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Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure....

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Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure. Ela se impõe e nos envolve, com seus tentáculos lerdos e brancos. Ou com a força de um bicho doméstico e inevitável, que nos acua todo o tempo. Ainda não encontrei ninguém que dissesse: “Busco ou, pelo menos, aceito a rotina; os atos simples e repetidos do dia a dia me satisfazem”. Pelo contrário. Todos querem o diferente e o inusitado, embora diariamente tropecem na armadilha do mesmo e do igual.

Trinta anos de casamento, Nicanor pensou em fazer uma surpresa à mulher: – Que tal a gente voltar ao motel em que dormimos juntos pela pri...

Trinta anos de casamento, Nicanor pensou em fazer uma surpresa à mulher:

– Que tal a gente voltar ao motel em que dormimos juntos pela primeira vez?

– Motel?! Que ideia!

– Por que não? Vai ser gostoso relembrar a sensação daquele encontro.

Tanto insistiu, que Matilde terminou concordando. Meio a contragosto, é certo, mas não custava satisfazer esse capricho do marido, que ainda veio com outro:

Clarice e Lisete pareciam ter vindo ao mundo para ser amigas. Conheceram-se ainda meninas; mal uma bateu os olhos na outra, senti...

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Clarice e Lisete pareciam ter vindo ao mundo para ser amigas. Conheceram-se ainda meninas; mal uma bateu os olhos na outra, sentiu o que se poderia chamar “lampejo de afinidade”.

Assistiam às aulas em cadeiras vizinhas, e nos intervalos não se despregavam. Tinham a mesma opinião sobre os professores e os colegas, que pareciam tão diferentes delas! A amizade as colocava num mundo à parte, onde não havia rusgas nem ressentimentos.

Os proparoxítonos são nobres. Os paroxítonos, triviais (correspondem à maior parte do léxico). O que dizer dos oxítonos? Com a tônica na ...

Os proparoxítonos são nobres. Os paroxítonos, triviais (correspondem à maior parte do léxico). O que dizer dos oxítonos? Com a tônica na última sílaba, eles têm um quê de retumbante e definitivo. Só se dão por inteiro. Nada os pode mutilar, sob pena de lhes destruir a alma, o icto, a sílaba tônica.

Talvez por isso eu tenha por eles um “xodó”. Um inexplicável “lundum”. Uma admiração sem “rapapés”. Sou Chico, mas gostava de ouvir um amigo que me chamava de “Chicó”. O esticamento e a abertura da sílaba final faziam a palavra soar como um dó de peito. Era difícil resistir ao apelo de quem me chamava assim.

O texto de humor é excelente material para o estudo da língua. Isso porque os recursos que levam...

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O texto de humor é excelente material para o estudo da língua. Isso porque os recursos que levam ao riso decorrem de uma relação peculiar entre significante e significado. O efeito humorístico vem de uma ruptura que, como no texto poético, promove uma desautomatização do sentido. Espera-se uma coisa, e aparece outra. Primeiro, o ouvinte/leitor se depara com o imprevisto; depois, constata que esse imprevisto aponta para outro sentido, portador de uma intenção crítica ou irônica.

Recentemente alguém me enviou um zap com uma oferta curiosa: vender curtidas nas redes sociais. Por certa quantia ele poderia fazer com qu...

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Recentemente alguém me enviou um zap com uma oferta curiosa: vender curtidas nas redes sociais. Por certa quantia ele poderia fazer com que o meu Instagram, por exemplo, apresentasse um número de seguidores bem maior do que os que tenho.

'Ridendo castigat mores', ...

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'Ridendo castigat mores', diziam os antigos. O riso é tradicionalmente considerado um meio de criticar aspetos negativos dos indivíduos e da sociedade. Rimos do que é excessivo, inoportuno, inadequado a certos ambientes. Leon Eliachar definiu o humor como “a cócega da inteligência”, ressaltando a íntima relação que há entre ele e a nossa condição de seres racionais.

Sempre que pergunto em classe qual o oposto da hipérbole, a turma responde que é o eufemismo. Não me deparei c...

Sempre que pergunto em classe qual o oposto da hipérbole, a turma responde que é o eufemismo. Não me deparei com esse equívoco apenas em sala de aula – também o constatei em portais de língua portuguesa.

A verdade é que o contrário da hipérbole não é o eufemismo. Essas figuras não podem se contrapor, uma vez que se situam em áreas diferentes. A hipérbole diz respeito ao “pathos” (paixão), enquanto que o eufemismo está ligado ao “ethos” (caráter).

A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologis...

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A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologistas consideravam-na imprescindível para impedir a contaminação e faziam contínuos apelos para que as pessoas a usassem em locais públicos. Sem esse higiênico tapume que nos cobria parte do rosto, era impossível sair de casa – e havia os que, mesmo no recesso doméstico, não a dispensavam.

O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então ...

O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:

– Acho que devemos dar um tempo.

– Concordo – disse ela prontamente.

– Amanhã vou dar entrada nos papéis.

Foi num domingo. Andando pela calçadinha da praia, vi duas moças conversando num banco lateral. Ao passar por elas, ouvi uma dizer: “O que...

