No dia 10 de março de 1980, os paraibanos foram surpreendidos, por volta das sete horas da manhã, com uma notícia impactante: falecia o ilustre paraibano José Américo de Almeida. Morria ali o corpo físico de um ser, para emergir e consagrar a imortalidade do brasileiro-paraibano para história nacional, em várias vertentes: humanista, cultural e política.
José Américo de Almeida ▪️ Arquivo Nacional
Rapidamente, a notícia se espalhou pelo Brasil afora. Afinal, era uma personalidade de renome no país. Horas depois, a Praça João Pessoa (conhecida como a Praça dos Três Poderes), na capital paraibana, começava a receber o público, ávido para se despedir do famoso ex-ministro, que foi velado primeiro em casa, por pouco tempo, e depois seguiu para o Palácio da Redenção, onde exerceu dois mandatos de governador.
Corpo do ministro José Américo de Almeida sendo velado inicialmente em casa ▪️ Jornal A União
Faleceu aos 93 anos, ainda com toda lucidez, de tempo e espaço. O óbito aconteceu às 6h25. Segundo sua fiel secretária, Lourdinha Luna, antes das cinco horas da manhã ele dissera: "Eu sei que vou morrer" e perguntou a que horas seu filho general Reynaldo Almeida chegaria. Certa vez ele revelou à Lourdinha o desejo de ser sepultado na Paraíba e não no mausoléu dos imortais da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.
Velório de José Américo de Almeida ▪️ Jornal A União
Conforme a cobertura expressiva do jornal A União (11/3/80), distribuída em várias páginas, centenas de pessoas, formadas por um diversificado público fôra se despedir "do político e homem das letras". Tanto autoridades, vindas de diversos Estados, como cidadãos comuns que o admiravam. O Governo do Estado recebeu mensagens de pêsames, de todos os recantos do país.
A comoção, segundo A União, foi grande. Houve choros, lamentações, desmaios e muitas flores. E assim, a julgar pela cobertura jornalística de fôlego, se o funeral de José Américo de Almeida, não foi o maior, certamente foi um dos maiores da Paraíba.
Foi sepultado com honras de ministro de Estado. Homens da Polícia Militar e do Exército estavam a postos, do Palácio da Redenção até o cemitério Senhor da Boa Sentença, para controlar o percurso.
Repercussão nacional
A manchete de capa registrou: "Brasil lamenta a morte de José Américo". O então presidente da República, general João Batista Figueiredo, decretou luto oficial no país e enviou mensagem, para o filho, general Reynaldo Almeida, destacando que José Américo ficaria na memória do povo brasileiro, "pelo exemplo de civismo que deu à Nação".
Já o vice-presidente Aureliano Chaves destacou a perda para o país, pelos relevantes serviços prestados, ao longo dos importantes cargos exercidos. No Senado Federal, alguns senadores choraram. Primeiro a falar, o senador Humberto Lucena disse que “José Américo, com suas inequívocas demonstrações de civismo e de amor à democracia, tornou-se uma legenda, um paradigma que influenciou muitas gerações de políticos”. Também na Câmara dos Deputados, líderes de governos e oposição, intelectuais prestaram homenagem ao ministro, por meio de mensagens, solidarizando-se com a dor da Paraíba. Uma matéria de A União (11/3, pag 7) destaca: “Senadores choram em plenário lembrando o velho companheiro"
Argemiro de Figueiredo ▪️ Arquivo Nacional
Adversário político, o então senador Argemiro de Figueiredo expressou: "a Paraíba acaba de perder o maior de seus filhos", acrescentando que "sou dos que pensam que a velhice e a morte extinguem todas as querelas. Falo de alma limpa sem quaisquer ressentimentos e associo-me ao sentimento geral da Paraíba, de dor e profundo pesar".
