...ou de como Noronha foi servir à Pátria O futebol exerce a magia de aproximar criaturas muito diferentes quando dentro dos li...

Os recrutas...

alistamento militar causo inocencia armadilha
...ou de como Noronha foi servir à Pátria
O futebol exerce a magia de aproximar criaturas muito diferentes quando dentro dos limites daquelas quatro linhas pintadas de cal (hoje, dizem, é látex). Foi assim que Noronha e Ferreira acabaram se encontrando pelos desígnios da vida. Noronha, sujeito de quase dois metros, espadaúdo e forte como búfalo marajoara. Já Ferreira, mocetão de compleição que não merecia
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destaque nem para mais nem para menos, com seu um metro e setenta e quatro; enfim, um vivente discreto nas aparências. Ambos nas 17 primaveras e jogavam no esquadrão amador do glorioso União Futebol Clube, que tinha seu campo onde hoje está plantada a Faculdade de Odontologia da UNESP, lá em São José dos Campos.

Ferreira estava cursando o 3º Científico e pretendia fazer vestibular para engenharia. Era um rapaz de boas leituras, tocava violino e o pai era fiscal da Receita, gente de posses. Já Noronha mal terminara o curso primário e exercia o ofício de sapateiro na empresa Zás-Trás, localizada na Rua 7 de Setembro. Dava um duro danado para se sustentar e ajudar a família, preocupações que passavam ao largo de Ferreira.

Ambos, como dizem, gostavam de chutar a gorduchinha, o que os levou a se encontrarem naquele esquadrão de muito renome na cidade. Ferreira era beque central de muita elegância: nada de chutão, nada de trombada. Desarmava os oponentes com toques inteligentes e saía distribuindo passes com muita precisão. Bola alta na sua área era com ele mesmo. Tinha gente que o comparava a Mauro Ramos de Oliveira, que fora nosso capitão no escrete de 1962. Noronha jogava na ponta direita, veloz, driblador e com muita visão de jogo. Sabia fazer cruzamentos precisos e deixar outros atacantes em situações privilegiadas para o arremate. Já este, diziam, tinha bola parecida com a de Júlio Botelho, que jogara na Portuguesa, no Palmeiras e na Fiorentina.

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Quem os viu jogar dizia que, se se profissionalizassem, iriam se dar bem, ficar famosos etc., etc. Naqueles anos, o futebol ainda não fazia milionários como hoje, e Ferreira achou melhor ser engenheiro, e Noronha não quis arriscar seu emprego na sapataria. Há quem diga que chegariam à Seleção... Quem sabe.

Ferreira era alegre e extrovertido, gostava de um chiste e de dar umas alfinetadas no juízo de Noronha. Este era mais calado, quieto e sempre na dele, e não se zangava com as aprontações do amigo.

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Davam-se bem no gramado e fora das quatro linhas. Ferreira sempre socorria o amigo em pequenas dificuldades. Depois das contendas, pagava o guaraná, o sanduíche e buscava o amigo lá no Alto da Ponte quando era dia de jogo. Valia-se da paciência do pai para essas gentilezas, pois este se prontificava a gastar gasolina do seu Aero-Willis para buscar e levar de volta o parça do filho.

Conhecidos os “artistas”, vamos ao ocorrido.

Estavam na idade de se alistarem, de servirem à Pátria amada. Ferreira não fazia questão de ir para o Tiro de Guerra. Duas horas diárias de instrução, ficar de guarda um dia ou outro, dava para levar. Já Noronha tinha medo de não ser dispensado, ir para o Tiro de Guerra ou, pior, acabar indo parar no 6º RI de Caçapava. Isso iria atrapalhar sua vida.

Combinaram de, no dia do alistamento, irem juntos. Noronha pensava em um jeito de ser dispensado. Era difícil, vendendo saúde daquele jeito. Não podia ser incorporado: tinha emprego e, quando atingisse a maioridade, iriam assinar sua carteira. O que fazer? Pediu a opinião do amigo, que logo o “socorreu”.

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— Diz que tem uma doença grave na cabeça, quando perguntarem se você tem algum problema.
— Mas qual doença?
— Diz que você tem disfunção erétil.
— É grave?
— Vixe! Nem imagina.
— Nunca ouvi falar.
— Se você quer ser dispensado...

No instante da entrevista, Noronha contou ao sargento entrevistador que não poderia servir porque tinha disfunção erétil. O tenente ali presente foi chamado e caiu na gargalhada.

Então... para encurtar a história.

No ano seguinte, num sábado à noite, estavam os dois de guarda no Tiro de Guerra, devidamente incorporados ao nosso Exército, quando Noronha resolveu perguntar:

— Ferreira, que é essa tal de disfunção erétil?

O amigo achou melhor não explicar.

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