O Espírito Santo sempre foi um Estado sui generis. Visto como Estado de “passagem” para o Nordeste e de parada para abastecimento para os ...

Itinerário do Sol

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O Espírito Santo sempre foi um Estado sui generis. Visto como Estado de “passagem” para o Nordeste e de parada para abastecimento para os turistas oriundos dos grandes Estados da região Sudeste, em viagem para o litoral baiano. Um Estado quase sem sotaque, um misto de mineiro desconfiado com a malemolência baiana.

Essa característica de relativo isolamento tem razões históricas, e fez com que todos os movimentos literários que correram o mundo, principalmente a partir do século XIX, tardassem por aqui chegar e, quando chegavam, tardassem em partir.

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Para um autor capixaba, a divulgação de seus textos, de suas idéias, sempre passou pela necessidade de mudança do endereço de residência. E assim o fizeram, entre outros, os escritores capixabas Rubem Braga e José Carlos Oliveira.

Hoje, embora ainda de maneira muito incipiente, alguns autores conseguem ter acesso ao mercado editorial: um exemplo é o excelente romance de Reinaldo Santos Neves, A longa história, publicado pela Bertrand do Brasil.

Mas as oportunidades continuam muito poucas.

De modo que a ampla função que estabelece as hipermídias resulte em expoente para a divulgação da cultura capixaba.

Pensando em mostrar algo além da já famosa (e saborosa) moqueca capixaba e do tão comentado petróleo, é que trazemos um pouco da poesia atualmente produzidas no Espírito Santo.

Adendo: Sobre a identidade cultural capixaba recomendo o ensaio produzido por Adilson Vilaça.


.:: BERREDO DE MENEZES ::.
POEMA XIII Agora, na tarde dos homens. onde resisto ao velho som das formas, o espaço é cor e tempo em meu vazio; e as flores, acesas, o meu ludibrio; e o suicídio das frutas, neste chão que eu piso como uma fera, a festa de minha morte. Sou, em suma, um vôo cego e feliz. AUTO-RETRATO POÉTICO Doido é quem sabe ver, além do arco-íris, as cores do silêncio ouvindo o escuro. Doido é não ter o luar como suporte e acreditar-se sol no olhar dos anjos Doido é negar silêncio ao pôr-do-sol, tocando sinos de quem ouve a aurora. Doido é inventar a luz do esquecimento como asas de flanar a escuridão. Doido é remanejar, na dor do escuro, silêncios que as lembranças já não sofrem. Doido é enfeitar de rosas uma praia, pensando perfumar a dor da espuma. Doido é guardar espinhos, de lembrança, na esperança de ouvir a dor das rosas. Doido é se perfumar em brisa surda, esperando embriagar a solidão. Doido é esconder-se ao luar, numa jangada, perdendo o leme de amansar os ventos. Doido é fingir que a dor do pôr-do-sol é anestesiada à luz dos epitáfios. Doido é esse canto que faz pouso em mim como sobra semântica de um eco. Doido é saber ouvir o luar nas pedras e fiar com surdo brilho a luz do orvalho. Doido é beber o orvalho de uma rosa, tentando ouvir a dor que há nos espinhos. Doido é sofrer o escuro como um grito, sem ter onde chorar o seu silêncio.

