A semana permitiu-me tempo para a busca de antigas publicações, várias delas produzidas para a Revista "Algomais", um semanário de circulação regional editado no Recife. É o caso dessa entrevista para uma das edições de fevereiro de 2010. “Ser poeta é ter vocação para pôr do sol”. – A frase, ouvida de Jessier Quirino, tema da pauta recebida do editor Roberto Tavares, serviu de título para a matéria. O texto, em pingue-pongue, exigia a apresentação do entrevistado, por mais que ele já se fizesse conhecido em razão dos recitais e causos levados a plateias sucessivas, Brasil a fora.
Revista Algomais, Recife-PE, fev/mar/2010 ▪ Acervo: F. Chaves
Jessier Quirino, poeta, declamador, escritor e arquiteto paraibano, nascido em Campina Grande. ▪ Instagram: @jessierquirino
Oh! cumeeira de aroeira dessa casa-grande
Veja e nos mande uma visão dessa velha morada
Sendo a parada retilínea do telhado em quedas
Não te arredas dessa empena tão estruturada
Sois a chegada de telheiro, ripa e caibaria
Hospedaria de pavões, corujas e pardais
Nos teus anais e cabedais de vida em cumeeira
Diz aroeira – dessa casa – o que enxergas mais?
Eis um resumo da entrevista: Algomais ▪ Arquiteto e poeta. Quem concilia ambas as situações busca o arranjo de ângulos, estilos e formas. Você diria que são coisas com a mesma essência?
Jessier Quirino ▪ Acho que sim. E, em algumas situações, se complementam. Cheguei até a fazer um poema que, depois, musiquei. É a visão de uma casa grande de fazenda, toda mobiliada, descrita na ótica da cumeeira.
Instagram: @jessierquirino
Algomais ▪ Você faz poesia num País e, sobretudo, numa Região de pequena produção literária, quando comparada ao contingente populacional que somamos. Com seu inegável sucesso, o poeta, se assim desejasse, poderia dispensar o arquiteto sem comprometer o sustento da família?
Jessier Quirino ▪ Na realidade, o poeta, em formato de locomotiva, até já atropelou o trabalho do arquiteto há, pelo menos, três anos. Como arquiteto, autônomo, eu atuava na área de arquitetura comercial, projetando concessionárias de automóveis, em todo Nordeste. Agora, não tenho mais tempo para acompanhar uma obra, o que requer bastante dedicação.
Instagram: @jessierquirino
Algomais ▪ Como você lida com a inspiração?
Jessier Quirino ▪ Anoto, prontamente, tudo o que me vem à cabeça. Este trabalho de anotação é, de fato, um hábito, não só meu, mas de muita gente que traqueja no universo das palavras. Costumo, sim, fazer anotações, e na hora, feito caldo de cana, num bloco, no celular e, é claro, num gravador, quando disponível. Utilizar estas anotações na etapa de construção do poema equivale às tintas que um pintor disponibiliza para a feitura de um quadro.
Desde o tempo de juventude sempre fui de imprimir inflexão e força no ato declamatório. Fazia isto com muita graça para pequenas plateias, feito vendedor de casca de pau e a plateia foi aumentando.Hoje, cada palavra que uso é lavada em sete águas, feito fava braba, mas é fruto daquela anotação inicial.
Algomais ▪ Em que momento da vida você decidiu compor o primeiro poema? Estimulado por quais exemplos e leituras?
Jessier Quirino ▪ Foi meio devagar, feito punho de rede enxugando. Para falar a verdade, o poeta surgiu depois do declamador e do contador de causos. Desde o tempo de juventude sempre fui de imprimir inflexão e força no ato declamatório. Fazia isto com muita graça para pequenas plateias, feito vendedor de casca de pau e a plateia foi aumentando. Era uma arma utilizada para me impor diante dos colegas, disfarçando uma timidez de infância até hoje muito presente no meu dia-a-dia. A inspiração veio, inicialmente, dos cantadores repentistas e, depois, de poetas como Zé da Luz, Catulo, Patativa, Renato Caldas, Zé Laurentino. Meus primeiros poemas, já não os tenho mais. Só passei a guardá-los quando já estava casado e com filhos, aos trinta anos.
Instagram: @jessierquirino
Jessier Quirino ▪ Sensação boa, feito comer bata-doce quente depois de um banho de chuva. Ainda mais porque, no meu primeiro livro (Paisagem de Interior, Edições Bagaço, 1996), fui além dos versos. Fiz, ainda, o desenho de capa e as ilustrações internas. Estavam, ali, bem diante dos meus olhos, poemas que tiveram um longo processo de maturação e para os quais eu nunca havia pensado em encadernação livresca. Hoje, com oito trabalhos publicados, a emoção se repete e a responsabilidade aumenta. Experimento, exatamente, este mesmo sentimento com o meu trabalho mais recente: o livro e o CD Berro Novo.
Jessier Quirino ▪ Em algumas situações, em território distante, procuro temas mais universais para manter o magnetismo e ter o público na mão. Há, na realidade, algumas palavras que determinado público desconhece, mas o contexto e o gestual dão o devido entendimento. O poema Parafuso de Cabo de Serrote, por exemplo, em que descrevo uma bodega sertaneja, tem seu lado visual adaptado à realidade de cada ouvinte, quando vejo que, em certas regiões, se desconhece o significado de alguns cacarecos. Com minha obra indo cada vez mais longe, tenho percebido que, em se tratando de arte, não há limites para a emoção. Outro dia, em Salvador, jantando com o mestre Xangai,
Xangai e Jessier Quirino. ▪ Fonte: Instagram: @jessierquirino
Algomais ▪ As aparições em redes nacionais de TV abriram para você que espaços?
