A obra Zé, A Velha e Outras Histórias, de Aldo Lopes de Araújo, inscreve-se na tradição da narrativa regional brasileira, mas ultrapassa o mero regionalismo ao tocar dimensões universais da experiência humana. O livro constrói um mosaico de personagens simples — homens e mulheres anônimos — que, embora enraizados em um espaço geográfico específico, tornam-se arquétipos das tensões entre tempo, memória e sobrevivência.
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A escrita de Aldo Lopes de Araújo caracteriza-se por uma linguagem enxuta, porém carregada de densidade poética. Há economia verbal, mas não pobreza expressiva. O autor parece compreender que, no universo retratado, o silêncio fala tanto quanto a palavra. As pausas narrativas, as descrições contidas e o ritmo cadenciado evocam a oralidade sertaneja, aproximando o leitor de uma tradição que remonta aos contadores de histórias e às narrativas de terreiro.
Um dos méritos centrais da obra é a construção psicológica das personagens. Mesmo quando breves, os contos não reduzem seus protagonistas a tipos caricaturais. Pelo contrário, revelam fissuras internas, medos, sonhos e frustrações. O sertão — ou o espaço rural
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Tematicamente, o livro percorre questões como solidão, abandono, velhice, morte e esperança. A velhice, em especial, surge como metáfora do próprio país profundo: esquecido, mas carregado de saberes. O autor não romantiza a miséria nem idealiza a pobreza; há uma crueza ética em sua abordagem. Contudo, também não cai no miserabilismo. A dignidade humana permanece intacta, mesmo nas situações mais adversas.
A estrutura da coletânea reforça a ideia de continuidade temática. Cada história funciona como peça autônoma, mas, em conjunto, compõe um painel social coerente. O leitor percebe ecos entre os contos, como se todos compartilhassem o mesmo horizonte afetivo e simbólico. Essa unidade interna revela maturidade estética e domínio narrativo.
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Outro aspecto relevante é o tratamento do tempo. O tempo na obra não é linear; ele é circular, repetitivo, marcado pelas estações e pela memória. O passado infiltra-se no presente, moldando atitudes e decisões. Essa concepção temporal reforça o caráter existencial dos contos: a vida é ciclo, é retorno, é permanência na mudança.
Em termos simbólicos, a figura da “Velha” pode ser lida como alegoria da tradição cultural que insiste em sobreviver diante das forças modernizadoras. Já Zé encarna o sujeito comum, dividido entre aceitar seu destino e insurgir-se contra ele. A tensão entre esses dois polos gera o núcleo dramático que atravessa a coletânea.
Aldo Lopes, autor de Zé, A Velha e Outras Histórias (Ed. Arribaçã) ▪️ Fonte: A União
Trata-se de um livro que confirma a vitalidade da narrativa curta brasileira e reafirma o poder da literatura como espaço de memória, denúncia e transcendência.