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Ferdinand Berredo de Menezes (1929—2015)
Nasceu em Caxias, no Estado do Maranhão. Viveu em Vitória-ES, onde fez sua carreira como poeta, contista, advogado, professor universitário e político. Vencedor de vários prêmios Nacionais e Internacionais. Ocupou a cadeira nº 01 da Academia Espírito-santense de Letras. Possui mais de 20 livros publicados.
.:: MIGUEL MARVILLA ::.
A ausência dela A ausência dela se abate sobre a cidade, como as estações do ano ou uma chuva impiedosa e constante. É um tempo, este, de funcionários e galochas. No átrio da catedral gótica das lembranças, o nome dela erige-se em espelhos e se repete, ad infinitum, pousado sobre um futuro de pó e nunca mais. Algumas vezes o esquecimento se esquece de quem é e pensa recolher em outra um gesto de folhear livro, uma forma de olhar para o dia com embriaguez, o ouro das palavras — que eram atributo e privilégio dela. Mas não. Tudo que há é uma hora abandonada a um canto do silêncio. Tudo que há é a impossibilidade, uns ermos de chumbo, encimando a constância irremovível do vazio. Anda-se lentamente. Voa-se lentamente. Morre-se lentamente. Até os acasos ocorrem lentamente. Não é à toa: a presença dela fazia a vida vertiginosa, a presença dela não se atravessava a pé, a presença dela estilhaçava o normal e o cotidiano, a presença dela era teatro de uma guerra feita com espadas de olhares e armaduras de algodão. Mas se estabeleceu um momento em que todas as coisas são a ausência dela. A ausência dela se alastra, incontida, pelo planeta. Eu preciso aprender a ser outro para suportar. Deus! Ó, Deus! Sou eu... Este aqui, ó, Que acaba de perder o prumo E veio tateando no escuro Cada palavra do caminho. Sou este ser de pó, aquele amigo Do efeito lateral das sombras. Não tenho nome, mas retiro Dos sons a minha substância homem. Venho desdizer o que não disse: Que você não existia e, se existisse, Não se importava comigo, o errante. Este soneto acaba já, mas antes: Eu sei, você existe e, com certeza, Também ama comida japonesa.

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Miguel Marvilla (1959—2009)
Nasceu em Marataízes-ES). Foi mestre em História Antiga e escritor: Os mortos estão no living (contos), Dédalo, Sonetos da despaixão, Tanto amar, Lição de labirinto (poemas), O Império Romano e O Reino dos Céus (história). Fundador e editor da Flor&Cultura Editores.
.:: PAULO ROBERTO SODRÉ ::.
Conversa com sombras
Para Lino Machado
1. Sob a sombra da mangueira, um rato (de si empoeirado) fuça o sumo solar da manga largada, à sorte, ao chão. O chão, entregue a sua generosidade, acolhe a sombra, o rato, a manga, e o pássaro, repentino na paisagem desarmada, estranha. E fecunda. 2. O rato, esquecido de si à luz indócil do meio-dia, não sente senão a bondade do fruto suave sob seu escuso olhar corroído. O que vê da manga ninguém saberia. Colhe o fruto sem dar por isso, mas lépido, ao som de passos, retorna à ausência de luz. 3. Filigranada em sombra, a mangueira permanece, como o chão, entregue à ventura de seus frutos à mão, à boca, à sombra. 4. Do escuro cavado à sorte, espreitam o rato e sua poeira, inertes no cheiro acre que só a sombra dócil, o chão e a manga ignoram.

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Paulo Roberto Sodré (1962)
Capixaba de Vitória. Tem textos publicados desde 1984: Senhor Branco ou o indesejado das gentes (poemas, 2006); Poemas de pó, poalha e poeira (2009); Guido, a folha e o capim (literatura infantil, 2010).
.:: OSCAR GAMA FILHO ::.
O amor no futuro do presente Pois eu, vidente do amor que virá, Sei que não tenho presente de onde possa alcançar o futuro do presente, Sei que não posso alterar o meu fado, E sei também que posso alcançar apenas o futuro do passado. Estou partindo sem coche. Há muito, desde ontem, que estou a pé partindo até hoje. Com um pé no passado em que fico, Parto para o presente que renego e para o caminho hemorrágico de uma brisa feita de pregos. Estou partindo à força, sem que haja passagem. Amanhã, se você me procurar, amada do futuro rico, Terá de gastar três dias de viagem para chegar ao passado em que fico, Para chegar ao passado em que fico sem nós dois. Mas creia que, em três dias de viagem projetados para depois, Não se acha aquele que está preso ao passado. E eu, que um dia amarei seus lados, Estou cercado pelos meus pés no passado e no presente, Um rei preso que se ressente, Estou cercado pelo meu próprio corpo, Prisão privada que os limites do rei torto demarca e retém, Um próprio corpo só, em que não existe mais ninguém. E eu, que um dia a amaria, Estou cercado pela prisão quente que meu corpo estende no tempo que meu corpo fia.