Representando o então presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, nos funerais, o escritor Mauro Mota resumiu: ¨Ele matou a morte”. E justificou: ¨Por mais triste que seja o sentimento da sua ausência, o homem continuará cada vez mais permanente, através de suas obras literárias. Foi grande na vida política e na vida administrativa. Era um líder dos mais autênticos e representativos. Conseguiu, através de sua vida, matar a morte”.
O escritor Gilberto Freyre, ao enaltecer a dimensão do "Homem de Areia" assim se expressou:
"José Américo representou no Brasil uma vigorosa presença renovadora, tanto nas letras como na ação política. Esse homem de Letras, um dos maiores que tem tido o Brasil, foi também um incisivo homem de ação. Passou pela política brasileira de modo ao mesmo tempo vulcânico e construtivo. É pena para o Brasil não ter ele chegado, como esteve para chegar à Presidência da República. Teria sido, neste posto, renovador. Acima de burocratismos e politicismos".
Gilberto Freyre lamentou que José Américo não tivesse sido Presidente da República do Brasil ▪️ Fonte: FGF
O superintendente da Sudene, também representando o Ministro do Interior, Mário Andreazza, ao lamentar o falecimento, destacou: “o ministro José Américo foi um dos homens que mais contribuíram para o equacionamento dos problemas do Nordeste, não só com estudos sociológicos como também científicos, que estão registrados em seus livros¨.
Dom José Maria Pires ▪️ Fonte: Arquidiocese PB
Já o arcebispo, Dom José Maria Pires, que comandou a concelebração da missa, no Palácio da Redenção, disse que "o ministro estava acima de partidos e que mesmo sem estar mais entre os vivos a sua obra e seu exemplo devem continuar animando as gerações futuras". O ex-governador João Agripino Filho afirmou que José Américo foi "um símbolo e ídolo de gerações.
Outros destaques de páginas:
"Brasil fica sem grande estadista".
"José Américo tornou-se símbolo e ídolo".
"Morte causa pesar no Congresso".
"Governo do Estado recebe mensagens de todo país".
"Câmara decreta luto oficial por 3 dias".
"Academia fará sessão da saudade"
General Reynaldo Mello de Almeida, filho de José Américo de Almeida ▪️ Arquivo Nacional
“Um pai, um amigo” - O filho do ministro, Reynaldo Mello de Almeida, então presidente do Superior Tribunal Federal, falou para os repórteres: “Perdi um pai e um excelente amigo. O que vocês querem que eu diga mais, a não ser expressar minha dor, minha saudade e minha tristeza.
Um repórter perguntou:
- General, todos falam no José Américo escritor, político, homem público. E o José Américo pai, como era ele?
- Excepcional – respondeu. Carinhoso, amigo, interessado pelos seus filhos e dedicado exclusivamente à sua família.
José Américo teve repercussão internacional – Quem atestou, na sua mensagem, foi o escritor paraibano Edilberto Coutinho:
"Não apenas considero José Américo de Almeida o pai do romance moderno, mas uma das figuras mais importantes
Edilberto Coutinho ▪️ Fonte: babelio.com (adap)
da literatura de ficção do século XX. Estive nos Estados Unidos da América fazendo conferências sobre a literatura brasileira, recentemente, e em todas as Universidades que estive, os livros de José Américo são adotados. É um nome que a Paraíba ofereceu não só ao Brasil, mas a literatura universal. Para mim, José Américo pensa que morreu, porque sua obra continuará, e continuará mais viva." (A União 11/3/1980, pg 5 e como manchete "José Américo pensa que morreu".
Casa de José Américo: de residência a Museu renovando e prosseguindo a Vida
O anúncio de transformação da residência de José Américo em Museu aconteceu já no funeral, lançando ali a semente da vida da Fundação Casa de José Américo (FCJA). Foi a ideia, além da inspiração para imortalizar o seu nome e sua história. Uma história digna de reflexos exemplares para dar continuidade à divulgação da cultura paraibana.
