Mostrando postagens com marcador Chico Viana. Mostrar todas as postagens

Melancolia e ironia têm em comum a percepção do contraste entre a pequenez do homem e o seu desejo de transcender a si mesmo rumo a uma ...

literatura paraibana melancolia ironia critica literaria chico viana
Melancolia e ironia têm em comum a percepção do contraste entre a pequenez do homem e o seu desejo de transcender a si mesmo rumo a uma experiência do Infinito. Tanto o melancólico quanto o ironista manifestam a consciência do impasse entre a relatividade do indivíduo e o Absoluto a que ele aspira.

Outra característica comum às duas é o combate entre ideia e forma, sentimento e expressão. É através da Forma que o melancólico procura compensar o sentimento de vazio, o vácuo narcísico que lhe compromete a referência autoidentitária. A arte é um sucedâneo do Objeto Perdido, o que dá à criação artística um estatuto de essencialidade e transcendência.

Desde que o homem é homem, tem a ambição de fabricar instrumentos que o auxiliem e eventualmente o substituam. A história humana pode ser ...

literatura paraibana modernidade tecnologia atraso robos afeto
Desde que o homem é homem, tem a ambição de fabricar instrumentos que o auxiliem e eventualmente o substituam. A história humana pode ser contada, e sobretudo compreendida, a partir dos artefatos com que ele vem transformando a natureza. A máquina é uma extensão de nossas faculdades e aptidões; quanto mais sofisticada, mais indicativa do refinamento a que terá chegado a inteligência humana.

Entre a enxada e o computador, vai um abismo que separa a nossa pré-história do estágio em que fazemos viagens fora da Terra, aspirando à conquista do espaço cósmico. O paradoxal é que, enquanto supercomputadores calculam as trajetórias

A melancolia acompanha o homem desde os seus primórdios, confundindo-se com o desencanto consequente à perda do Paraíso. Na literatura ocid...

literatura paraibana chico viana melancolia culpa desamparo poesia
A melancolia acompanha o homem desde os seus primórdios, confundindo-se com o desencanto consequente à perda do Paraíso. Na literatura ocidental, a representação do afeto melancólico remonta a Belerofonte, herói da mitologia grega, e desde então aparece em artistas, filósofos, cientistas e intelectuais cujo luto pelo Objeto Perdido precipita-os num abismo de devaneios e cogitações.

No princípio era o verbo, mas o que era mesmo esse verbo? Signo, carne, luz? Dependendo da resposta que cada um venha a dar, tem-se um mís...

literatura paraibana palavra palavrao escrita significados
No princípio era o verbo, mas o que era mesmo esse verbo? Signo, carne, luz? Dependendo da resposta que cada um venha a dar, tem-se um místico, um filósofo, um escritor. Ou mesmo um indivíduo pragmático, para quem a palavra é mera subsidiária da ação. Nascemos entre signos, e o verbo nos engendra.

1 O individualismo é a verdadeira religião universal. Como o indivíduo não se liga a grupos, credos, partidos, não exclui ninguém; está s...

literatura paraibana humor casamento dinheiro reflexoes pensamentos cotidiano anedota
1
O individualismo é a verdadeira religião universal. Como o indivíduo não se liga a grupos, credos, partidos, não exclui ninguém; está sempre aberto a todos. Mas o individualismo, ressalte-se, é diferente do egoísmo. O egoísta tende a recusar os outros. O individualista, não.

1 O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, co...

literatura paraibana sabedoria depressao velhice razao filosofia de vida cotidiano
1
O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

Entre os ofícios de pai, está o de comemorar o aniversário dos filhos – e comemorá-lo da melhor forma possível, provendo-o não apenas do m...

literatura paraibana relacao familiar aniversario pai chico viana
Entre os ofícios de pai, está o de comemorar o aniversário dos filhos – e comemorá-lo da melhor forma possível, provendo-o não apenas do material como também do espiritual. E tudo devidamente documentado com fotos e filmes para depois, olhando esses registros, todos na família confirmarem que estavam felizes. Nada pode dar errado e comprometer o sucesso do evento.

O poema “Barcarola”, inserido por Augusto dos Anjos no Eu, remonta a uma tradição cultivada pela poética medieval. Segundo Segismundo Spin...

literatura paraibana chico viana augusto anjos poesia barcarola destino existencialismo
O poema “Barcarola”, inserido por Augusto dos Anjos no Eu, remonta a uma tradição cultivada pela poética medieval. Segundo Segismundo Spina, a poesia luso-galega nos legou ao todo quinze barcarolas, sendo que treze delas apresentam estrutura paralelística. Também conhecido por marinha, esse tipo de composição versa sobre assuntos ligados ao rio ou ao mar.

