Acho que todos nós, mesmo que isso escondamos, tivemos, ou ainda temos, maior preferência por alguém da família. Evidentemente, nessa escolha não entram pai e mãe. Estes não competem pelo afeto de ninguém. São “hors concours”, como sempre lembrava um amigo de adolescência, estudante aplicado de francês.
Acervo. F. Chaves
Desfeito o primeiro casamento, o tio querido fixava-se, no início da década seguinte, em duas pequenas cidades do Agreste paraibano: a Juripiranga que o viu nascer e a pequena Pilar, onde morávamos. Dono de padaria, meu pai o auxiliou na compra do ponto comercial e na formação do primeiro estoque da mercearia tocada pelo cunhado durante alguns anos até a união, em segundas núpcias, com a jovem Lourdes e o retorno ao Recife.
Foi de agonia profunda, lá em casa, o dia em que Boanerges sumiu na estrada com a doce Lourdes. Os pais nem os irmãos queriam o casamento da moça com alguém já casado.
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Nunca obteve o perdão do sogro, mas, por sua vez, a sogra, até a morte, a ele destinaria o amor e os cuidados de mãe. Trabalhador, honesto, Boanerges fez-se mais próximo dela do que o único cunhado, aquele que, depois da fuga, chegou a procurá-lo portando a arma e a farda da Polícia Rodoviária. Minha mãe quase morreu.
Diga-se que três meninas, frutos daquela união, em muito ajudaram a amaciar, no decorrer do tempo, a ira daquele sogro e de seu filho. É que o primeiro deles ganhou três anjinhos para os cuidados de avô. O outro não teve muito tempo de dedicação às sobrinhas, em razão da mudança para o Rio de Janeiro. E tudo, felizmente, sossegou. O casal e a confusão provocada em decorrência da fuga para lugar não sabido pouco a pouco deixavam de ser o assunto das candinhas de plantão.
Que os mais novos não estranhem o termo. “Candinha” tornou-se sinônimo de mexeriqueira em razão de coluna publicada pela “Revista do Rádio”, nas décadas de 1940 a 1960.
Revista do Rádio, 1963 ed. 741 ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
Lembrei-me do Tio Nerges ao visitar a parte mais nova da Juripiranga que se espicha para os lados de um pequeno açude há muito extinto, mas utilizado, nos meus idos de menino, para os banhos e a “água de gasto”, aquela destinada ao suprimento de jarras e tanques a serviço da higienização doméstica, quando as torneiras eram privilégios dos grandes centros urbanos. Assoreado, o velho açude agora inexistia.
A sandice dos agentes políticos é coisa que nunca deixou de me inquietar. Como é que sucessivos gestores permitiram a degradação absurda daquilo que hoje poderia ser um belo espelho d’água com bordas ajardinadas, bancos e iluminação? Como é possível não aproveitar este e outros elementos da natureza em benefício da paisagem e da qualidade de vida do eleitorado? Deste último diga-se que tem, igualmente, culpa no cartório. Comete, repetidamente, o pecado das más escolhas.
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Foi disso que lembrei ao pôr as vistas nesse recanto que ainda preenche, com boa frequência, as melhores recordações do meu tempo de menino. Agora, me respondam: dá para perdoar os maus administradores dos bens públicos, gente que, além de tudo, despreza a sua própria e a memória dos outros?
Ah, sim: o querido Boanerges despediu-se deste mundão de Deus sobre a laje da casa nova que então construía. Aproveitara a ausência da família para ali subir sem ser incomodado. Sofreu um ataque cardíaco e foi-se, então, próximo dos 70 anos de idade, com um único testemunho: o das estrelas.










