Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas ...

O tempo dobrado na gaveta

velhice partida
Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, um delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados.

Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de internação, quando o calendário virou uma sopa de letras
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e os netos deixaram de ser crianças nos retratos da cabeceira. Agora, ela reconhece os filhos pelo tato, como cega de outros sentidos. As mãos, finas como papel de seda, percorrem os rostos que visitam seu leito em busca de relevos conhecidos: a cicatriz no queixo do mais velho, os óculos do meio, o brinco da caçula. O mais velho chega sempre com o jornal debaixo do braço, lê em voz alta as notícias que ela já não entende, mas ouve como quem escuta música. O ritmo das palavras embala sua respiração entrecortada. Depois, dobra o jornal, guarda na gaveta do criado-mudo, e fica ali, em silêncio, vendo a mãe dormir. Aquele jornal nunca é levado embora, e a gaveta já tem uma pilha deles, todos dobrados do mesmo jeito, como se guardassem ali o tempo que não passou.

A filha do meio, a que mora mais longe, traz potes de comida que Dona Alzira já não pode comer. Escorrega a mão por debaixo do lençol, aperta os pés frios da mãe, tenta aquecê-los com as palmas quentes. Fala das crianças, do marido, do cachorro, preenche o silêncio com a vida lá fora, como se a mãe ainda precisasse de notícias do mundo. Mas no fundo, quem precisa ouvir a própria voz para se convencer de que a vida continua, é ela mesma. A caçula é a que chega mais perto. Deita na cama,
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acomoda a cabeça no ombro ossudo da mãe, como fazia quando era pequena e tinha medo de tempestade. Às vezes chora baixinho, sem fazer barulho, para não assustar. Dona Alzira, mesmo de olhos fechados, sente o tremor, e seus dedos começam a fazer movimentos circulares nas costas da filha, num reflexo que vem de muito longe, de quando embalava bebês no colo.

Há uma inversão silenciosa ali naquele quarto. Os filhos agora são os pais, mas aprendem que cuidar de quem nos cuidou é aprender uma nova língua, a linguagem dos gestos pequenos, das unhas cortadas com cuidado para não machucar, do cabelo penteado bem devagar, da pele hidratada com creme cheiroso. É um amor que volta, mas vem diferente, vem misturado com medo, com culpa, com a certeza dura de que um dia a cama vai estar vazia. Quando o relógio da sala marca o fim da visita, e o tempo fica dobrado na gaveta, eles se despedem um a um. O mais velho beija a testa, a do meio aperta a mão, a caçula demora mais um pouco no abraço. Dona Alzira, então, abre os olhos, aqueles que há meses não reconhecem rostos, e diz, com a clareza de quem nunca esteve ausente:

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⏤ Cuidado na estrada.

E eles sabem que, por alguns segundos, o tempo chamou pelo passado, e ela foi novamente a mãe que os via partir para a escola, para a faculdade, para a vida. A mãe que, mesmo acamada, de travesseiro e cobertor, ainda os empurra para o mundo, com a bênção e o medo de quem ama. Na saída, a caçula ainda olha para trás. A mãe já dorme de novo, mas sua mão repousa sobre a pilha de jornais na gaveta entreaberta, como quem guarda um tesouro. Ali dentro, dobrado em folhas que ninguém mais lê, está o tempo que insiste em viver junto com as notícias, mesmo quando a memória já não obedece e o corpo já não acompanha.

O amor é isso: aprender a ficar mesmo quando já não há o que dizer. É sentar ao lado da cama e simplesmente estar. É entender que, para quem nos deu a vida, a melhor forma de retribuir é não deixar que o silêncio apague a certeza de que, em algum lugar do mundo, ainda existe quem espere pelo nosso domingo. E eu, visito mamãe todos dias.

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