O sofrimento oriundo das adversidades é o que, no fim, pode engrandecer a vida. E engrandecendo-a, termina por elevar a biografia daqueles ...

Em benefício da biografia

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O sofrimento oriundo das adversidades é o que, no fim, pode engrandecer a vida. E engrandecendo-a, termina por elevar a biografia daqueles e daquelas que experimentam-lhe o gosto amargo em algum momento da existência. Este pensamento não é meu, diga-se logo, pois colhi-o no “Diário” de Josué Montello, na entrada datada de 6 de fevereiro de 1978, em que o escritor maranhense narra seu encontro em Paris com um Juscelino Kubitschek acabrunhado com o exílio que lhe fora imposto pelos militares.

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Ao abatido ex-presidente garantiu Montello que aquela provação, além de temporária, um dia haveria de colorir, com as cores do martírio e da grandeza, sua futura biografia, razão porque deveria ser suportada com resignação e até com um certo regozijo. E a um JK, que surpreso e quase a rir o indagara “Quer dizer que eu devo aguentar firme, em benefício de minha biografia?”, respondeu, afirmativo e convicto: “Deve”.

Sim, razão tinha e tem o autor de “Os tambores de São Luís”: o sofrimento pode engrandecer as vidas, quando não as destrói, e as biografias. É como se fosse o preço alto que se paga para não se ter uma vida banal, vivida exclusivamente ao rés do chão, ao largo das experiências humanas mais fortes, que, não raro, têm o dom de nos fazer amadurecer e crescer. Não que devamos procurar a dor para nos elevarmos, mas que, pelo menos, se inevitável, saibamos acolhê-la com esse viés dignificante.

Seria este um dos motivos para a existência do sofrimento no mundo? É possível. Há os que defendem nossa dor humana como uma forma de participarmos do sofrimento do Cristo a caminho da cruz. Também é possível. Tudo isso é plausível, penso eu, pois certamente não há de ser gratuita e vã nossa aflição, salvo se nos inscrevermos dentre aqueles que a tudo negam sentido, relegando-nos implacavelmente ao puro império do mais cego e absoluto acaso, os quais, é bom lembrar, também podem ter razão.

Quero pensar que as oportunas palavras de Josué Montello devem ter calado fundo em Juscelino em suas horas mais duras
Mas ainda aqui é forçoso concluir que mesmo que tenham razão os céticos que a tudo negam sentido transcendental, mesmo assim valeriam as adversidades como enfeite biográfico, motivo pelo qual deveriam ser antes aceitas que rejeitadas mas não procuradas, claro. Que isso possa servir de algum consolo aos que tiveram e têm quem ponha no papel suas vidas atribuladas, e também a nós, os da planície, que, no máximo, terão a vida contada no seio restrito da família.

A propósito, fico pensando não só em Juscelino mas também em todas as demais pessoas cassadas e perseguidas pela ditadura, todos condenados sem direito a defesa e tendo suas vidas destroçadas radicalmente.

E o fato é que esses cassados e perseguidos, todos eles, e cada qual a seu modo, saíram da escuridão que os atingiu maiores do que eram antes, como se fossem, em alguma medida, heróis cívicos martirizados, pelo simples fato (não tão simples assim, é verdade) de terem sido punidos de forma arbitrária, tão só em razão de ideias e posicionamentos, equivocados ou não.

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Quero pensar que as oportunas palavras de Josué Montello devem ter calado fundo em Juscelino em suas horas mais duras, dando ao criador de Brasília a força necessária para atravessar o deserto que terminou realmente por enriquecer sua história. E que do mesmo modo, por outros caminhos, tenha sido assim também com os seus companheiros de infortúnio, todos hoje, imagino, já devidamente justiçados pela posteridade.

Por outro lado, quem, em sã consciência, quer sofrer em benefício da biografia? Humanos que somos, certamente os que sofreram e sofrem agruras de todo tipo trocariam, sem pestanejar, toda e qualquer glória biográfica por uma vida, medíocre que fosse, sem pesares.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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