Há um tempo para os vivos e há o tempo dos mortos. Enquanto tentamos dilatar ao máximo o ínfimo tempo da consciência, o outro — o nada...

O eclipse do absoluto

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Há um tempo para os vivos e há o tempo dos mortos.

Enquanto tentamos dilatar ao máximo o ínfimo tempo da consciência, o outro — o nada — já se apresenta distendido a infinita e desesperadora potência.

Mas como poderíamos nos aproximar dos artifícios lançados por nossos contemporâneos para combater e distorcer esta verdade? Poderíamos partir da idéia de uma nova, e talvez transitória trindade. Não a santíssima trindade e suas implicações doutrinárias e cosmogônicas,
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Deus, Arquiteto do Universo W. Blake, 1794
com seu lastro histórico de batalhas mas, em contra-partida, grande fomentadora da arte e da cultura ao longo de muitos séculos.

Proponho uma trindade pós-moderna, desfigurada e demasiadamente terrena e um homem mal estruturado para suportá-la.

A primeira figura desta trindade também seria um deus. Agora não mais o Deus onipotente, onisciente e onipresente dos cristãos, o criador do Universo, o senhor do Ocidente, a maior criação humana em busca da transcendência do que viemos chamar de alma. Este relojoeiro divino que hoje se vê, quando não desprezado, renegado a coadjuvante na vida do homem.

E a idéia do poder divino de Deus foi desconstruída progressivamente. Primeiro o fascínio com a ciência, o desmascaramento do GÊNESIS, os espasmos intestinais de Darwin frente às óbvias conclusões pacientemente colhidas, o turbilhão em que se encerrou o século XIX com as considerações de Feuerbach, as revelações de Schopenhauer e Nietszche, as ervilhas de Mendel, as idéias de Karl Marx e o inicio das publicações de Freud. A chegada no século XX celebrada pelas extraordinárias exposições de Londres e Paris; as primeiras películas.

Já nos meados do século XIX, em seu livro “A essência do cristianismo”, Feuerbach partiu de uma citação de Petrônio: Primus in orbe deos fecit timor, isto é, o medo foi que primeiro criou deuses no mundo, para demonstrar que o medo surgiu no homem por causa do sentimento de dependência.

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E todas as idiossicrasias do estar vivo e ser portador de uma consciência moldável culminaram em uma religião primariamente fruto do egoísmo. E, por conseqüência, não surpreende o ato de implorar aos deuses a destruição dos inimigos.

Podemos imaginar o impacto que sofreram Marx e Engels ao ler as afirmações lúcidas, ou melhor, translúcidas, proferidas por Feuerbach. Considerar que a religião seria a fase infantil da humanidade. Daí o próximo passo: o materialismo histórico, o materialismo dialético.

Mas o homem do final do século XIX e inicio do século XX, o homem que criou a nova religião — o comunismo — ainda se mantinha ingênuo.

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Hoje, um leitor atento do inicio do Século XXI, com o devido distanciamento dos acontecimentos que lavaram com sangue o leste europeu e tantos outros países em todo o Mundo, se encontra confortável para afirmar o quão utópica e descabida era a idéia de se considerar possível um postura humanista de todos os homens, principalmente dos ávidos pelo poder.

Em paralelo, assistiu-se a incapacidade dos dirigentes do divino em acompanhar as evoluções da máquina do mundo, gerando um esvaziamento progressivo da igreja católica iniciado no Velho Mundo.

Os artistas e os intelectuais desprezaram Deus e o Diabo, mas muitos mantiveram a visão maniqueísta do bem e do mal. Só que agora eram outros os deuses – sendo o maior de todos o socialismo.

Mas fazendo isso os homens plantaram na terra seus ídolos, agora palpáveis e contraditórios. E vieram as guerras e a divisão da Europa. E, quando mais tarde, caiu o muro, desmascarou-se o mito.

Visionários, como o poeta mexicano Octávio Paz em seu livro “Itinerário” já declarava suas suspeitas, daí as consequentes inimizades contra ele fomentadas no meio intelectual da época, sobre o regime socialista soviético. E tanto Octávio Paz como o poeta polonês Czeslaw Milosz em seu livro “Mente Cativa” diziam do seqüestro ideológico de várias mentes brilhantes – e ambos citaram o poeta chileno Pablo Neruda – que foram seduzidas pelo comunismo.

Segundo Paz, tratou-se de uma “aberração da classe intelectual moderna”. E essa “ferida secreta na consciência”, resultado do afastamento, talvez uma extração à fórceps, da totalidade dos antigos absolutos religiosos, fez crescer nos intelectuais um sentimento de “nostalgia da totalidade e do absoluto”. Dessa forma Octávio Paz tentou explicar a adoção do comunismo por uma imensa parcela da classe intelectual ao longo do século XX. E a essa nova fé o poeta mexicano chamou de “uma paródia perversa da comunhão religiosa”.

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Foi esse o novo deus brilhantemente descrito pelo poeta Dante Milano: o “deus da guerra e não da paz”.

Sem perceber, já introduzimos em nossa discussão o segundo componente da nova trindade — o homem.

A meta física do homem comum sempre foi um prato de comida e a transcendência algo deixado para a última hora, algo sempre presente, mas guardado no inconsciente.

Eis aí esse homem, agora “liberto”, mas despreparado. Sem a sustentação de uma Igreja que perdeu o poder e de um Estado que perdeu o território.

Diante desse Mundo cru toda nudez foi permitida. E disso soube aproveitar um novo poder invisível. O maestro dos desejos e frustações. Pois esse foi o segredo do sucesso desse novo poderoso e descompromissado déspota: ter a consciência de que o homem é um insatisfeito diante de sua transitoriedade.
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Newton, Arquiteto do Universo W. Blake, 1805
A esse deus incógnita, disperso na virtualidade, sem endereço fixo, liquefeito, onisciente e onipresente, coube reger esse novo homem ao seu bel prazer.

Esse deus — o mercado —, oportunista, soube ver que o homem tornou-se sombra e usou do terceiro componente desta nova trindade ora proposta - o espelho. Eis a trindade pós-moderna: deus, a sombra e o espelho.

Um novo deus que embora invisível é paradoxalmente brilhante e ofusca, como o sol. Um deus capaz de se multiplicar em inúmeras imagens e se distribuir em todas faces e interfaces dos dias, fragmentando o tempo em partículas-cápsulas minúsculas de prazeres efêmeros.

Um deus que soube colocar diante de um homem incapaz de si mesmo, que não soube se manter sem Deus — um espelho.

E ao colocar-se por detrás deste homem-sombra fez-se a única imagem possível refletida por detrás da escuridão do ser.

Daí eu concordar com a máxima de Porchia: Creio em deus não por ele. Muito menos por mim. Creio em deus, pelos homens que crêem em deus.

Mas essa crença não significa reconhecer no homem um ser superior e absoluto frente ao todo, sim por considerar que a crença em Deus é uma condição fundamental para uma prevenção da disseminação da barbárie. Vejo como utópica uma condição em que o homem se afaste de Deus e isso signifique uma evolução para as relações inter-pessoais e de respeito com nosso planeta.

Digo isso porque o homem não se preparou para a morte de Deus.

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