Edição de A União do dia 12/03/1980
Segundo a edição de A União, do dia 12 de março de 1980, repercutindo os funerais, essa iniciativa foi anunciada pelo então governador da Paraíba, Tarcísio Burity:
"A residência do ex-ministro José Américo de Almeida, que serviu de seu refúgio, durante vários anos, na praia de Tambaú, será transformada em Museu", anunciou Burity, acrescentando que os trabalhos de instalação do museu começariam ainda naquele ano, com a execução de obras e serviços, para adaptação do imóvel.
Na mesma ocasião, Tarcísio Burity já informou o objetivo da Fundação: "Haverá um local destinado à leitura, onde os frequentadores terão acesso à documentação histórica, arquivada há várias décadas pelo ministro. Trata-se de uma homenagem das mais justas, a um homem que sempre procurou servir ao seu povo com dedicação e projetou a Paraíba da melhor forma no cenário político e cultural da nação", afirmou Burity.
Preparativos x inauguração
O acervo de fotos da Fundação Casa de José Américo (FCJA), documenta que dois dias depois do falecimento (12/3/1980), o governador Tarcísio Burity já começou a acertar a compra da casa com o general Reynaldo Almeida, filho de José Américo.
Tarcísio Burity ▪️ Fonte: EPC
Na sequência, legendas de fotos de uma solenidade no Palácio da Redenção indicam que, em 18 de dezembro de 1980, o governador Tarcísio Burity e o general Reynaldo Almeida fundam a Fundação Casa de José Américo. E, coincidindo com o primeiro aniversário de morte, no dia 10 de março de 1981, o governador Tarcísio Burity assina o ato constitutivo da Fundação Casa de José Américo, na então residência: Av. Cabo Branco - 3336, na orla do Cabo Branco.
A edição do jornal A União, do dia seguinte, 11 de março de 1981, destaca que "Governo cria a Casa de José Américo de Almeida". Segundo o ato, eis as diretrizes: "A Fundação Casa de José Américo de Almeida, que funcionará na antiga residência do Ministro, em Tambaú, tendo como objetivo principal preservar o nome e todo acervo cultural deixado pelo 'Homem de Areia'. A fundação será presidida pelo professor Milton Paiva e, em breve, o fabuloso arquivo, contando os principais fatos históricos dos últimos cinquenta anos estaria à disposição de estudantes e intelectuais para pesquisas.
Na sequência dos preparativos, chega-se à apoteose: inauguração da Fundação Casa de José Américo, com a presença do então vice-presidente da República, Aureliano Chaves. O fato aconteceu no dia 10 de janeiro de 1982, numa solenidade bastante prestigiada por um público diversificado, com supremacia de políticos e intelectuais.
Vice-Presidente da República Aureliano Chaves e Tarcísio Burity inauguram Fundação Casa de José Amérco em 1982 ▪️ Fonte: A União
José Américo: Versátil na cultura e na política
Polivalente na literatura e política, José Américo de Almeida foi também uma das mais expressivas figuras paraibanas e nacionais. Enveredou por diversos cargos, inclusive "quase" presidente e vice-presidente da República, porém destacou-se ao ocupar importantes cargos: deputado, senador, governador (dois mandatos), ministro, além de fundador e reitor da Universidade Federal da Paraíba.
Ficou conhecido como o "Ministro das Águas", ao ser Ministro de Viação e Obras Públicas e por transformar a cruel realidade de seca no Nordeste. Daí, pavimentou os caminhos para reverter a situação, investindo na construção de açudes e outros recursos hídricos.
José Américo de Almeida ▪️ Fonte: FCJA
Renomado literata, o currículo indica que José Américo de Almeida é imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e Academia Paraibana de Letras (APL). Escreveu 17 livros, de várias tendências literárias: romance (Bagaceira é a obra-prima), contos, poesias, crônicas, dentre outras formas de expressão. Se José Américo consagrou seu nome nacionalmente, também ultrapassou fronteiras. Até hoje, suas ações e obras inspiram muitos projetos de pesquisas. E, assim, segue sua “imortalidade”, pelo mundo afora.