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Oscar Gama Filho (1958)
Nasceu em Alegre-ES. Autor de: De Amor à política, 1979; Congregação do desencontro, 1980; O Despedaçado ao espelho, 1988; O Relógio Marítimo, em 2001. Publicou ainda História do Teatro Capixaba: 395 Anos, 1981, Teatro Romântico Capixaba e Razão do Brasil, lançado pela José Olympio Editora em 1991. Realizou a exposição de arte ambiental poético-plástica Varais de Edifícios, em 1978, e gravou o disco Samblues, em 1992 — incluído no selo histórico Série Fonográfica do Espírito Santo. Em 2005, lançou o CD Antes do Fim-Depois do Começo, contendo músicas em parceria com Mario Ruy. Dirigiu suas peças teatrais A Mãe Provisória, em 1978, e Estação Treblinka Garden, em 1979. Pertence à Academia Espírito-santense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico. Profissionalmente, é psicólogo clínico.
.:: ORLANDO LOPES ::.
MUDOU-SE O TEMA (ONDE O MAR COMEÇA) A aventura é o mar ou essa forma Que se forma depois, que vai viver Na memória dos dias? Egito Gonçalves I a vida inteira procurar aquela coisa – a coisa – que nos começa e encontrar à porta de casa o mar que nunca cessa: oceano que se transforma em ar e – maresia – nos corrói entranha-nos ao nos atravessar nosso mar (também salgado) é mais impessoal é semi-desumano: ascese de quem não navega festa mais simples de água peixe sal (não é mar de mitos não oculta monstros infinitos nem tesouros de ouro jóias dobrões de prata) é mar puro água apenas mareal (e se escorre em nossas veias é porque não nos foi dado chão senão no barro de que fomos tomados emprestados) sim é um mar (que guarda ainda lágrimas de mães e esposas e sangue de irmãos e pais aquela melancolia séria da miséria do caiçara) como todos os mares (por mais distantes): malabar um mar de párias II aqui à minha frente o oceano em vão: separa duas índias isola duas áfricas (estende-se o palco da ação divina [:] de um lado a brisa que afaga de outro a crina que fustiga cabeças de pedras ou estirões de areia infinita) eu (vivo a vida inteira a oceania desta península que ameaça sempre invadir a água mas deixa o mar escorrer (cardumes caóticos berços viveiros) entre as pernas e entre os braços para dentro para sempre) [:] sou paraalelo como farelo de alegria tenho irmãos naquela ponta que o meu olho ronda? que latitudes de querer-quererão eles que eu fixe (a que bel-prazer de que de qual sextante alegre ou triste)?

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Orlando Lopes
Poeta, ativista cultural e professor de Literatura na UFES. Publicou Hardcore blues - apocalyptic songs (1993) e Occidentia (2007). Participou das antologias A parte que nos toca... (2000), A poesia espírito-santense no século XX (1998) e Daqui mesmo – 34 poetas (1995).
.:: ELTON PINHEIRO ::.
Canto Um rosto descarnado percorre a rua dos loucos ... rua dos barulhos moucos; escuta o não falado, anda nu e abandona os doutos, de copo e cana na academia ensinando angu. Mestres no Boulevard com Dulcce & Garbana, seus rostos alvos, grandes Alexandres altivos, depois parecem vários Dantes,.. sentem o gosto de Chivas nos odres, babam as pernas boas das estudantes. Sem desejo o abissal os deprava na estória de suas vidas sem dolo. Para a moral que a castidade lava roubam das ninfas o seu colo, para o sonho das raparigas em flor algo dava aos seus carrosséis corcéis alados... Para a outra carne de sua lava o punho escroto dos soldados. Ele espera o muting e canta ex... o descontrole futuro do prazer de santo. A donzela que grita em muitas tvs É a vítima intensa de seu único canto e bordava uma noite com duas luas nas mãos de marfim. Ele espera uma noite de todas as ruas no louvor alado de um querubim. Pela aldeia, no meio das casas sua voz ecoa. Trazem-lhe a peste na flor do campo que Freud as Moiras com asas enquanto a histeria goza olor. Por que a túnica de José o vestia? Joio de seu próprio trigo; sacramento... Quando o último sábio ele consumia entregava-lhe seu entretenimento, quando o sonho do barro brilhava sonhava com asas de um monumento... para todas as coisas ele inventava as asas que Hermes roubou do vento, e as cidades que sempre cantava existiam numa constelação sem alento até quando alta noite o mundo descansava e as estrelas eram seu talento. Acendei... crivai de luzes o teto onde a caravana branca atravessa. No espetáculo roto de tudo exceto o outro tudo de outra estória nessa e os heróis digam que suas glórias estavam escritas nos autos e que desde sempre se foram em memórias de párocos, gênios, mendigos, arautos e que desde sempre morrem de tarde quando já nem existe por que morrer... Enlouquecei... acendei o covarde medo de viver. Um rosto descarnado percorre a rua dos loucos ...rua dos barulhos moucos;