Num dos episódios de “ The Crown ”, o personagem do príncipe Philip recebe a visita dos três astrona...

literatura paraibana viagem espacial excentricidade bezos cosmo transcendencia
Num dos episódios de “The Crown”, o personagem do príncipe Philip recebe a visita dos três astronautas que foram à Lua. Ele está ansioso pelo que vai ouvir. Espera um relato condizente com a extraordinária experiência pela qual aqueles homens passaram. Como tem lá os seus dilemas metafísicos, imagina que o grupo possa lhe dar alguma indicação de que vale a pena crer em Algo Maior.

Segundo o criacionismo, o mundo foi criado por Deus. Isso, a meu ver, de modo algum O recomen...

literatura paraibana chicoviana criacao divina deus religiao crenca
Segundo o criacionismo, o mundo foi criado por Deus. Isso, a meu ver, de modo algum O recomenda. É mais sensato imaginar que Deus queria fazer o mundo perfeito, à sua imagem, mas foi atrapalhado por um assistente inábil. Esse modo de ver se compatibiliza com os inúmeros desacertos que vemos nele. O maior desacerto é o próprio homem, esse bicho marcado pela dualidade do Bem e do Mal.

Há quem atribua nossas lacunas e arestas ao material de que fomos feitos – o barro. Por que Deus não usou um material mais resistente? Ou mesmo um desses produtos modernos, como o silicone? Algumas mulheres procuram hoje reparar o equívoco enchendo partes do corpo com esse nobre produto sintético. Mas é tarde. Por mais que plastifiquem a anatomia, a base continua lá, envelhecendo e se preparando para voltar à lama.

Deus usou o que tinha à mão, e só dispunha de seis dias. Era muito pouco para providenciar a Natureza com suas árvores, rios, vales, montanhas. Como seria possível, nesse prazo exíguo, trabalhar cada artefato com esmero? Um dos enigmas da Criação é saber por que Ele, sendo o patrão de si mesmo, trabalhou num prazo tão curto. Talvez não gostasse do que estava fazendo.

Como se não bastasse a exiguidade do prazo, Deus resolveu fazer o homem no último dia, ou seja, quando já estava exausto e tudo que queria era descansar (o trabalho foi tanto, e sob pressão, que Ele descansa até hoje). O efeito dessa pressa é que Adão foi um protótipo mal testado. Isso constituiu uma brecha para o descalabro que se seguiu: veio a Serpente, assessorada por Eva (ou vice-versa), e levou o primeiro homem a provar do fruto proibido. Adão pecou e logo descobriu, envergonhado, que estava nu – o que é estranho. Como ele poderia se perceber nu se nunca tinha usado roupa? O fato é que, devido a esse primeiro pecado, perdemos o Paraíso e nos tornamos mortais.

Geralmente se considera a morte a pior coisa que pode nos acontecer, mas há nisso um contrassenso. As pessoas aceitam de bom grado que o homem é um ser vivo – nasce, alimenta-se, cresce – mas acham um absurdo que ele vá morrer. Ou seja: querem da biologia apenas o que ela traz de bom. É como se depois de nascidos e já formados devesse ocorrer em nós um cancelamento das leis naturais e alguma forma de transcendência viesse nos animar; alguma coisa que daria a nossas células a eternidade. Infelizmente não é assim, de modo que o melhor é tratar de comprar o jazigo (pode ser em prestações). Tem gente que deixa para fazer isso literalmente “na última hora”, o que não é aconselhável. Comprando logo pode-se escolher o lugar e, com sorte, a vizinhança.

Teorias como a do Big Bang sugerem que a Criação está em curso. O universo continua a se povoar de luas, estrelas, galáxias, buracos negros. E agora, aparentemente, sem o controle divino. Deus pretendia que o Cosmo se resumisse à Terra, ao Sol e a alguns poucos corpos celestes, mas parece que perdeu o controle. Outros dizem que Ele continua descansando, mas um dia acorda e vai dar um sentido a tudo isso. Só nos resta esperar.

Quando os negócios vão bem; quando tivemos um dia até satisfatório de trabalho; quando nos preparamos para dormir confiantes no dever cump...

literatura paraibana autoajuda reflexao preocupacao infelicidade superacao
Quando os negócios vão bem; quando tivemos um dia até satisfatório de trabalho; quando nos preparamos para dormir confiantes no dever cumprido; enfim, quando tudo parece nos predispor à felicidade – eis que aparece a “coisinha”. Ela vem sob a forma de um receio, uma leve preocupação, uma lembrança incômoda que envolve nossa relação com os outros.  

