Paraíba, início do século XX . O aspecto arquitetônico e urbano colonial da cidade é pouco a pouco substituído por uma arquitetura de ...

Era praça, era jardim...

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Paraíba, início do século XX. O aspecto arquitetônico e urbano colonial da cidade é pouco a pouco substituído por uma arquitetura de características neoclássica e eclética. Casarões com jardins frontais e com porões que os elevavam do nível das ruas, praças ajardinadas com coretos (com direito a retretas) e esculturas alegóricas homenageando seus homens públicos eram parte das transformações urbanas que caracterizavam o período.

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Pavilhão do Chá, na Praça Venâncio Neiva, na década de 1950. ▪ Imagem: IBGE Cidades
Herdei e vivi boa parte dessa cidade perdida no tempo em que ela tinha ruas coloridas pelos jambeiros e acácias proclamadas em prosa e verso. Naquele momento, ir ao cinema Plaza ou Municipal a partir da Rua das Trincheiras implicava em um passear pela praça em frente ao palácio do governo e tomar uma Grapette com bolinho de queijo na padaria do outro lado.

Na época, a história dos monumentos não me interessava ainda e acho que interessa hoje cada vez menos ao público que cruza seus espaços com esculturas sobreviventes. Mas aquela escultura da
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Casarão na Rua das Trincheiras, exemplo marcante da arquitetura tradicional que ainda preserva a memória urbana da cidade. ▪ Imagem: ALCR
qual pouco sabia sempre chamou minha atenção entre outros da cidade de então. Eu era flaneur e não sabia.

O tempo me trouxe a formação necessária e a satisfação da curiosidade em relação ao entorno urbano da minha cidade. Inclusive sobre o monumento. E aprendi o que a década de 1930 representou para o Brasil e para a Paraíba. Foi um período de acontecimentos marcantes, de lutas políticas e de mudança de poder. O Estado paraibano agitava-se com a disputa entre a aristocracia rural que detinha então o controle econômico e político e os liberais que o ambicionavam e que tinham como seu maior símbolo o presidente João Pessoa, sobrinho de Epitácio Pessoa e irmão de meu vizinho Dr. Oswaldo Pessoa. Aprendi que ele, João Pessoa, representou a ascensão de uma nova classe: a burguesia urbana. Exemplo familiar na história das civilizações, mas que não me trazia recortes próximos como esse, fugitivo dos livros de história. Mais tarde, já estudando arquitetura em Recife, aluna de Ariano Suassuna, me interessei pelos “perrepistas”, pela luta de Princesa (que me fascinava) e aprendi também
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João Pessoa
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Noticia da morte de João Pessoa, na página frontal do jornal A União, edição de 27.06.1930. ▪ Fonte: A União
quem foi Zé Pereira. Mas esta é uma outra parte da história.

Voltando aos livros e a praça, durante a disputa aconteceu o assassinato do governante paraibano na cidade de Recife em 26 de agosto de 1930. Esse foi um dos motivos que contribuíram para a deflagração da revolução de 1930 que resultou no fim da República Velha e deu início à Segunda República.

Durante o governo de João Pessoa diversas edificações foram reformadas, praças foram projetadas e criou-se um sistema viário visando uma nova leitura da urbe inspirada nos feitos de Haussman e sua concepção urbana na Paris do século XIX. Após a morte do presidente o interventor federal Antenor Navarro deu continuidade às obras ainda inacabadas da gestão anterior e iniciou novas construções. Naquele período observou-se a chegada de diversos profissionais de outros Estados, entre eles o urbanista Nestor Figueiredo que foi incumbido do plano de remodelação e desenvolvimento da cidade de João Pessoa e Cabedelo, bem como do local onde seria inserido um monumento em homenagem ao presidente morto denominado O Altar da Pátria.

