A semana permitiu-me tempo para a busca de antigas publicações, várias delas produzidas para a Revista "Algomais", um seman...

Revirando o baú

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
A semana permitiu-me tempo para a busca de antigas publicações, várias delas produzidas para a Revista "Algomais", um semanário de circulação regional editado no Recife. É o caso dessa entrevista para uma das edições de fevereiro de 2010. “Ser poeta é ter vocação para pôr do sol”. – A frase, ouvida de Jessier Quirino, tema da pauta recebida do editor Roberto Tavares, serviu de título para a matéria. O texto, em pingue-pongue, exigia a apresentação do entrevistado, por mais que ele já se fizesse conhecido em razão dos recitais e causos levados a plateias sucessivas, Brasil a fora.

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Revista Algomais, Recife-PE, fev/mar/2010 ▪ Acervo: F. Chaves
E a coisa saiu assim: “Jessier Quirino, arquiteto por opção e poeta por natureza, tem voado de Itabaiana, cidade do Baixo Vale do Rio Paraíba, nas asas de uma fama crescente. Faz-se solto no mundo, todavia, em decorrência não daquilo que projetava para execução em pedra e cal e, sim, de obras imateriais dispostas à morada da alma e do deleite. Tanto já fez e tanto se ergueu nos ventos do Agreste paraibano que o poeta terminou por aposentar o profissional da arquitetura. Sobrevive sem ele. Ou seja, Jessier comete o milagre do sustento familiar com ininterruptos contratos para recitais e a venda de obras inscritas no gênero menos rentável da literatura”.

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Jessier Quirino, poeta, declamador, escritor e arquiteto paraibano, nascido em Campina Grande. ▪ Instagram: @jessierquirino
A bem da verdade, o arquiteto ainda teimava em aparecer, mesmo que de relance, como o fez no poema “A Cumeeira de Aroeira lá da Casa Grande”, do livro Bandeira Nordestina (Ed. Bagaço, 2006), que ganhou esta abertura:

Oh! cumeeira de aroeira dessa casa-grande Veja e nos mande uma visão dessa velha morada Sendo a parada retilínea do telhado em quedas Não te arredas dessa empena tão estruturada Sois a chegada de telheiro, ripa e caibaria Hospedaria de pavões, corujas e pardais Nos teus anais e cabedais de vida em cumeeira Diz aroeira – dessa casa – o que enxergas mais?
O bate-papo dava-se no clima de “Berro Novo”, o livro que ele havia lançado na Bienal de Pernambuco, com prefácio de Marcos Accioly. Era obra que, a exemplo das demais, vinha com um CD no encarte. “Já faz sucesso no meio da matutata e dos letrados”, contava Jessier, para lá de satisfeito, como se isso, no seu caso, fosse novidade.

Eis um resumo da entrevista:
Algomais ▪ Arquiteto e poeta. Quem concilia ambas as situações busca o arranjo de ângulos, estilos e formas. Você diria que são coisas com a mesma essência?

Jessier Quirino ▪ Acho que sim. E, em algumas situações, se complementam. Cheguei até a fazer um poema que, depois, musiquei. É a visão de uma casa grande de fazenda, toda mobiliada, descrita na ótica da cumeeira.
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Instagram: @jessierquirino
A bem dizer, uma planta cantada. Chama-se A Cumeeira de Aroeira lá da Casa Grande. É um poema que emociona as pessoas, pela força da imagem de elementos simples, que até já nem fazem parte do nosso dia-a-dia. O poeta Zé Marculino dizia que a poesia está em todo canto: nas coisas, na natureza. E que cabe ao poeta observá-la e descrevê-la. Outros dizem que ser poeta é ter vocação para pôr-do-sol. Talvez, um arquiteto que tenha essa vocação para o crepúsculo, no nosso caso, observe isto com mais detalhes.

Algomais ▪ Você faz poesia num País e, sobretudo, numa Região de pequena produção literária, quando comparada ao contingente populacional que somamos. Com seu inegável sucesso, o poeta, se assim desejasse, poderia dispensar o arquiteto sem comprometer o sustento da família?

Jessier Quirino ▪ Na realidade, o poeta, em formato de locomotiva, até já atropelou o trabalho do arquiteto há, pelo menos, três anos. Como arquiteto, autônomo, eu atuava na área de arquitetura comercial, projetando concessionárias de automóveis, em todo Nordeste. Agora, não tenho mais tempo para acompanhar uma obra, o que requer bastante dedicação.
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Instagram: @jessierquirino
Tenho uma agenda artística intensa com eventos corporativos e espetáculos de teatro, em todo o Brasil. Hoje, a poesia é, de fato, meu ganha-pão e ganha-abraço. A farinha d`água do meu beiju. Sou um animal doméstico, pouco afeito a estripulias festivas. Como disse, não há mais a atividade do arquiteto e as viagens são muitas e para regiões diversas do Brasil. Estando por perto, sempre retorno à minha base, em Itabaiana. Estive, em dezembro passado, em Rio Branco, no Acre, pela segunda vez, onde me deparei com um contingente de cearenses sedentos de prosa de alpendre. Isto me surpreende, positivamente, e me faz crer que nunca devemos subestimar o alcance do poderio bélico da matutada.

