se dentro dele é uma demonstração de coragem. Assim, estabelece-se uma cumplicidade entre quem vende o consentimento e quem o compra. Um recebe dinheiro, favores, vantagens ou influência; o outro recebe aquilo que considera ainda mais valioso: fazer o que deseja sem carregar sozinho o peso da própria consciência. É a má-fé transformada em negócio, com tabela de preços, clientela fiel e uma extraordinária capacidade de chamar conveniência de virtude.

É inevitável recordar Jean-Paul Sartre e uma das situações discutidas em O Existencialismo é um Humanismo. Durante a ocupação nazista da França, um jovem procurou o filósofo, angustiado diante de uma escolha dolorosa: deveria permanecer ao lado da mãe, que dependia emocionalmente dele, ou partir para a Inglaterra e juntar-se às forças da França Livre? De um lado, o dever filial; do outro, a luta contra o nazismo. Não era uma questão de escolher entre o bem e o mal com a facilidade de quem marca uma alternativa numa prova escolar. Eram dois compromissos que reclamavam sua consciência.

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Sartre não lhe ofereceu uma fórmula capaz de absolvê-lo antecipadamente. Nenhum código moral poderia decidir em seu lugar, porque era o próprio rapaz quem teria de atribuir peso àqueles valores e assumir uma escolha concreta. Se procurasse alguém empenhado na resistência, provavelmente ouviria que deveria partir. Se consultasse alguém que privilegiasse o dever familiar, talvez fosse aconselhado a permanecer. Mas nenhuma dessas pessoas poderia viver por ele a decisão nem assumir suas consequências.

É aqui que Sartre incomoda. O ser humano gosta de imaginar que existe uma autoridade capaz de retirar de seus ombros o peso de escolher. Quer um decreto que decida, uma autoridade que o autorize, um "profeta" que o absolva, um amigo improvisado que confirme o que quer e já decidiu fazer. Assim, se alguma coisa der errado, sempre haverá alguém a quem atribuir uma parcela conveniente da culpa. A liberdade, entretanto, não vem acompanhada de um funcionário encarregado de responder por nossos atos. Somos livres para escolher, mas não para abolir a responsabilidade que acompanha nossas escolhas.

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Isso não significa que Sartre considere todas as decisões igualmente boas ou que a liberdade seja uma licença para fazer qualquer coisa. Significa que não podemos nos esconder atrás de desculpas, carências, funções sociais, ordens superiores ou autoridades. A obediência envolve uma escolha: a de obedecer. E até a omissão, quando poderíamos agir, revela uma maneira de nos posicionarmos diante do mundo.

O curioso é que continuamos procurando absolvição onde deveríamos procurar correção, integridade e coragem. Quando queremos trair, encontramos especialistas em justificar a infidelidade. Quando queremos alimentar o ressentimento, aparecem conselheiros dispostos a transformar rancor em vingança. Quando desejamos fazer o que nos convém, descobrimos interpretações surpreendentemente elásticas para princípios que, até ontem, pareciam inegociáveis. A consciência humana anestesiada é um tribunal peculiar: o acusado escolhe o juiz, redige a sentença e ainda exige aplausos pela própria inocência.

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Na condição de pastor, aprendi também os limites da minha função. Podia aconselhar, advertir, interpretar as Escrituras e apontar aquilo que considerava incompatível com o Evangelho. Não podia, porém, produzir arrependimento por procuração. A pessoa sempre poderia rejeitar meu conselho e encontrar dez outros "pastores", "profetas" de ocasião e cúmplices dispostos a dizer o que desejava ouvir. Isso não transforma a decisão em acerto; apenas demonstra que a aprovação alheia não substitui a responsabilidade pessoal e as inevitáveis consequências que decorrem dela.

Minha fé em Jesus me leva a acrescentar algo que não pertence à filosofia de Sartre: acredito que Deus pode transformar o coração humano. Mas essa convicção não me autoriza a imaginar que a transformação dispense a responsabilidade pessoal, a consciência, a liberdade ou o compromisso de cada pessoa com seus atos.

A Graça não serve de esconderijo para a irresponsabilidade, assim como o aconselhamento de conveniência não funciona como cartório de autenticação dos nossos caprichos mesquinhos e covardes.

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Talvez o problema nunca tenha sido a falta de conselheiros, mas nossa dificuldade de aceitar conselhos que nos obriguem a mudar. Queremos a verdade, desde que ela concorde conosco; queremos orientação, desde que ela nos conduza ao pecado previamente escolhido. Procuramos quem decida por nós e, se a decisão fracassar, alguém a quem culpar. Mas há uma solidão inevitável no ato de escolher. Podemos caminhar acompanhados, ouvir os sábios, consultar a Bíblia, pedir ajuda a Deus e escutar aqueles que nos amam. Ainda assim, ninguém pode ocupar inteiramente o nosso lugar. A vida não aceita procuração para a responsabilidade moral.

A aprovação que arrancamos de outro pode até tranquilizar nossa consciência por algum tempo. Não tem, contudo, o poder de transformar uma escolha em outra coisa senão aquilo que efetivamente fizemos.

A melhor orientação moral não é aquela que nos poupa da dor de reconhecer nossos próprios erros, mas a que nos ajuda a encontrar forças para corrigi-los. Aprendi, também, que ninguém se perde definitivamente enquanto conserva a disposição sincera de recomeçar. Podemos
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escolher mal, podemos fugir da verdade, podemos até procurar quem nos diga aquilo que queremos ouvir. Mas chega sempre o momento em que cada um se encontra sozinho diante da própria consciência e dos efeitos dos seus atos. E é justamente aí que começa a possibilidade da mudança.

A vida não nos pede perfeição, mas esforço e vergonha na cara; não exige que nunca caiamos, mas que não façamos da queda uma morada. O verdadeiro amigo, o verdadeiro conselheiro e a verdadeira fé não são aqueles que nos oferecem desculpas fáceis para permanecermos iguais, mas os que, com amor e firmeza, nos ajudam a levantar.

Ninguém consegue enganar indefinidamente a própria consciência. Deus, que conhece nossas fraquezas muito melhor do que nós mesmos, não está interessado em nos humilhar por nossos erros, mas em nos ensinar, através deles, o caminho paciente da transformação e da autoeducação.

Naquele grande dia, estaremos diante de Deus e da nossa própria consciência, sem disfarces. Não haverá pastor de bode, amigo encardido, terapeuta fajuto ou falso profeta bem remunerado para responder por nós. Cada um encontrará o retrato das escolhas que efetivamente fez. Como escreveu Paulo em Romanos 14:12: “Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.”

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