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Foi num domingo. Andando pela calçadinha da praia, vi duas moças conversando num banco lateral. Ao passar por elas, ouvi uma dizer: “O que não suportei foi aquele meio sorriso.”

Fiquei intrigado com a expressão. “Meio sorriso”. Não um sorriso inteiro, mas a metade, se é que se pode dividir esse enigmático desenho fisionômico em dois; ele não se confunde com o riso, que é explícito e escancarado. Fiquei me perguntando se hão haveria um pleonasmo em se falar em “meio sorriso”. O sorriso por si já não é algo menor?

Todos sabem o que é o “politicamente correto” – esse modo de pensar inclusivo, aberto às diferenças e inimigo do...

Todos sabem o que é o “politicamente correto” – esse modo de pensar inclusivo, aberto às diferenças e inimigo dos preconceitos. Ele tem se estendido a vários aspectos da sociedade, mas estranhamente deixou de lado o Carnaval. Uma breve pesquisa sobre as músicas carnavalescas, no entanto, mostra o erro de tal omissão É verdade que há algum tempo se baniu “Tropicália” e "Cabeleira do Zezé" , mas não são apenas essas canções que embutem um conteúdo preconceituoso.

Há 110 anos, vinha a público um dos livros mais estranhos da literatura brasileira. Seu título? “Eu”. Seu autor? Um paraibano magro, nasci...

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Há 110 anos, vinha a público um dos livros mais estranhos da literatura brasileira. Seu título? “Eu”. Seu autor? Um paraibano magro, nascido em engenho de cana-de-açúcar, que tinha no magistério o seu ofício e na poesia o meio de traduzir as obsessões que lhe tumultuavam o espírito.

Nem todos ainda conseguiram engolir o slogan da Skol. O uso do masculino em “A cerveja que desce redondo” continua entrando quadrado na ca...

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Nem todos ainda conseguiram engolir o slogan da Skol. O uso do masculino em “A cerveja que desce redondo” continua entrando quadrado na cachola até de estudiosos da língua. Um deles publicou há algum tempo um artigo defendendo que o adjetivo se flexione no feminino. Acha que “redondo” não se refere ao verbo “descer”, mas sim ao estado do líquido. Ele justifica seu ponto de vista com o argumento de que “a redondeza é a da cerveja que, líquida, se adapta ao recipiente que a contém e acompanha a anatomia circular da garganta”.

– Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada. – “Urge”?! O que é isso? – A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “u...

– Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.

– “Urge”?! O que é isso?

– A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!

Saio do barbeiro (falo “barbeiro” por algum obscuro resíduo machista; o certo hoje é dizer “cabeleireiro”) e vou caminhando pela praia. D...

Saio do barbeiro (falo “barbeiro” por algum obscuro resíduo machista; o certo hoje é dizer “cabeleireiro”) e vou caminhando pela praia. De máscara. Penso na crônica que devo escrever. Qual vai ser o assunto? Vou devagarinho pela calçada, sentindo-me recomposto em meu aspecto e, sobretudo, aliviado com os fios brancos – hoje são tantos! – que ficaram no chão. O barbeiro (ou cabeleireiro) fez um trabalho ao mesmo tempo estético e higiênico, decepando-me as marcas hirsutas de velhice. Tanto desbastou, que me sinto mais moço. E olho com uma euforia antiga, um quase adolescente vigor de espírito, a paisagem e as pessoas que passam por mim.

Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apen...

Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes. Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.

Poucos recursos são tão engenhosos na língua quanto o diminutivo. Ele não é apenas uma medida de tamanho ou de valor; é sobretudo uma form...

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Poucos recursos são tão engenhosos na língua quanto o diminutivo. Ele não é apenas uma medida de tamanho ou de valor; é sobretudo uma forma de nos colocarmos no mundo. Uma estratégia de convivência, um meio de nos relacionarmos com as pessoas. Sem o diminutivo teríamos que enfrentar tudo em grau normal, quer dizer, na crua dimensão da realidade.

'O pássaro secreto', de Marília Arnaud, é o relato de uma crise. O romance se estrutura co...

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'O pássaro secreto', de Marília Arnaud, é o relato de uma crise. O romance se estrutura como uma parte propriamente narrativa, em que a personagem principal, Aglaia Negromonte, relata cronologicamente os fatos ligados à sua vida, e outra com características de um diário. Nessa última a personagem reflete sobre a sua experiência no lugar a que é conduzida por força das ocorrências que, em grande parte por culpa dela própria, lhe destruíram a sanidade. A bem urdida alternância entre os dois segmentos sugere-nos, desde o início, que desfecho lhe seria destinado.

Costuma-se destacar no “Eu” apenas o desencanto existencial e a fixação na deterioração da matéria. Articulado ao polo de tristeza e pessi...

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Costuma-se destacar no “Eu” apenas o desencanto existencial e a fixação na deterioração da matéria. Articulado ao polo de tristeza e pessimismo, no entanto, existe na obra de Augusto dos Anjos uma dimensão oposta, de erotismo e alegria. Nesse plano nem tudo se resume à fixação na morte e à apologia do verme, sendo possível perceber em algumas passagens a satisfação com a vida e a exaltação da Natureza – a mesma Natureza que em outros momentos aparece como a “velha madrasta” a cujas leis o homem está acorrentado.