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Elton Pinheiro (1969)
Natural de Vitória. É cantor, compositor, poeta e artista visual. Escreveu o livro de poemas Orações com vícios de linguagem, Secult, 2006, indicado ao Prêmio Taru 2007. Alguns de seus trabalhos visuais ilustram blog, livro, CD e site e CD do músico Alvaro Gribel, bem como o último livro do escritor Herbert Farias.
.:: MARIA AMÉLIA DALVI ::.
1. Como trazer à tona tudo o que há de trapaça em qualquer zona que perpétua se desfaz? Se justo o que pensa passa, e passando mira seu rumo de serpente, jogo, mundo, que é o menos, fica; mas, se é mais e vai-se, vazando, turno claro, do não pode e que tais, a trapaça, o conflito, o jogo, o menos e a sobra – a luz mínima: como fazer ser tênue o que sequer sabe e pode querer a super- fície? (Só de paz.) 2. Catamos e comemos flores como quem desfolha brócolis para o almoço; tendo em vista o miolo roxo, ortodoxo, no qual se abrigam insetos – confessemos – repugnantes, esmagamos antes suas pétalas amarelas, como quem torce um pescoço, com nojo de si e, muito e mais, dos outros; ainda não sabe, mas se trata de um telegrama da morte; todo defunto arde como as folhas que mastigamos, sobre cujo fedor, qual sempre, silenciamos. 3. As coisas que te ocorrem, até onde balançar talvez importe, missivas do destino certo são; rentes como toda pedra que amola gumes longes, a traçar cortes precisos, inúteis e ferinas, assim as coisas vêm e vão. Rente às lâminas, porque abaulada, daí pedra, dura, tal precisão; de viés, a vida passa e ser e tanto é pó e nada – às coisas, vagas, resta a certeza: que tudo que pensa passa, e até mesmo a prensa; ela, não.

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Maria Amélia Dalvi (1983)
Nasceu em Vila Velha-ES. É mestre em Letras, doutora em Educação e trabalha como professora da graduação e da pós-graduação na Universidade Federal do Espírito Santo. É autora de Drummond, do corpo ao corpus: O amor natural toma parte no projeto poético-pensante (Vitória: Edufes, 2009) e de Drummond: a invenção de um poeta nacional (Vitória: Edufes, 2011).
.:: LUCAS DOS PASSOS ::.
Desenhos de pétalas, dentes de cactos
Para Maria Amélia
Em sinceros jardins, dentes de cactos, lascados nalgum ponto pelo vento, fazem coro silencioso e calmo, vociferando, em branco e preto, nervos de pétalas de aço – reflexo azul (ou verde) de metade do que eu não chego a ser. Na mão esquerda, desenhos de pétalas; em páginas destras, dentes de cactos. Sobre um tema de Miguel Marvilla A outra mulher da mulher que quero enfia, lambe e cheira melhor que eu, mas não fuma e nem faz sonetos mancos (só bebe em taça branca o que não é sêmen); não conhece os abismos aonde fui, mas sabe a superfície de sua pele: tatua, letra a letra, com seu nome, o ruído febril que me despreza. Dali seus olhos sempre me censuram, me ensinam a seguir o fino risco de suor que deixara aceso nela. Assim, ausente e ativa, invade minha língua, desce a garganta, intragável, e, comigo, desponta suja, agora.

