Quando eu tinha três anos sofri um atropelamento. Lembro-me muito bem dessa manhã tão distante.

Um tipo inesquecível: Humberto Nóbrega

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Quando eu tinha três anos sofri um atropelamento. Lembro-me muito bem dessa manhã tão distante.

Quando meu pai, Francisco Espínola, foi nomeado juiz da Capital, instalou sua família enorme no compartimento térreo de uma casa alugada da Avenida D. Pedro I. Na casa de cima morava Dona Suzana Galvão com seu filho Paulo Francisco e sua filha deficiente Judith Jane. Na fatídica manhã eu havia tomado café e saído para brincar, ainda com a roupa que havia dormido: uma camisa de jogador do Colégio Pio X, que pertencia ao irmão mais velho, João Neto. Lembro-me que a camisa estava suja de café com leite, que havia tomado com o pão.

Estávamos brincando de fazendinha, Silvino e eu, fazendo boizinhos com manguitos verdes e palitos de fósforos. Então atravessei a rua para pegar grama do outro lado, na calçada da dona Dalva. Nunca a conheci, porém seu nome ficou gravado porquê nosso pai nos ensinou a reconhecer o planeta Venus, e disse que também era conhecido por Estrela Dalva.

No meio da rua fui atingido pelo carro. A minha sorte, depois fiquei sabendo, foi que se tratava de uma fubica Ford 29 de seu Antonio, da mercearia, pai de Mano e Célia, que anos depois viriam a ser nossos amigos.

Depois mamãe me contou que fez parar um caminhão que ia passando, para me levar desmaiado para o Hospital do Pronto Socorro.

Voltei a abrir os olhos quando a minha mãe me transferia para uma ambulância, que ia passando e foi parada pelo motorista do caminhão. Lá dentro apaguei de novo.

Quando retornei estava num quarto onde tudo era branco: camas, cadeiras, criado mudo, armário, uma moça de branco e também um homem todo de branco. Apontei para o armário e pedi água gelada: pensei que fosse uma geladeira. Ele riu.

Foi nessa ocasião que eu vi pela primeira vez a figura risonha, vestido de branco impecável, gravatinha borboleta, de Humberto Nóbrega. Mas o mais provável é que esse episódio tenha marcado a lembrança mais antiga que eu tenho dele.

Até então nós tínhamos dois tios homens, porém ambos muito distantes e conseqüentemente ausentes da nossa vida quotidiana, da nossa formação: tio José Espínola, irmão de meu pai, que morava no Rio de Janeiro e há décadas não vinha à Paraíba. E tio Jupi, irmão da minha mãe, Nair Espínola, e que morava na também distante cidade de Misericórdia, hoje Itaporanga.

A figura de NOSSO TIO foi então preenchida por Humberto Nóbrega, o primo mais querido de meu pai. A partir daí ele tornou-se personagem da nossa vida, presente em todos os momentos de nossa família, alegres e tristes, sempre acompanhado pela sua fiel esposa Nazaré.


Dr. Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega era um conceituado médico e intelectual paraibano, neto do Barão do Abihay. Nasceu na capital paraibana, então Parahyba, no dia 3 de fevereiro de 1912. Era o filho caçula de Francisco Gouveia Nóbrega e Maria Carneiro da Cunha Nóbrega. Tinha outros cinco irmãos.

Estudou o primeiro ano de Medicina na Faculdade de Recife em 1932. No ano seguinte transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, onde estudou o resto do curso, vindo a colar grau de médico em 1937, especializando-se em proctologia.

Fez o curso de médico sanitarista no Departamento Nacional de Saúde, no Rio de Janeiro, em 1951.

Casado com Nazaré de Novais Nóbrega teve três filhos. O primeiro, Humberto Filho, faleceu no dia em que nasceu, só havendo tempo para batizá-lo.

Os outros dois filhos são: José Francisco, casado com a advogada Eulina de Almeida Nóbrega, e Maria da Piedade, Nitinha, casada com o médico Geraldez Tomaz.

Avô super-extremado, deixou seis netos, todos marcados pela deliciosa convivência com Humberto: Silvana, Carmem, Renata, Simone, Humberto Neto e Geraldez Filho. E nove bisnetos.