Algomais ▪ Como você lida com a inspiração?

Jessier Quirino ▪ Anoto, prontamente, tudo o que me vem à cabeça. Este trabalho de anotação é, de fato, um hábito, não só meu, mas de muita gente que traqueja no universo das palavras. Costumo, sim, fazer anotações, e na hora, feito caldo de cana, num bloco, no celular e, é claro, num gravador, quando disponível. Utilizar estas anotações na etapa de construção do poema equivale às tintas que um pintor disponibiliza para a feitura de um quadro.
Desde o tempo de juventude sempre fui de imprimir inflexão e força no ato declamatório. Fazia isto com muita graça para pequenas plateias, feito vendedor de casca de pau e a plateia foi aumentando.
Hoje, cada palavra que uso é lavada em sete águas, feito fava braba, mas é fruto daquela anotação inicial.

Algomais ▪ Em que momento da vida você decidiu compor o primeiro poema? Estimulado por quais exemplos e leituras?

Jessier Quirino ▪ Foi meio devagar, feito punho de rede enxugando. Para falar a verdade, o poeta surgiu depois do declamador e do contador de causos. Desde o tempo de juventude sempre fui de imprimir inflexão e força no ato declamatório. Fazia isto com muita graça para pequenas plateias, feito vendedor de casca de pau e a plateia foi aumentando. Era uma arma utilizada para me impor diante dos colegas, disfarçando uma timidez de infância até hoje muito presente no meu dia-a-dia. A inspiração veio, inicialmente, dos cantadores repentistas e, depois, de poetas como Zé da Luz, Catulo, Patativa, Renato Caldas, Zé Laurentino. Meus primeiros poemas, já não os tenho mais. Só passei a guardá-los quando já estava casado e com filhos, aos trinta anos.

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Instagram: @jessierquirino
Algomais ▪ Qual foi a sensação do primeiro livro, de lamber a primeira cria?

Jessier Quirino ▪ Sensação boa, feito comer bata-doce quente depois de um banho de chuva. Ainda mais porque, no meu primeiro livro (Paisagem de Interior, Edições Bagaço, 1996), fui além dos versos. Fiz, ainda, o desenho de capa e as ilustrações internas. Estavam, ali, bem diante dos meus olhos, poemas que tiveram um longo processo de maturação e para os quais eu nunca havia pensado em encadernação livresca. Hoje, com oito trabalhos publicados, a emoção se repete e a responsabilidade aumenta. Experimento, exatamente, este mesmo sentimento com o meu trabalho mais recente: o livro e o CD Berro Novo.

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Algomais ▪ O saboroso Paisagem do Interior é sentido do mesmo modo em áreas diferentes do Brasil? Um povo tão plural, com tantos modos e dizeres, tem a mesma percepção de seus recitais?

Jessier Quirino ▪ Em algumas situações, em território distante, procuro temas mais universais para manter o magnetismo e ter o público na mão. Há, na realidade, algumas palavras que determinado público desconhece, mas o contexto e o gestual dão o devido entendimento. O poema Parafuso de Cabo de Serrote, por exemplo, em que descrevo uma bodega sertaneja, tem seu lado visual adaptado à realidade de cada ouvinte, quando vejo que, em certas regiões, se desconhece o significado de alguns cacarecos. Com minha obra indo cada vez mais longe, tenho percebido que, em se tratando de arte, não há limites para a emoção. Outro dia, em Salvador, jantando com o mestre Xangai,
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Xangai e Jessier Quirino. ▪ Fonte: Instagram: @jessierquirino
fui homenageado com uma inesperada declamação do meu poema Quatro Ave Maria Bem Cheia de Graça, feita pelos anfitriões do encontro: dois irmãos portugueses que declamaram agarrados feito rama de xuxu e sem errar uma vírgula, no mais perfeito sotaque lusitano.

Algomais ▪ As aparições em redes nacionais de TV abriram para você que espaços?

Jessier Quirino ▪ Tive, de fato, exposições importantes em mídia nacional (Fantástico, Jô Soares, Rolando Boldrin e Fernando Faro, da TV Cultura). E atuei, inclusive, na minissérie A Pedra do Reino. Tudo isto num período de tempo relativamente muito próximo, de um ano para outro. Há, de imediato, um reconhecimento importante em várias frentes: na venda de livros, de CDs e contratos, por exemplo. Mas eu diria que o significado maior foi o sentimento de nordestinidade, meu e do público. Foi ter isso massageado e elevado a um patamar de altura considerável e robustez maciça.