Jessier Quirino ▪ Tive, de fato, exposições importantes em mídia nacional (Fantástico, Jô Soares, Rolando Boldrin e Fernando Faro, da TV Cultura). E atuei, inclusive, na minissérie A Pedra do Reino. Tudo isto num período de tempo relativamente muito próximo, de um ano para outro. Há, de imediato, um reconhecimento importante em várias frentes: na venda de livros, de CDs e contratos, por exemplo. Mas eu diria que o significado maior foi o sentimento de nordestinidade, meu e do público. Foi ter isso massageado e elevado a um patamar de altura considerável e robustez maciça.
Jessier Quirino no programa Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin. ▪ YT Jessier Quirino
Jessier Quirino ▪ Itabaiana, boamente falando, é minha aldeia, minha cidade madrasta. Sou natural de Campina Grande, bem no espinhaço da Borborema. Vim para cá em 1983, depois que casei com uma itabaianense. Portanto, sei de referenciais como o trem e a feira apenas do ouvir dizer. Mas comungo do sentimento dos mais velhos que têm, de uma forma geral, cantado em tempo pretérito as cores e a textura do lugar.
Instragram: @jessierquirino
Algomais ▪ Você tem histórias dos primeiros momentos, em Itabaiana?
Jessier Quirino ▪ Logo que cheguei aqui, me pus na plateia e fui assistir aos itabaianenses no palco. Vibrei com os apelidos dos atores, coisa que já havia observado no Sertão e, passado algum tempo, com a ajuda de parceiros, passei a catalogá-los. Eis alguns deles (citados em ritmo alucinante): Fafá de Luiz Dentão, João Passo Mago, Machinho, Don-don de Adonis, Bundinha, Navio de Grude, Neco Friso, Mamão Furado, Priquito de Frande, Pé Roxo, Parrá, Zé de Ziza, Zé Calendário, Tochinha, Zaba de Zé Pêdo, Duda de Bebé, Boi Véi, Cabinho, Chapéu de Boné, Careca do Correio, Certeza, Cruvina, Cangurú, Nego Tula, Neco de Antõe Petronilo, Peixinho, Ponêis, Pirrita, Fuxico, Foca Pintor, Galego da Pamonha, Gentil do Espanador, João Bola, Mané Boca Mole, Mané do Cego e Bibi de Mané do Cego. Estes últimos, curiosamente, remetem aos nomes do pai e do avô, que era o “cego” da história. Zé Cu de Taba saiu para vereador e estampou seu nome de guerra nos muros. Foi festa de juntar anão em bicicleta grande.
Itabaiana, Paraíba ▪ Foto: Jessier Quirino
Jessier Quirino ▪ Existe, sim, e está preservado. Pertence à Maçonaria, que se interessa por manter-lhe as características originais. Louve-se, então, a providência, uma vez que muitos e muitos imóveis são brutalmente violentados na sua forma original, com uma porta de rolo de deboche largo e desmedido.
Algomais ▪ O sociólogo Odilon Ribeiro Coutinho, amigo de José Lins (com ele fazia parte do grupo que se reunia em torno de Gilberto Freyre) costumava descrever o Vale do Rio Paraíba como área de profunda evocação lírica e histórica. Como a alma do poeta vê o desprezo a velhos casarões, capelas ou engenhos de açúcar
Itabaiana, Paraíba ▪ Foto: Jessier Quirino
Jessier Quirino ▪ Sou um saudosista nato. O poema Vou-me Embora Pro Passado e temas de “outros outroras”, retratados na minha obra, demonstram bem isto. Portanto, fico de alma apertada feito passarinho na mão de menino. O premiado cineasta Vladimir Carvalho esteve recentemente, aqui, em Itabaiana (a terra natal) e, ao entrar na minha casa, (uma construção do princípio do Século 19) deixou uma lágrima escorrer nas rodovias da face, ao rever a sala do primeiro andar onde assistia a saraus de poesia e músicas ao piano, ainda com pernas de infância. Isto me emocionou muito. Depois, fomos assistir ao seu documentário O Engenho de Zé Lins, que teve quatro grandes premiações, entre elas a de Melhor Filme Brasileiro, no Festival de Brasília. O filme faz, exatamente, o contraponto entre o lirismo da obra de Zé Lins e a decadência atual, uma verdade crua que poderia ser remediada. Já tive encontros com turistas do Sul, que vêm para conhecer a Pedra de Ingá (um dos mais intrigantes sítios paleontológicos do País), a poucos quilômetros daqui. Eles confessam a decepção quanto ao não aproveitamento turístico daquele patrimônio. Infelizmente, o Brasil, o Nordeste e a Paraíba precisam saber e, até mesmo lapidar, o ouro puro que possuem. Isso, repito, é um resumo do que falamos. O texto inteiro nos rendeu três páginas da “Algomais”. E foi, por méritos de Jessier, o carro-chefe daquela edição.


