Um detalhe que me é muito caro: Humberto fora apresentado à sua futura esposa justamente pelo meu pai, Chico Espínola, numa festa do veraneio da praia Formosa. Daí evoluiu para namoro, e depois casamento!

Em sua vida pública, exerceu o cargo de chefe do Departamento Estadual de Saúde, equivalente a Secretário de Estado da Saúde, no governo de no governo de Osvaldo Trigueiro de Albuquerque, de 1947 a 1950, em 1946. Em seu mandato regularizou e intensificou a fiscalização dos estabelecimentos de saúde do estado, inclusive as farmácias.

No ano de 1951, em associação com outros médicos notáveis, como o cirurgião Asdrúbal Marsiglia de Oliveira, o analista Maurilio Almeida, o pediatra Dr. João Medeiros, os obstetras Danilo de Carvalho Luna e Lauro dos Guimarães Wanderley, Humberto Nóbrega fundou a Faculdade de Medicina da Paraíba. A sua primeira turma funcionou a partir de 1952. O dermatologista Arnaldo Tavares proferiu a Aula Inaugural no Teatro Santa Rosa, com o tema “A Neurose do Medo e a sua Repercussão na Coletividade.

Já em 1955 a Faculdade de Medicina, junto com outros dez cursos superiores, formou a Universidade da Paraíba, por iniciativa do governador José Américo de Almeida, que foi o seu primeiro reitor, honorífico. Cinco anos depois foi federalizada e transformada em Universidade Federal da Paraíba - UFPB.

Dr. Humberto Nóbrega foi o reitor da Universidade Federal da Paraíba de 1971 a 1975. Em sua gestão foi concretizada a transferência de todos os cursos superiores para o novo Campus Universitário, o Campus I. A sua administração deu início ao funcionamento pleno do Hospital Universitário Lauro Wanderley, com a transferência para lá do Curso Médico.

No ano de 1980, junto com o anatomista Amilcar de Souza Leão (idealizador), o cirurgião Asdrúbal de Oliveira e o nutrólogo Eugênio de Carvalho Júnior, Dr. Humberto Nóbrega fundou a Academia Paraibana de Medicina. Posteriormente veio a se tornar o seu presidente.

Entre muitos outros cargos Dr. Humberto Nóbrega foi membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, tendo sido seu presidente de 1968 a 1974.

Também foi membro da Academia Paraibana de Letras, tendo ocupado a cadeira de número 1, cujo patrono é o poeta Augusto dos Anjos. Muita honra!

Escritor, historiador e pesquisador profícuo, a sua era a maior biblioteca particular da Paraíba. Hoje ela está abrigada na UFPB.

.Faleceu em sua casa, no Cabo Branco, em 1988, cercado pela sua família que tanto o venera, ainda hoje.

Essa era a personalidade pública Humberto Nóbrega.


Figura inconfundível, com seu queixinho semelhante ao de Noel Rosa, o homem Humberto Nóbrega estava sempre alegre, sorridente, exercendo o seu humor fino e mordaz. Brincalhão, ele sempre tinha uma pilhéria para fazer, quando o momento permitia.

Certa vez, numa excursão aérea com vários casais amigos, o avião teve uma pane, tendo o piloto anunciado o retorno ao aeroporto. Entre os amigos estava Vicente Ferrer, proprietário da principal agencia funerária da nossa Capital. Estava lívido! Humberto, então, em voz alta interrompeu o silêncio tumular, dizendo para o amigo:

“Vicente, você já pensou que vai perder todos estes enterros?” E deu um grito com o beliscão que levou de Nazaré!


Muitas, inesquecíveis e divertidas são as histórias de Humberto Nóbrega. Selecionei quatro para lhes contar.

Cinco jovens, amigos inseparáveis na Capital paraibana dos anos 1930, Francisco Espínola, Humberto Nóbrega, Luiz de Oliveira Lima, Danilo Rosas e José Joffily, vez por outra gostavam de pregar peças.

