Acho que todos nós, mesmo que isso escondamos, tivemos, ou ainda temos, maior preferência por alguém da família. Evidentemente, nessa e...

Houve uma vez...

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Acho que todos nós, mesmo que isso escondamos, tivemos, ou ainda temos, maior preferência por alguém da família. Evidentemente, nessa escolha não entram pai e mãe. Estes não competem pelo afeto de ninguém. São “hors concours”, como sempre lembrava um amigo de adolescência, estudante aplicado de francês.

Acervo. F. Chaves
Os outros que me perdoem, mas o Tio Boanerges era capaz de andar de tamanco e pijama no meu coração. Tio Nerges, como chamávamos ao irmão caçula da minha mãe eu e os meus. Não repassamos o emprego do apelido aos primos mais novos pois, desde a mais tenra idade, nos apropriamos dessa forma de tratamento a ele já dispensado pelos parentes adultos e, ainda, pela prima Carmem, alguns anos mais velha do que eu. Teve Carmem, também sobrinha, o privilégio de conviver mais cedo e mais de perto com o único filho homem da nossa avó Amélia, nos idos de 1950, no Recife.

Desfeito o primeiro casamento, o tio querido fixava-se, no início da década seguinte, em duas pequenas cidades do Agreste paraibano: a Juripiranga que o viu nascer e a pequena Pilar, onde morávamos. Dono de padaria, meu pai o auxiliou na compra do ponto comercial e na formação do primeiro estoque da mercearia tocada pelo cunhado durante alguns anos até a união, em segundas núpcias, com a jovem Lourdes e o retorno ao Recife.

Foi de agonia profunda, lá em casa, o dia em que Boanerges sumiu na estrada com a doce Lourdes. Os pais nem os irmãos queriam o casamento da moça com alguém já casado.
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“Desquitado”, replicava, sem efeito, o pretendente à mão de uma das garotas mais belas já vistas naquelas bandas. Sem outro remédio, meu tio “roubou-a”.

Nunca obteve o perdão do sogro, mas, por sua vez, a sogra, até a morte, a ele destinaria o amor e os cuidados de mãe. Trabalhador, honesto, Boanerges fez-se mais próximo dela do que o único cunhado, aquele que, depois da fuga, chegou a procurá-lo portando a arma e a farda da Polícia Rodoviária. Minha mãe quase morreu.

Diga-se que três meninas, frutos daquela união, em muito ajudaram a amaciar, no decorrer do tempo, a ira daquele sogro e de seu filho. É que o primeiro deles ganhou três anjinhos para os cuidados de avô. O outro não teve muito tempo de dedicação às sobrinhas, em razão da mudança para o Rio de Janeiro. E tudo, felizmente, sossegou. O casal e a confusão provocada em decorrência da fuga para lugar não sabido pouco a pouco deixavam de ser o assunto das candinhas de plantão.

Que os mais novos não estranhem o termo. “Candinha” tornou-se sinônimo de mexeriqueira em razão de coluna publicada pela “Revista do Rádio”, nas décadas de 1940 a 1960.
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Revista do Rádio, 1963 ed. 741 ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
O jornalista Anselmo Domingos, propagador das fofocas sobre gente famosa, deu o título “Mexericos da Candinha” às notas curtas que então escrevia, semanalmente. Roberto Carlos, principal nome da Jovem Guarda, popularizaria a expressão, ainda mais, num álbum de 1965.

Lembrei-me do Tio Nerges ao visitar a parte mais nova da Juripiranga que se espicha para os lados de um pequeno açude há muito extinto, mas utilizado, nos meus idos de menino, para os banhos e a “água de gasto”, aquela destinada ao suprimento de jarras e tanques a serviço da higienização doméstica, quando as torneiras eram privilégios dos grandes centros urbanos. Assoreado, o velho açude agora inexistia.

A sandice dos agentes políticos é coisa que nunca deixou de me inquietar. Como é que sucessivos gestores permitiram a degradação absurda daquilo que hoje poderia ser um belo espelho d’água com bordas ajardinadas, bancos e iluminação? Como é possível não aproveitar este e outros elementos da natureza em benefício da paisagem e da qualidade de vida do eleitorado? Deste último diga-se que tem, igualmente, culpa no cartório. Comete, repetidamente, o pecado das más escolhas.

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O fato é que ali nada mais resta, também, do amontoado de jaqueiras, mangueiras e outras árvores frutíferas sob as quais tínhamos de caminhar até a beirada do reservatório de água clara e fria como gelo aos primeiros raios de sol. Era, exatamente, neste momento – cinco e meia, ou seis horas da manhã – que Tio Nerges se punha comigo a caminho do banho. Tive a sorte de encontrá-lo por algum tempo na companhia de Mãe Amélia, como a tratavam todos os seus netos. Ele advindo do Recife para uma temporada na casa materna. Eu, para o término de férias escolares ao lado da minha avó.

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Ficávamos um tempão à beira do açude a tomar coragem para o primeiro mergulho. Ele ainda tinha a ajuda de um gole de aguardente “para esquentar o sangue”. Eu, coitado de mim, nem isso. Até que combinávamos o pulo n’água depois do “um, dois, três” nem sempre respeitado por conta de algumas traições. Várias vezes, ele me fizera mergulhar sozinho ao cabo do “já”, enquanto morria de rir.

Foi disso que lembrei ao pôr as vistas nesse recanto que ainda preenche, com boa frequência, as melhores recordações do meu tempo de menino. Agora, me respondam: dá para perdoar os maus administradores dos bens públicos, gente que, além de tudo, despreza a sua própria e a memória dos outros?

Ah, sim: o querido Boanerges despediu-se deste mundão de Deus sobre a laje da casa nova que então construía. Aproveitara a ausência da família para ali subir sem ser incomodado. Sofreu um ataque cardíaco e foi-se, então, próximo dos 70 anos de idade, com um único testemunho: o das estrelas.

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