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Centro histórico de João Pessoa (antiga Parahyba do Norte) em 1934: no alto, à esquerda, o edifício do jornal A União, o Jardim Público, o Lyceu (antigo Colégio dos Jesuítas) e o Palácio da Redenção; no centro, à direita, o Pavilhão do Chá, instalado na Praça Venâncio Neiva. ▪ Imagem: Museu da Aeronáutica.
A relevância da Praça João Pessoa para a cidade homônima remonta à sua colonização. Inicialmente a área era um terreno descampado em frente a um conjunto arquitetônico construído pelos jesuítas (igreja, residência e escola), denominado de Largo do Colégio. No século XVIII, quando os membros da ordem foram expulsos da cidade, suas instalações passaram a servir ao Palácio do Governo e ao Liceu Paraibano. O espaço passou por algumas intervenções, sendo a primeira delas no século XIX, quando o terreno foi transformado em passeio público (recebendo tratamento paisagístico, além da instalação de bancos, iluminação, coreto e um gradil de ferro) no final do século XIX, tornando-se então o espaço público de maior importância para urbe e ponto de lazer da sociedade da época.

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O coreto do Jardim Público (atual praça João Pessoa), já demolido, em cartão postal do início do século XX. ▪ Fonte: Arte Empório
Posteriormente, no início do século XX a edificação correspondente às instalações do Palácio do Governo passou por reformas recebendo elementos de vários períodos arquitetônicos dentro da perspectiva modernizadora do ecletismo então em voga. Outros prédios foram construídos em volta da praça: a Escola Normal, em estilo neoclássico e o prédio da imprensa do Estado, A União, de características ecléticas inserindo uma contextualização monumental no antigo descampado.

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O Jardim Público da cidade, ainda com o coreto. Ao fundo, a igreja da Conceição (demolida em 1929) e o Lyceu Paraibano (antigo Colégio dos Jesuítas).
Mais tarde, a referida praça foi batizada como Praça Felizardo Toscano. Em sua terceira e última reforma, realizada na década de 1930 por Nestor de Figueiredo, ela adquiriu novo agenciamento em forma radial, e teve seu nome novamente mudado, desta vez para homenagear o herói liberal morto: João Pessoa. É com esse nome que ela permanece até os dias atuais. E nela foi construído o monumento que me atraia nas andanças a caminho do cinema.

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A praça João Pessoa (antigo Jardim Público), com o monumento erguido no centro. No fundo, o Palácio da Redenção (atual Museu da História da Paraíba). ▪ Fonte: IBGE Cidades
Na primeira metade do século XIX, os conceitos idealísticos definidos por J. J. Winckelmann se impuseram formando uma corrente escultórica neoclássica internacional repassada de sentimentos alegóricos ou de conteúdo romanesco que satisfazia o gosto dominante e era facilmente absorvida pelas possibilidades de trabalhos em praças públicas.

No início do século XX a escultura europeia procurava métodos de expressão que se coadunassem com a mentalidade moderna transformada pela tecnologia. No Brasil as primeiras manifestações modernistas escultóricas aconteceram na obra de artistas como Victor Brecheret (1894-1955) na década de 20. As fórmulas neoclássicas e românticas, entretanto, ainda eram preponderantes no país e principalmente no Nordeste.
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Humberto Cozzo (1900–1981), nome artístico de Bartolomeu Cozzo, escultor e mosaicista paulistano. ▪ Arte: C. Portinari, 1929
Foi dentro dessa ótica que foi concebida a escultura denominada O Altar da Pátria.

Através de um concurso, elaborado pela administração pública paraibana, foi selecionado o escultor Humberto Cozzo, formado pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e que se destacara na concepção de outros monumentos na região e no sudeste do país. Discípulo de Amadeu Zani, ele já havia abordado o mesmo tema em outras ocasiões realizando para a cidade de Campina Grande, na Paraíba, uma escultura em homenagem a João Pessoa e outra no Rio de Janeiro, em seu mausoléu situado no cemitério São João Batista, uma escultura funerária para o presidente morto. Seu projeto, expresso através de maquete, agradou ao então presidente Antenor Navarro, porém também passou posteriormente, pela aprovação de uma comissão técnica composta por professores catedráticos da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, que a aprovou justificando ser a concepção que mais se aproximava das exigências contidas no edital do concurso.

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Praça João Pessoa, vista a partir da torre do Lyceu Paraibano. ▪ Fonte: IBGE Cidades
A execução da peça obedeceu a especificações explicitadas. O granito, de cor clara, utilizado como base para as esculturas em bronze, veio de um bloco de dimensões necessárias para evitar juntas. A execução dos modelos em bronze foi fiscalizada por uma comissão designada para o acompanhamento da obra desde o processo de fundição à colocação do bronze nos moldes e, finalmente, a sua instalação no local ao qual era destinada.

