As rochas que o leitor verá, em fotos, mais adiante, têm uma grande história, bem anterior à construção do Partenon, o templo que se e...

O nascimento do Estado de Direito

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As rochas que o leitor verá, em fotos, mais adiante, têm uma grande história, bem anterior à construção do Partenon, o templo que se encontra à sua frente. Trata-se do Areópago (Ἀρειος πάγος) ou Colina de Ares, seu significado em grego.

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A paisagem é rochosa de pedra maciça, muitas vezes escarpada, parecendo que a Grécia foi obra de um titã escultor, que arrancou as belezas escondidas da Hélade, do âmago da penedia bruta, de um mundo que o poeta Augusto dos Anjos chamaria de “aspereza orográfica”.

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Detalhes das rochas da Colina de Ares, em Atenas: o afloramento calcário onde tradição e história situam antigos julgamentos do Areópago, aos pés da Acrópole. Pedra, memória e cidade no mesmo cenário. ▪ Fotos: Milton Marques Júnior / Alcione Albertim
O Partenon é a pérola plasmada no cimo da montanha da Acrópole; o Areópago, do que jeito que se encontra, lembra o estado primitivo e cru do chão rochoso que se transformaria no primeiro tribunal civil, portanto humano, da História.

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No Areópago, entre as rochas históricas aos pés da Acrópole, um visitante improvisa seu discurso diante do público casual de turistas. Cena contemporânea em um lugar associado, desde a Antiguidade, à palavra pública e ao julgamento. ▪ Foto: Milton Marques Júnior / Alcione Albertim
Uma das primeiras menções ao Areópago está na trilogia do teatrólogo Ésquilo, Oresteia (Agamêmnon, Coéforas e Eumênides), escrita e encenada, no século V a. C., por volta do ano 458. Mais precisamente, a menção se encontra no terceiro livro, Eumênides (As Benfazejas), quando do julgamento de Orestes, acusado de matar a mãe, Clitemnestra.

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Durante o julgamento, o deus Apolo age em defesa do herói e argumenta diante do tribunal, constituído por cidadãos atenienses, que Orestes, não matou a mãe, antes, na realidade, vingou o pai, dever de todo filho, por ele ter sido assassinado pela esposa, Clitemnestra. Diante do empate na decisão dos juízes, Palas Atena, a presidente do júri, decide em favor do réu.

Em Ésquilo, vê-se, portanto, o nascimento do Estado de Direito no Ocidente, há 2500 anos, constituído de princípios basilares, tais como:  
1 Todos têm direito a um julgamento justo.
2 Ao réu, a ampla defesa deverá ser assegurada.
3 Em caso de dúvida, favoreça-se o acusado (in dubio pro reo).
4 O presidente do júri só deve votar em caso de empate.*
* Palas Atena votou pela absolvição de Orestes, criando o que a tradição latina chamará Voto de Minerva, nome pelo qual a deusa era conhecida entre os romanos.
O mais importante, no entanto, é a compreensão resultante da ação do primeiro julgamento da história, de que não cabe ao cidadão ou ao Estado a vingança, mas a liberdade ou a punição, decidida a partir de um julgamento justo.

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Placa no Areópago com trecho, em grego, do discurso atribuído a S. Paulo em Atenas. Gravada entre pedras claras da colina, a inscrição recorda o encontro entre filosofia grega e cristianismo nascente. ▪ Foto: Milton Marques Júnior / Alcione Albertim
A história não termina aí. O apóstolo Paulo pregou em Atenas, em meio ao Areópago, onde se encontra uma placa de bronze, em memória do fato, documentando o trecho do Atos dos Apóstolos (17, 22-34), que constitui o discurso de Paulo. Ele pregou a palavra de Cristo, mas o fez usando como artifício, o nome do "Deus desconhecido", a quem os gregos sempre dedicavam um templo, com receio de ter esquecido algum:

22 E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo como sendo um tanto supersticiosos;
23 Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: ao deus desconhecido. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.
24 O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;
25 Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;
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S. Paulo pregando no Areópago ▪ Anon., S.XIX, Düsseldorfer Auktionshaus
Após a pregação de Paulo, um dos juízes do Areópago, Dionísio, dito o Aeropagita, converteu-se ao Cristianismo, sendo batizado pelo próprio Paulo. Posteriormente, Dionísio foi elevado à condição de santo padroeiro de Atenas. Em sua homenagem, a rua que se encontra na lateral da Acrópole e conduz o transeunte até o Areópago recebeu o seu nome.

Imagens aéreas da Acrópole e do Partenon em Atenas, Grécia. ▪ YT MetalMariner
É a tradição mítica, aproximando-se da tradição cristã: de um lado, o Partenon, o templo da virgem, Palas Atena, que venceu a disputa com Posídon, para ver quem seria a divindade protetora da cidade, concedendo a oliveira aos atenienses. Do outro lado, o pagão que se dobra à força da palavra, na boca do pregador. Não à toa, no momento em que registramos as fotos do Areópago, havia um homem, simples, vestido de modo comum, mas de voz forte e enfática, pregando a palavra de Jesus.  

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