Lucas dos Passos (1989)
Poeta, revisor, professor de literatura, mestrado e doutor em Letras (PPGL/Ufes), com pesquisa sobre a obra de Paulo Leminski.
.:: CASÉ LONTRA MARQUES ::.
Por que estas palavras atiradas à superfície da fala? uma ave — talvez água — ávida: concedemos à sonolência dos seres de sono escasso o rumor de uma memória em que o medo, a areia, o êxtase, a sede, o palco compõem a ponte para outro descompasso. O texto do encontro. Inventa o retorno, o avanço. O rastro: vigio ao redor do mutilado, tateando por entre a poeira; narro — quando não nos ouço — o necessário sobre seu passado. Corrijo: sua voz — seu corpo, híbrido — inventa o relato, o fôlego: esmaga, com as mãos retesadas, o espaço que repousa nos joelhos, o espaço despejado pelo dia que o silencia, pela noite que o cega, o espaço resignado a qualquer ausência, a qualquer afago, resignado porque não se quer derrotado (apesar de combalido), nem interrogado (apesar de compulsivo), reconfigurando — depois de aliciar o aleatório, depois de elucidar o latente — o espaço: para o parto; o espaço: para a paralisia; o espaço: para restaurar — ruidosamente restaurar — a saliva, o bulbo, a cica, o sopro que forma o fogo; o espaço: para apascentar a apatia; o espaço: de uma língua de alumínio: o espaço: de um crânio de cobre: o espaço: como um trinco na traqueia: o espaço: como uma teia de válvulas nas veias, como uma teia (uma trama não de atalhos, de trincheiras) que estende o circuito (pelo signo) de novo nítrico do sangue * * * Porque no momento em que me recolhe sou somente um ruído que aprende a respirar sob seus órgãos; uma forma — violenta — de incandescência: como a condensar as idades das áreas mais claras da casa onde recebemos a extensão da nossa insuficiência? Espalho as frutas pelo assoalho das horas futuras — o que não significa que suas alas (voltadas para a água) sejam únicas: os cães que retornam, calmamente, formam uma memória úmida. Por entre mapas, — reagindo, — ultrapassa a impaciência: a lenta permanência da impaciência cuja ossatura excede a fala: em torno da xícara vazia — enquanto a face — súbita — vibra: os objetos que prolongam o corpo, as letras que povoam a página, os segundos que precedem o sono revivem, indefinindo-nos, o risco de um riso nítido. * * * Atravessados por ventos de repente rarefeitos, lapsos sísmicos tateiam a inútil instabilidade da desintegração: este estímulo à estima — entre frequentes fraturas — tantas vezes articula uma viva falha: (mesmo suspeito ao falso): não raro respira, como outros espelhos, no rastro dos restos mal nomeados * * * Passa outra noite pelos pontos onde tombaríamos com a cabeça despejada sobre a nuca, num exercício que desenvolveríamos próximos do apuro de uma pétala decepada; nossa noite — aquela que conhecemos, apesar do que ainda não tateamos; aquela que esquecemos, apesar dos fatos que fundamos — nos inunda até a cintura: é uma noite imóvel, instalada contra a imensa água que nos arremessa a uma nova voragem. Movendo a língua pela cavidade da boca, brinco com a areia que não quero na garganta. Mas não repudio a destruição nem o desespero — cultivo, mesmo que atordoado, o desprazer — não o desprezo: diante da voracidade, penso nos órgãos retalhados; penso — distante de estar exausto — nos ossos assolados por uma fácil insolação. Destino ao pensamento o risco de um nascimento físico — consolidando — nos gestos do corpo — uma pulsação de acesso tanto à sutileza quanto ao excesso. Quando descritos como legião, iniciamos outro ciclo de desabrigos: nossa imagem desliza — inutilizando, desse modo, a comparação — por resíduos que não conduzem nem ao conflito nem à exclusão. Sua subsistência não deslumbra, da mesma forma que a fome (a fome que inaugura uma nova fúria, uma fúria alerta) não deslumbra — mas consome os coágulos que apodreceriam (calcinados pelo cansaço) no interior dos passos, antes que se fundisse — com os metais da desolação — o organismo a ser oferecido aos rios que a fuligem acomoda no meio de outros desperdícios. * * * De qualquer forma, estas pedras não suportariam tanto tempo em contato com olhares nada cardeais; certa metáfora, planando, abriu uma fresta no céu da desorientação, depois desapareceu através da vidraça ainda precária. Quando o lábio incha como uma imagem infeccionada, desconfio dos dentes mas — sobretudo — daquela palavra mais uma vez reinventada. A construção da manhã continua tão sólida quanto um trauma. Da direção da cidade, em meio a muita brita, vem uma claridade que o poema, podendo conseguir, não saberá evitar. A construção da manhã segue tão versátil quanto uma vertigem. Tentarei falar antes que o silêncio desloque outra breve vértebra. *

