Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, um delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados.
Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de internação, quando o calendário virou uma sopa de letras
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A filha do meio, a que mora mais longe, traz potes de comida que Dona Alzira já não pode comer. Escorrega a mão por debaixo do lençol, aperta os pés frios da mãe, tenta aquecê-los com as palmas quentes. Fala das crianças, do marido, do cachorro, preenche o silêncio com a vida lá fora, como se a mãe ainda precisasse de notícias do mundo. Mas no fundo, quem precisa ouvir a própria voz para se convencer de que a vida continua, é ela mesma. A caçula é a que chega mais perto. Deita na cama,
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Há uma inversão silenciosa ali naquele quarto. Os filhos agora são os pais, mas aprendem que cuidar de quem nos cuidou é aprender uma nova língua, a linguagem dos gestos pequenos, das unhas cortadas com cuidado para não machucar, do cabelo penteado bem devagar, da pele hidratada com creme cheiroso. É um amor que volta, mas vem diferente, vem misturado com medo, com culpa, com a certeza dura de que um dia a cama vai estar vazia. Quando o relógio da sala marca o fim da visita, e o tempo fica dobrado na gaveta, eles se despedem um a um. O mais velho beija a testa, a do meio aperta a mão, a caçula demora mais um pouco no abraço. Dona Alzira, então, abre os olhos, aqueles que há meses não reconhecem rostos, e diz, com a clareza de quem nunca esteve ausente:
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E eles sabem que, por alguns segundos, o tempo chamou pelo passado, e ela foi novamente a mãe que os via partir para a escola, para a faculdade, para a vida. A mãe que, mesmo acamada, de travesseiro e cobertor, ainda os empurra para o mundo, com a bênção e o medo de quem ama. Na saída, a caçula ainda olha para trás. A mãe já dorme de novo, mas sua mão repousa sobre a pilha de jornais na gaveta entreaberta, como quem guarda um tesouro. Ali dentro, dobrado em folhas que ninguém mais lê, está o tempo que insiste em viver junto com as notícias, mesmo quando a memória já não obedece e o corpo já não acompanha.
O amor é isso: aprender a ficar mesmo quando já não há o que dizer. É sentar ao lado da cama e simplesmente estar. É entender que, para quem nos deu a vida, a melhor forma de retribuir é não deixar que o silêncio apague a certeza de que, em algum lugar do mundo, ainda existe quem espere pelo nosso domingo. E eu, visito mamãe todos dias.