Certa vez o cão atentou, e tiveram uma ótima idéia: subornaram o sacristão da Catedral, hoje Basílica Nossa Senhora de Fátima, a amarrar uma corda na extremidade da corda grossa que fazia bater o badalo do sino da Catedral. Essa extensão, foi disfarçadamente pendurada para fora da torre do campanário, pela janela.

De madrugada o grupo foi silenciosamente até a lateral da torre e puxou fortemente a corda, tocando algumas vezes o sino da Catedral! A cidade era pequena, e todo mundo acordou-se. Houve quem pensasse em milagre. Mas, conhecedor das peças, padre Zé Coutinho descobriu tudo. Um escândalo!


Estudando na Faculdade Bahiana de Medicina, Humberto passava as férias em João Pessoa. Ele viajava em navios que faziam rotas costeiras, de porto em porto, chamados vapores. Tomava um vapor para ir, e outro para voltar nas férias. A viagem durava alguns dias.


Numa dessas férias, às vésperas de embarcar de volta a Salvador foi procurado por uma amiga de sua família. Ela pediu-lhe para levar uma encomenda para a irmã, que morava em Salvador. A senhora era baiana, e há muitos anos residia em nossa Capital.

Tendo Humberto respondido que poderia levar a encomenda, ela entregou-lhe um saco de aniagem fechado por um cadeado, e uma carta para a irmã. E foi-se embora.

Na data marcada Humberto embarcou no vapor e depositou o saco no chão do camarote. No segundo dia de viagem notou que muitas formigas estavam entrando e saindo do saco. Balançou o saco e não gostou do que ouviu.

“Ih!” pensou, “o saco deve estar cheio de alfenim, rapadura, compotas de doces. E agora está tudo estragado.” Abriu a escotilha e jogou o saco no mar.

Dois dias após ter chegado a Salvador foi fazer uma visita à destinatária, para entregar a carta. Lá, contou o que havia acontecido.

Ao ouvir que o saco fora jogado no mar, ela sentiu-se mal e caiu numa poltrona, chorando e dizendo:

“OS OSSOS DE MEU PAI!”


Humberto Nóbrega morava numa pensão do centro antigo de Salvador, numa rua cheia de pensionatos, todos lotados de estudantes de todo o país. Na Semana Santa a procissão passava justamente por essa rua. Quase todos os anos os estudantes mais cretinos aprontavam alguma brincadeira.

Numa dessas Quintas-feiras Santas um colega de pensão de Humberto apostou que atravessaria nu na frente da procissão, correndo da pensão de um lado para a pensão do outro lado da rua. Humberto topou a aposta, dizendo que ele não teria essa coragem.

À tarde, quando a procissão chegou perto, o estudante corajoso despontou nu na porta da sua pensão e correu para o outro lado da rua, escandalizando carolas e prelados.

Mas quando tentou entrar na pensão da frente esbarrou na porta trancada! Correu de volta, e Humberto também trancou a porta! O rapaz saiu correndo pela rua, buscado guarida. Um escândalo! Nunca mais se falaram.


No início dos anos 1960 aconteceu um crime horrível na cidade paraibana de Mamanguape. O delegado tenente Serpa assassinou barbaramente um garçom. O fato teve grande repercussão nacional, especialmente na Paraíba, na sociedade local.

Como o tenente Serpa pertencia a uma família de muito prestígio, e tinha muita influência política, o governador Pedro Gondim solicitou do presidente do Tribunal de Justiça que indicasse um magistrado para instruir o processo, evitando qualquer dúvida sobre a sua isenção. Foi então designado para o caso o juiz Onesipo Novais.

Dr. Onesipo era um juiz austero, ilibado, muito sério. Não poderia ter sido escolhido juiz melhor para assumir o abacaxi que era o Caso Serpa. E, por acaso, era primo de Nazaré, esposa de Humberto Nóbrega, e que também era muito seu amigo.

Humberto, fã da máxima perco-o-amigo-mas-não-perco-a-piada, ao saber da nomeação os olhos brilharam pela oportunidade de fazer uma cretinice. E não perdeu tempo.

