O Brasil é um dos países mais ricos do mundo em diversidade musical. Alguns gêneros caracterizam as regiões onde surgiram ou se desenvolve...

Serafim e seus filhos

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O Brasil é um dos países mais ricos do mundo em diversidade musical. Alguns gêneros caracterizam as regiões onde surgiram ou se desenvolveram, possibilitando que, ao se ouvir uma música, possa identificar qual a sua região de origem.

Por exemplo: o xote, o xaxado e o baião nos remetem logo ao interior do Nordeste. O frevo também é nordestino, de Pernambuco e Bahia. Mas a sua associação é inevitável com a cidade de Recife, assim como a ciranda com o litoral pernambucano.
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Joana
O carimbó nos faz lembrar da Região Norte. Porém a tendência é associar esta música logo de cara com Belém do Pará.

Minas Gerais se apresenta ao som das toadas. O choro, a bossa nova e principalmente o samba são imediatamente ligados ao Rio de Janeiro. O ritmo olodum e a música axé são a cara da Bahia. A música sertaneja é associada a Goiás e ao Planalto Central. E a guarânia ao Rio Grande do Sul, em especial, e também de forma geral aos estados da fronteira com o Paraguai.

Gosto da maioria desses ritmos. Porém, desde pequenino tenho certa predileção pelas guarânias. Pois na tenra idade a minha mãe me botava para dormir ao som de Cabecinha no Ombro, guarânia que depois foi gravada na voz de Manilce Lallis. Ela formou com Armando Castro o Duo Guarujá , que ao longo de 26 anos de carreira gravou 30 discos 78 rpm, o velho bolachão, e 27 LPs, compostos principalmente de guarânias e boleros.

Mais tarde, já adulto, eu colocaca meus filhos para dormir cantando essa música. Hoje, Ilma e eu também cantamos para os netos dormirem, que crescem adorando! Muitos anos depois reencontramos as bonitas guarânias no Pantanal do Mato Grosso, quando participamos do Projeto Rondon.


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Ruy Maurity é um músico e cantor nascido no Estado do Rio de Janeiro. Ele tem a música em seu DNA: pertence a uma família de músicos. Sua mãe foi a primeira violinista a integrar a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e o seu irmão, Antonio Adolfo, é pianista, compositor e fez parceria famosa com Tibério Gaspar, nos anos 1980.

Autodidata, Ruy Maurity aprendeu a tocar violão sozinho. Ao longo de sua carreira compôs 57 músicas, tendo como principal parceiro Zé Jorge. Muitas das suas músicas preencheram as trilhas sonoras de novelas da Rede Globo. Além disso, ele gravou 10 discos long-play (LP). O mais famoso é o LP intitulado Em Busca do Ouro, que contém o maior sucesso da sua carreira: Serafim e Seus Filhos. É justamente sobre esta música que eu quero falar.


A música Serafim e Seus Filhos foi lançada em 1971, no LP Em Busca do Ouro de Ruy Maurity & Trio [regravada no álbum Nem Ouro Nem Prata, de 1976]. Embora tenha feito muito sucesso à época, sua fama se limitou ao sul/sudeste.

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Trata-se da história de um típico bando de ladrões de gado, gaúchos, composto pelo chefe, Serafim, e os seus quatro filhos.

A música impressiona pelo delicioso compasso de guarânia e por sua beleza, fazendo contrapondo com a surpresa no desfecho da história narrada na canção. Vale a pena dar uma olhada na letra.

No primeiro verso, o autor apresenta e descreve o bando com suas qualidades para o métier de roubar gado:

São três machos e uma fêmea Por sinal, Maria, que com todos se parecia Todos de olhar esperto, para ver bem perto Quem de muito longe é que vinha

Continua, acusando a origem da sua prole: “... dois juramentos, todos dois sangrentos...”:

Filhos de dois juramentos, todos dois sangrentos Em noite clarinha Ê, ah, ôôôô O João Quebra-Tôco, Mané Quindim, Lourenço e Maria

Descreve como partiam para praticar um roubo:

Noite alta de silêncio e lua Serafim, o bom pastor de casa saía Dos quatro meninos, dois levavam rifles Outros dois levavam fumo e farinha

Sugere que todos tinham orgulho do que faziam, comparando-os ao herói ibérico:

Bandoleros de los campos vierdes, Dom Quijotes De nuestro desierto Ê, ah, ôôôô Serafim Bom de Corte, Mané, João, Lourenço e Maria

Mas nem todos viam futuro naquela vida. O filho mais novo estava insatisfeito, e resolveu seguir o seu próprio destino:

Mas o tal Lourenço, dos quatro o mais novo Era quem dos quatro tudo sabia Resolveu deixar o bando e partir pra longe Onde ninguém lhe conhecia

Só não contava com a atitude do pai. Este destila todo o seu ódio na vingança, logo contra um filho, revelando a sua face mais cruel, inimaginável numa relação familiar:

Serafim jurou vingança Filho meu não dança conforme a dança Ê, ah, ôôôô E mataram Lourenço Em noite alta de lua mansa

A família bandida não esperava nenhuma reação de Lourenço. Para eles tudo estava resolvido. É neste momento que Ruy Maurity introduz o sobrenatural em sua música, dando um toque macabro:

Todo mundo dessas redondezas conta Que o tal Lourenço não deu sossego Fez cair na vida sua irmã Maria E os outros dois matou só de medo

E a canção atinge a sua apoteose, com o desfecho arrepiante:

Serafim depois que viu o filho lobisomem Perdeu o juízo Ê, ah, ôôôô E morreu sete vezes Até abrir caminho pro paraíso

Ruy Maurity compôs muitas canções , todas belas. Mas, inegavelmente esta é a que impressiona mais, e causa impacto mais profundo no ouvinte. É realmente uma música inesquecível.
NOTA DO AUTOR: Aconselho lerem ouvindo a música.

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  1. Estou encantada com o artigo, é m t rico e ideal para ser trabalho com meus alunos. A leveza das palavras, com a riqueza do conteúdo tornam prazerosa a leitura, instigando assim, a fome de quero mais. Esse Zé ainda vai ocupar uma das cadeiras da APL. Que ele merece,tdos sabem!

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  2. Mais uma grande crônica e uma alegre conversa para os amigos e curiosos, o misto de profundo conhecimento da cultura brasileira com a rica cultura brasileira. Parabéns JOSÉ MÁRIO.

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