Mostrando postagens com marcador Chico Viana. Mostrar todas as postagens

O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que ori...

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O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso.

Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o moti...

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Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato?

Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo ...

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Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa...

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A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.

Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a ...

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Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a rigorosos esquemas coreográficos. Blocos como o “Cordão da Bola Preta” ou o “Galo da Madrugada” (para citar dois dos mais famosos) mostram que a coreografia é um “empurra-empurra” balanceado ao qual se associa o coro de marchinhas que atravessam gerações.

Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular des...

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Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular dessa espécie poética surgida na Idade Média. Ao mesmo tempo, enfatiza-lhe o aspecto confessional. Expor a alma como flores numa janela é mostrá-la ao mundo, com a delicadeza de suas pétalas, e ao mesmo tempo aliviar o espírito graças ao arejamento que esse ato produz.

O rótulo de “psicossomática”, embora não esteja literariamente estabelecido, parece-nos adequado para definir...

O rótulo de “psicossomática”, embora não esteja literariamente estabelecido, parece-nos adequado para definir a forma como Augusto dos Anjos associa temas psicológicos profundos (angústia, pessimismo, melancolia) à ênfase crua e materialista no corpo. Essa é uma das características da sua obra e reflete as influências científicas e filosóficas da época (cientificismo, naturalismo, monismo), que mostravam o ser humano como um organismo sujeito às leis da biologia e da física.

Numa passagem de “Dom Casmurro”, Bentinho passeia com o agregado José Dias numa das ruas centrai...

Numa passagem de “Dom Casmurro”, Bentinho passeia com o agregado José Dias numa das ruas centrais do Rio. Vão conversando amenidades (José Dias despejando seus superlativos), quando uma mulher tropeça a poucos metros deles. Com a queda, ela deixa ver parte da liga que lhe aperta uma das meias.

A menina chora. Chora e não quer acordo, hostil ao que represente aceno, apelo, intercurso harmônico da linguagem. E chora com uma ...

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A menina chora. Chora e não quer acordo, hostil ao que represente aceno, apelo, intercurso harmônico da linguagem. E chora com uma particular noção de ritmo, alternando ganidos com soluços e gemidos. Tudo isso compõe uma música cruel, disfonia enervante que estoura os ouvidos. É noite, e a menina trucida o silêncio a cutiladas roucas.

Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibund...

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Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.

A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer ...

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A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer de ter alguém perto. Alguém com quem conversar ou ficar em silêncio. Alguém que nos compenetre tão profundamente da ideia do Semelhante, que nos permita partilhar sem reservas a nossa humanidade.

Estilo Nelson Rodrigues Na noite de Ano-Novo, Orlandinho chegou em casa e encontrou Zulmira faze...

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Estilo Nelson Rodrigues
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Na noite de Ano-Novo, Orlandinho chegou em casa e encontrou Zulmira fazendo amor com seu melhor amigo (dele, não dela). Matou os dois a garrafadas de champanhe, que escorreu pelo chão e se juntou ao sangue dos traidores. Orlandinho brindou aos falecidos e depois se entregou à polícia, chorando lágrimas de esguicho.

Ele tinha um nome tão antigo quanto o próprio Natal: José. José e mais nada. A singeleza desse nome resumia o sentido e ...

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Ele tinha um nome tão antigo quanto o próprio Natal: José. José e mais nada. A singeleza desse nome resumia o sentido e a dimensão da sua própria vida. Uma vida-José. Não era carpinteiro como o seu homônimo bíblico, mas aposentado do serviço público. E tinha, além do mais, a peculiaridade de ser gordo.

Despertei para os livros olhando a estante no escritório do meu pai. Aqueles volumes massudos assustavam,...

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Despertei para os livros olhando a estante no escritório do meu pai. Aqueles volumes massudos assustavam, ainda não me diziam nada, mas tinham algo de imponente que soava como um desafio. O que havia neles? E por que o “Velho” os abria e ficava horas contemplando o seu interior?

A Idade Média fascinava Maurice van Woensel, e não apenas por razões afetivas ou estéticas. Maurice dizia que o essencial das manife...

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A Idade Média fascinava Maurice van Woensel, e não apenas por razões afetivas ou estéticas. Maurice dizia que o essencial das manifestações artísticas do Brasil, e especialmente do Nordeste, enraíza-se no Medievo. E tinha razão. Segundo Afrânio Coutinho, a literatura brasileira nasce sob o signo do Barroco. E o que é o Barroco, senão o efeito da cultura medieval sobre a visão de mundo herdada do Classicismo? Barroco é dualismo, agonia, antítese; o que anima a alma barroca é o impulso cristão de contestar o racionalismo e o humanismo da Grécia e de Roma. Para contestá-los procuramos os modelos teocêntricos de vida e arte vigentes na Idade Média, de cujo imaginário se embebeu nosso espírito latino.

A hipálage é uma figura de sintaxe pela qual se aplica a um termo um atributo que pertence a outro. Tal...

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A hipálage é uma figura de sintaxe pela qual se aplica a um termo um atributo que pertence a outro. Tal recurso enriquece o estilo por quebrar a expectativa lógica e criar ambiguidade, sugerindo ao mesmo tempo dois sentidos – um real e outro figurado. A hipálage condensa significados ao fazer com que um único termo se irradie sobre diferentes elementos da frase. É comum que, por meio desse expediente, amplifique-se o valor semântico dos adjetivos e se produzam novas figuras.

Alguém já disse que a cama é um móvel metafísico, pois nela o indivíduo nasce...

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Alguém já disse que a cama é um móvel metafísico, pois nela o indivíduo nasce, ama e morre. Vejo-a mais como um móvel físico, em que a gente dorme para aliviar os incômodos do corpo.

– Eu lhe gosto. – Eu gosto de você. – Hem?! – Eu também gosto de você, ora. – Está me cor...

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– Eu lhe gosto.
– Eu gosto de você.
– Hem?!
– Eu também gosto de você, ora.
– Está me corrigindo?
– Corrigindo como?
– Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso. Precisa ser continuamente renovada para não pe...

Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso. Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem.

Lê-se “A cerimônia do adeus”, de Simone de Beauvoir, com um olho no texto e outro na realidade. É certo que, não sendo ficção, mas um ...

Lê-se “A cerimônia do adeus”, de Simone de Beauvoir, com um olho no texto e outro na realidade. É certo que, não sendo ficção, mas um relato dos últimos dez anos de Sartre, a narrativa é realidade. Mas o leitor, que de uma forma ou de outra acompanhou a aventura intelectual do par famoso, não escapa ao impulso de bisbilhotar. Uma bisbilhotice superior e desculpável, cujo objetivo é surpreender contradições que revelem, por exemplo, a burla.

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