Na manhã de um sábado telefonou para Dr. Onesipo e, disfarçando a voz, disse:

“Alô! É o juiz Onesipo Novaes? Aqui é o jornalista David Nasser, da revista O Cruzeiro. Estou no Nordeste realizando uma reportagem. E vim dar um salto em João Pessoa para entrevistar o senhor sobre o Caso Serpa. Pode ser agora pela manhã, pois à tarde tenho que tomar um avião de volta ao Rio de Janeiro. Pode me receber agora?”

“Lamento muito, senhor jornalista, mas não dou entrevista sobre processos que ainda não foram julgados”

Humberto insistiu:

“O senhor não me entendeu, eu vou repetir: eu sou o jornalista DA-VID NAS-SER, da revista O CRU-ZEI-RO! Eu vim aqui apenas para entrevistá-lo. Já entrevistei presidentes da República. Não será um juiz da Paraíba que vai impedir. Eu não vou retornar ao Rio de Janeiro sem essa entrevista. Eu vou agora mesmo à sua casa, que já sei onde é!”

E desligou batendo o telefone. Humberto esperou uma meia hora, e chamou a esposa, que não estava sabendo de nada: “Nazaré, vamos fazer uma visita a Onesipo? Faz tempos que não o vejo, quero saber como vai...”

E foram.

Estacionando o carro na frente da casa do juiz, Humberto observou que Dr. Onesipo estava inquieto no terraço, andado de um lado para o outro, com um revólver na mão.

“Olá, Onesipo, que foi que houve? Pra que essa arma?”

“Um cachorro dum jornalista disse que vem aqui me entrevistar, na marra. E eu quero ver se ele tem coragem!”

Humberto pensou, preocupado:

“Ih! Acho que desta vez exagerei!” E falou para o juiz:

“Homem, deixe isso pra lá. Vá guardar essa arma...”

“De jeito nenhum. Quero ver esse canalha passar desse portão!”

Foi muito difícil, mas com a ajuda de Nazaré Humberto conseguiu fazer ele sentar-se no terraço, conversando para distraí-lo, até que conseguiu convencê-lo a largar a arma.

Nesse dia Humberto não disse nada do que sabia, senão quem poderia levar o tiro seria ele. Somente meses depois é que revelou a brincadeira cretina. Mas nunca perdeu a amizade do posteriormente desembargador Onesipo Novais.

Esse foi a grande figura Humberto Nóbrega. Realmente, um tipo inesquecível!

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  1. Ótimo perfil. Devo a Humberto Nóbrega o acesso a precioso material sobre Augusto dos Anjos, representado por cartas e pela produção ligeira que o Poeta do Eu publicou no Nonevar (jornalzinho que circulou durante muitos anos na Festa das Neves).

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  2. Zé Mário, você como sempre cascaviando nos seus alfarrábios, histórias interessantes para nos contar.
    Dr. Humberto foi colega de turma na Bahia de meu tio Osmar Vergara Mendonça e amigo de meu pai Francisco Mendonça Filho que também foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina na Paraíba. Parabéns!

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  3. Convivi com o professor Humberto mais amiúde, já como professor da UFPb, quando de sua passagem pelo reitorado dessa Instituição, inegavelmente uma das mais profícuas administrações que a nossa Universidade já teve.
    Recebendo uma Universidade que tomava corpo, assumindo uma posição de destaque dentre as chamadas "menores", o Reitor Humberto deu seguimento ao ritmo acelerado que fora dado à Instituição, na gestão anterior, do também médico Guilardo Martins, constituindo-se, inegavelmente, em um daqueles a quem o Ministro José Américo de Almeida legou a responsabilidade de dar à Instituição "o selo da perpetuidade" que tanto orgulha nossa Paraíba e seus filhos.

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  4. A todos sou agradecido pelas palavras estimulantes. Realmente, Humberto Nóbrega me evoca lembranças que me são muito caras.
    Figura realmente inesquecível.

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  5. Germano Romero16/2/21 20:29

    Professor José Mário, muito merecida a homenagem ao Reitor Humberto Nóbrega, a quem o patrono do ALCR muito admirava e com quem desfrutou boa amizade. Abraços

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  6. Convivi muito aqui no Rio com meu tio Humberto.
    Figura inesquecível.

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