Para Fábio Ele trocou o macacão da fábrica pela farda da polícia. Dois modelos de disciplina, porém com feições diferentes. Cresceu c...

Entre coturnos e canções

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Para Fábio

Ele trocou o macacão da fábrica pela farda da polícia. Dois modelos de disciplina, porém com feições diferentes. Cresceu correndo pelas ruas da pequena cidade, aquela rua cheia de vizinhos, aqueles vizinhos que criam os filhos seus e de outros como se filhos fossem. A vida lhe trouxe um lar, dentro do possível que se é um lar, com seus reverses autoritários, mas sempre com um contrapeso do olhar dos mansos.

Logo cedo aquele menino se viu diferente. Jogava bola e amava ler. Tomava banhos de açude e se impressionava com a música das festas, dos bares, das quadrilhas juninas.

Logo cedo aquele jovem se viu diferente. O coração se apertava por não poder bombear tantos desejos, tantos encantamentos. E seus amigos de folhas, os livros, e seus amigos de notas, as músicas, sempre ajudavam seu coração a bombear tanta arte, tantos sonhos.

Tudo caduca, menos os sonhos. O sonhar é fazer-se voar não breve, mas talvez. O sonhar é um lugar dos que se desafiam demais. Assim era ele. Assim é ele.

Um homem já feito, em busca de si mesmo nas suas escolhas nem sempre tão claras. E ele se deparou com seus impedimentos. Seus desejos que não poderiam ser ditos. Seus impulsos rumo a um mesmo, como uma imagem que se busca num espelho com medo de se refletir em ritmo contínuo. Mas o corpo refletido não era o seu e sim quase um fantasma. Um narciso fantasmagórico, cuja presença em si era um misto de ilusão de paixão e medo da chibata. Os amores não ditos, os amores mal-ditos, os amores nunca-ditos. Amar era assim? Ele já ouvira pelo rádio que “amar é sofrer, eu vou lhe dizer, mas vou duvidar” na voz de uma moça linda e rouca. Mas para ele, o amor era mais que sofrer: era se esconder.

Com seu ímpeto ariano, ele não se rendeu aos padrões do lugar, dos vizinhos, das bocas miúdas e ácidas. A paixão virou aventura. Pular muros entre beijos e suores. Andar de lado e tocar por um segundo a pele do outro, nem que seja um toque singelo de mão, de dedos que querem o entrelace do desejo. Nada para ele é pela metade. Ele é a força do tudo. Nada de mentir, só sentir. E entre cartas e fuxicos, entre olhares e salivas, ele se sentiu pletoro de amor.

Depois veio a labuta diária. Por entre coldres, fuzis, pistolas e regras, muitas regras, sua vida foi militarizada. Foi lá sem contestações. Vestir a farda era só a plataforma por onde se lançam os voadores de asa delta montanha abaixo. Um risco necessário.
As fardas vestiam o masculino endurecido. Os desejos pelo mesmo foram recalcados pelos instantes necessários. Fez tudo como mandavam seus superiores. Mas tinha para si que disciplina é liberdade, como sempre lhe lembrava o poeta da Legião. Ela viria radiante como fênix, ela viria um dia. As estrelas nos seus ombros foram se assomando não por vaidade, mas por garantia. Ele se transformou, assim, no capitão.

“Captain, my captain”, como era chamado o professor John Keating da película A Sociedade dos Poetas Mortos. O professor que ousou quebrar as rígidas regras da Academia Welton e as substituiu pela poesia fluida de Walt Whitman, a ironia icônica de Henry Thoreau, a plasticidade de William Yeats. Foi neste capitão que ele se transformou. Por entre a rigidez da farda, o peso do coturno, havia a maciez da literatura, a busca crítica da Sociologia, o emaranhado de tantas poesias e canções para tantos.

Ele sabe bem capitanear a paixão. Desembestado, às vezes atropela a si mesmo, mas por uma boa causa: a busca do bem amar. E não obstante tantas regras, tanto masculino tóxico, toma estas armaduras tal qual alquimista toma o veneno mortal e o transmuta em soro de cura.

Daí sua vida é um pomar de sons e cenários e cantos e atos da arte que eleva o humano.

Ela sabe blasfemar em campo santo e faz bricolagens com as dúvidas. Mesmo de coturnos, sabe pisar nos campos floridos sem machucar os brotos, porque os artistas têm asas nos calcanhares, como Hermes. Talvez seus versos sejam o degredo de tantos sonhos que não se fizeram no real pétreo deste mundo.
Talvez suas canções sejam aquelas ondas que se rasgam na lâmina aguda dos rochedos, mas que depois os corroem.

A arte é o experimento do aqui e do agora. Algo que é quase indefinido e que nem sentido pode fazer. É o ressoar de um tempo que não é da fala, mas do coração. Do que arrepia e fere sem sangrar e que sangra sem corte. Tem o excesso da água numa enchente e o vagar de um tempo que não tem calendário.

Ela ama e desama, pois desamar é também um ato de coragem. O coração mingua nas ausências e desperta cheio e luminoso nos encontros. Pois que não é a vida feita destes retalhos de ser e não ser? Não é o amor um ritornelo de atar e desatar nós de nós. Não é amar um ato assassino de palavras que não bastam?

Ele cultiva o maior dos amores: o amor aos amigos. Aquele sentimento de ombro, de enxugar lágrimas e dividir copos de vinho. A cumplicidade do olhar que complementa o que as palavras já não podem. Ele sempre está lá onde um amigo precise. Age de maneira militar a estes chamados, porém com a docilidade de quem para e escuta.

Com ele aprendi a usar a força como um samurai. Precisão e leveza. Com ele aprendi que posso andar de coturno para derrubar mitos e usar a pena para amaciar corações. Amor-irmão. Um irmão que me faltou, mas que aportou como uma dádiva, destas que nos surpreende a vida e nos faz querer viver e se sentir enfim mais humanos.

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  1. Bravo... Adriano de Leon!!
    Bela cronica!!!
    Parabéns👊👊👊
    Paulo Roberto Rocha

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