“Toma um fósforo! Acende teu cigarro!” Já se vão mais de cinco décadas desde que ouvi esses versos pela primeira vez. Quem os citava era u...

literatura paraibana ensaio augusto anjos simbolismo misticismo
“Toma um fósforo! Acende teu cigarro!” Já se vão mais de cinco décadas desde que ouvi esses versos pela primeira vez. Quem os citava era um colega do Liceu Paraibano apaixonado por Augusto dos Anjos e que sabia de cor quase todo o “Eu”. Ele sublinhava com tragadas esparsas o recitativo e assumia um tom lúgubre, que realçava o pessimismo do poema. Um dos versos era de descrença profunda no amor – dizia que a “pantera” da ingratidão é a inseparável companheira do homem.

O fanático é alguém excessivamente aferrado a um credo, um sistema, uma ideologia. Ele não manifesta apenas uma adesão; de tal...

literatura paraibana fanatismo extremismo esquerdismo politica brasileira chico viana
O fanático é alguém excessivamente aferrado a um credo, um sistema, uma ideologia. Ele não manifesta apenas uma adesão; de tal modo se compenetra daquilo em que acredita, que a priori despreza qualquer valor ou sentimento distintos dos seus.

Gilberto Freyre escreveu dois artigos de enorme importância para a bibliografia crítica de Augusto dos Anjos. O primeiro foi redigido em i...

literatura paraibana Gilberto Freyre Augusto dos Anjos modernismo chico viana
Gilberto Freyre escreveu dois artigos de enorme importância para a bibliografia crítica de Augusto dos Anjos. O primeiro foi redigido em inglês e publicado em The Stratford Monthly (Boston, setembro de 1924). Traduzido para o português por Miguel Lopes Viera Pinto, está reproduzido em Perfil de Euclides e outros perfis, que foi publicado em 1944 pela José Olympio, na série Documentos Brasileiros.

Ainda não sei por que me dispus a cursar Medicina. Filho e sobrinho de professores, sempre estive ligado ao...

literatura paraibana indecisao vocacao duvida chico viana
Ainda não sei por que me dispus a cursar Medicina. Filho e sobrinho de professores, sempre estive ligado ao magistério. Comecei dando aulas particulares de Português na casa dos alunos. Com isso juntei um dinheirinho, que me permitiu dispensar a mesada do “velho” e comprar meu primeiro carro – um Fusca usado. Fiquei exultante, pois com ele era mais fácil arranjar namoradas.

A poesia de Olavo Bilac caracteriza-se pelo rigor formal e pelo despojamento na expressão dos estados emocionais. É comum acusá-lo de cere...

literatura paraibana ensaio olavo bilac parnasianismo romantismo simbolisto ilustracao rene magritte
A poesia de Olavo Bilac caracteriza-se pelo rigor formal e pelo despojamento na expressão dos estados emocionais. É comum acusá-lo de cerebral e frio, opondo-lhe o artesanato conciso ao derramamento dos românticos e ao anseio de religiosidade presente nos simbolistas. Por essa ótica, é difícil concebê-lo como um melancólico a lamentar o seu objeto perdido. A verdade, no entanto, é que em Bilac a representação melancólica perpassa diversas composições.

Espólio Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recua...

literatura paraibana chico viana poemas poesia

Espólio
Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recuar, continuo. Na falta, me complemento. Na dispersão, me situo. Do “não”, extraio o consenso.

Em que medida o elemento autobiográfico se insere na poesia de Augusto, autor de um único livro sintomaticamente intitulado Eu? Para res...

literatura paraibana chico viana augusto dos anjos existencialismo eu poetico eu lirico
Em que medida o elemento autobiográfico se insere na poesia de Augusto, autor de um único livro sintomaticamente intitulado Eu? Para responder a essa pergunta, tecerei breves considerações sobre a autobiografia, onde se conta a história de um eu, e sobre o gênero lírico, que também diz respeito à entidade subjetiva. Nosso propósito é apontar e discutir algumas passagens, ligadas à vivência do indivíduo Augusto dos Anjos, que de alguma forma se integram ao seu lirismo – fundado, como se sabe, numa visão muito particular da própria subjetividade e do mundo.

Na turma, todos queriam ser escritores. Rabiscavam contos, poemas ou trechos de romances e mostravam uns aos outros em mesas de bar ou nu...

literatura paraibana escritores critica imperfeicao habito ler
Na turma, todos queriam ser escritores. Rabiscavam contos, poemas ou trechos de romances e mostravam uns aos outros em mesas de bar ou num dos bancos da praça. Enquanto um lia, o autor esperava ansioso o veredicto.

O menino e o velho A soma dos contrários rege a vida e a tudo imprime o seu variado aspecto. Assim é que, a toda des...

chico viana poesia literatura paraibana tempo relacoes humanas solidariedade mito
O menino e o velho
A soma dos contrários rege a vida e a tudo imprime o seu variado aspecto. Assim é que, a toda despedida, corresponde também um recomeço. E a todo olhar brilhante de alegria subjaz uma nota de tristeza; como ao feio, que às vezes horroriza, deve mesclar-se um fundo de beleza.