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Casé Lontra Marques (1985)
Publicou os livros: Movo as mãos queimadas sob a água (2011); Saber o sol do esquecimento (2010); A densidade do céu sobre a demolição (2009); Campo de ampliação (2009); Mares inacabados (2008).
.:: MARCOS TAVARES ::.
RE / TALHOS As meninas choravam e choravam e eu punha colírio nos olhos. Há muito perdi meu coração entre um amor e uma rua. O relógio está quebrado. O emprego, difícil. Ainda acabo num hospício, ou em Faculdade de Letras. O mundo não é só palavra. O mundo é redondo rodando. E os homens continuam quadrados. O pai queria-me engenheiro, depois vieram outros filhos, e fiquei sendo o mais velho. Não agüento mais essa morte. Tenho mesmo é vontade de viver. Um dia hei de ser um homem. ( Junho / 1979 ) OS SETE DIAS No primeiro dia, visto que estava escuro, muito escuro, quase trevas, acendi a lâmpada. No segundo, senti a expansão das águas e providenciei conserto no encanamento. No terceiro, semeei alface, reguei as plantas, colhi os frutos segundo as espécies. No quarto, fui tentado a dormir, então, resoluto, serrei a cama e a janela. No quinto dia, soltei os pássaros, aos cães dei de comer e de beber. No sexto, depositei o lixo recolhido aos cinco cantos da casa. No sétimo, exausto, deitei-me ao chão, e, vendo o quão isso era bom, ali descansei. E não sou ---- obviamente ---- Deus algum. ( 30-08-1982 ) POLUIÇÃO CO CO CO CO tosse tosse tosse CO CO CO CO tosse tosse tosse CO CO CO CO tosse tosse tosse CO CO CO CO tosse CO tosse CO tosse CO tóxico monóxido carbônico ó t bi o

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Marcos Tavares (1957)
Natural de Vitória. Ficcionista, publicou No Escuro, Armados (contos, Ed. FCAA / Anima, 1987) e GEMAGEM (poemas, Ed. Florecultura, 2005). Eleito em 2011, ocupa a Cátedra nº 15 da Academia Espírito-santense de Letras (AEL).
.:: SÉRGIO BLANK ::.
APÓSTROFO SEGUIDO DE S a minha letra — risco em silêncio não é a de enxofre nem consoante fricativa alveolar surda não é santa ou santo ou são-salavá a décima-oitava letra do alfabeto a minha inicial — cronograma em sangue dois segundos de poema espírito escrito na cidade que neon algum ilumina — ofusca em sono a letra muda desta planta genealógica: cáspite o esse — cascavel em catacrese o nome em que me inscrevo no juízo de salomão minha voz rubricada nestes versos — quatorze no todo BARROCO NO BAR sentado a bordo desta basílica alcoólica faço baralho com todos à vista ás a rei ao boreal ou ao sul bebo a todos sem as hierarquias se sou barão e ele é mais pois é visconde ou o tal ali possa ser arquiduque vão todos à merda e duque foi nome de cachorro barbitúrico à mão de cor tão bordô faça-me instrumento de sua paz que a noite é feto e esperança é a última que falece

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Sérgio Luiz Blank (1964—2020)
Nasceu em Vitória-ES. Publicou: Poesia: Estilo de ser assim, tampouco, edição alternativa promovida pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Ufes, 1984; Pus, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Editora Anima, 1987; Um, Cultural-ES, 1989; A tabela periódica, Secretaria de Produção e Difusão Cultural/Ufes,1993; Vírgula, 1996. Literatura para crianças: Safira, Departamento Estadual de Cultura, 1991.


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