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Monumento a João Pessoa ▪ Imagem: ALCR
O monumento é composto de grupos estatuários alegóricos, simétricos e em escala monumental, executados em bronze e assentados sobre base retangular de granito com dimensões de 10,00x 14,00 metros, totalizando uma altura de 10 metros. Em frente ao Palácio do Governo, denominado então de Palácio da Redenção, localiza-se a figura de João Pessoa com atitude descrita nos jornais da época como “serena e natural” utilizando as vestimentas de costume. Na face leste situa-se uma figura alegórica empunhando a bandeira da Paraíba e com o braço direito distendido em sinal de protesto. As duas esculturas medem cerca de 2,20 metros de altura. Outros grupos, de maiores dimensões voltam-se para o norte e para o sul. Com vistas para o sul três figuras simbolizam a “ação”. Para representá-la, uma figura alada, um gênio, guia três indivíduos de características másculas que sustentam uma bigorna e representam o trabalho e a atividade. No lado norte, dois combatentes também conduzidos por uma figura alegórica simbolizam o civismo.

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Monumento a João Pessoa ▪ Imagem: ALCR
A intenção do conjunto é de que os três grupos em torno da coluna de granito simbolizem a coragem, o civismo e a altivez do presidente em sua perpetuação escultórica para a memória e história da Paraíba. O monumento foi inaugurado em 8 de setembro de 1933 com discurso de José Américo de Almeida, secretário da administração de João Pessoa e, posteriormente, ministro da República no governo Vargas.

A dinâmica da cidade antiga mudou. Nem cinemas, nem mais a padaria dos lanches e quem sabe, proximamente, nem mais palácio, praça ou escultura. A rua das Trincheiras pode ainda ser vista com seus casarões arruinados, inclusive o que foi de meu avô na Rua Matteo Zaccara e que foi vendido ao Estado. Durante muito tempo, entre as ruinas tremulava ironicamente a placa “Secretaria de Cultura”. O artista Rodrigues Lima um dia pensou uma série com os casarões daquela rua e seus fantasmas... Estou aguardando.

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Esquina da rua das Trincheiras com a rua Matteo Zaccara ▪ Fonte: GMaps
A cidade mudou para o litoral. É uma nova urbe voltada para um novo usuário e que se distancia cada vez mais da praça da minha infância. Mesmo da Tambaú de então, onde os cajueiros ocupavam tudo. Pouco verde e muitos fios pendurados emolduram as calçadas esburacadas e perigosas para atletas e passantes. Não sei se interessa ao flaneur.

O novo espaço urbano parece grandioso com seus prédios imensos e brilhantes como deve ser um espaço feito para o consumo. Os nativos cedem lugar aos forasteiros. Como já vimos em tantas praias do nosso litoral.
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Casarões da Rua das Trincheiras ▪ Imagens: ALCR
Da cidade antiga poucos são os bairros ou logradouros que preservam suas características iniciais e escapam à voracidade do mercado e à degradação das áreas abandonadas.

Nele, a arte pública, mesmo legalizada através da Lei 11.649/2009 que exige a colocação de uma obra de arte a partir de uma quantidade determinada de metros quadrados construídos, enfrenta problemas de qualidade, descaso e depredação. Poucos exemplos, recentes ou mais antigos, escapam num contexto de pouca ou nenhuma informação sobre arte, o que parece ligado a uma educação básica que não informa ou valoriza esse tipo de aprendizado.

Entretanto a referida praça e seu grupo escultórico escapam até os dias que correm. O monumento resiste. É resistência também os raros casos de retorno a cidade antiga que não obedecem a mera expulsão comercial e nos dá esperança. Vamos visitar a Galeria Gamela que se mudou para Jaguaribe (pertinho do castelinho) restaurando um dos seus casarões.

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Galeria Gamela, instalada em casarão da Rua Joaquim Hardman, 75, em João Pessoa ▪ Imagens: Instragram @galeriagamela + GMaps
Não sei até quando o monumento restará bem como seu entorno. Mas, vou aproveitar o lançamento do livro de Marcos Pequeno na Livraria do Luiz no começo de maio e me lembrar (olhando para ele) dos cinemas, da sorveteria tropical e da radio tabajara que como a antiga tribo que habitava o território antes da colonização também sumiu dali.
Obs.: Parte desse texto foi publicado nos anais do XV ANPAP, com a coautoria de Darlene Araújo.

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