Jessier Quirino no programa Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin. ▪ YT Jessier Quirino
Algomais ▪ A Itabira de Carlos Drummond era um retrato doloroso na parede. E a Itabaiana de Jessier? O que é feito da feira de gado e do bacurau, com a ferrovia espalhando ramais para o Litoral e Interior?

Jessier Quirino ▪ Itabaiana, boamente falando, é minha aldeia, minha cidade madrasta. Sou natural de Campina Grande, bem no espinhaço da Borborema. Vim para cá em 1983, depois que casei com uma itabaianense. Portanto, sei de referenciais como o trem e a feira apenas do ouvir dizer. Mas comungo do sentimento dos mais velhos que têm, de uma forma geral, cantado em tempo pretérito as cores e a textura do lugar.
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Instragram: @jessierquirino
Vejo, com certa tristeza, aqui em outras localidades, gerações inteiras perderem as boas referências e se embriagarem num mar de mediocridade, vítimas do trator destrambelhado e modernoso de hoje em dia.

Algomais ▪ Você tem histórias dos primeiros momentos, em Itabaiana?

Jessier Quirino ▪ Logo que cheguei aqui, me pus na plateia e fui assistir aos itabaianenses no palco. Vibrei com os apelidos dos atores, coisa que já havia observado no Sertão e, passado algum tempo, com a ajuda de parceiros, passei a catalogá-los. Eis alguns deles (citados em ritmo alucinante): Fafá de Luiz Dentão, João Passo Mago, Machinho, Don-don de Adonis, Bundinha, Navio de Grude, Neco Friso, Mamão Furado, Priquito de Frande, Pé Roxo, Parrá, Zé de Ziza, Zé Calendário, Tochinha, Zaba de Zé Pêdo, Duda de Bebé, Boi Véi, Cabinho, Chapéu de Boné, Careca do Correio, Certeza, Cruvina, Cangurú, Nego Tula, Neco de Antõe Petronilo, Peixinho, Ponêis, Pirrita, Fuxico, Foca Pintor, Galego da Pamonha, Gentil do Espanador, João Bola, Mané Boca Mole, Mané do Cego e Bibi de Mané do Cego. Estes últimos, curiosamente, remetem aos nomes do pai e do avô, que era o “cego” da história. Zé Cu de Taba saiu para vereador e estampou seu nome de guerra nos muros. Foi festa de juntar anão em bicicleta grande.

jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Itabaiana, Paraíba ▪ Foto: Jessier Quirino
Algomais ▪ Em Doidinho, o romancista José Lins do Rego fala da passagem pela escola do Professor Maciel, de Itabaiana, onde aprendeu a golpes de palmatória. O prédio ainda existe?

Jessier Quirino ▪ Existe, sim, e está preservado. Pertence à Maçonaria, que se interessa por manter-lhe as características originais. Louve-se, então, a providência, uma vez que muitos e muitos imóveis são brutalmente violentados na sua forma original, com uma porta de rolo de deboche largo e desmedido.

Algomais ▪ O sociólogo Odilon Ribeiro Coutinho, amigo de José Lins (com ele fazia parte do grupo que se reunia em torno de Gilberto Freyre) costumava descrever o Vale do Rio Paraíba como área de profunda evocação lírica e histórica. Como a alma do poeta vê o desprezo a velhos casarões, capelas ou engenhos de açúcar
jessier quirino itabaiana poesia paraibana
Itabaiana, Paraíba ▪ Foto: Jessier Quirino
que bem poderiam servir ao turismo com suas oportunidades de emprego e renda?


Jessier Quirino ▪ Sou um saudosista nato. O poema Vou-me Embora Pro Passado e temas de “outros outroras”, retratados na minha obra, demonstram bem isto. Portanto, fico de alma apertada feito passarinho na mão de menino. O premiado cineasta Vladimir Carvalho esteve recentemente, aqui, em Itabaiana (a terra natal) e, ao entrar na minha casa, (uma construção do princípio do Século 19) deixou uma lágrima escorrer nas rodovias da face, ao rever a sala do primeiro andar onde assistia a saraus de poesia e músicas ao piano, ainda com pernas de infância. Isto me emocionou muito. Depois, fomos assistir ao seu documentário O Engenho de Zé Lins, que teve quatro grandes premiações, entre elas a de Melhor Filme Brasileiro, no Festival de Brasília. O filme faz, exatamente, o contraponto entre o lirismo da obra de Zé Lins e a decadência atual, uma verdade crua que poderia ser remediada. Já tive encontros com turistas do Sul, que vêm para conhecer a Pedra de Ingá (um dos mais intrigantes sítios paleontológicos do País), a poucos quilômetros daqui. Eles confessam a decepção quanto ao não aproveitamento turístico daquele patrimônio. Infelizmente, o Brasil, o Nordeste e a Paraíba precisam saber e, até mesmo lapidar, o ouro puro que possuem.
Isso, repito, é um resumo do que falamos. O texto inteiro nos rendeu três páginas da “Algomais”. E foi, por méritos de Jessier, o carro-chefe daquela edição.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas