Para economizar o dinheiro do transporte, caminhava até a escola após o almoço — o sol do Equador tostando a pele jovem. No fim do mês, c...

Freddie

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Para economizar o dinheiro do transporte, caminhava até a escola após o almoço — o sol do Equador tostando a pele jovem. No fim do mês, com as notas e moedas nas mãos, entrava na loja de discos e falava com o rapaz de cabelos encaracolados. Ele lhe vendera os álbuns dos Beatles. Havia sido uma descoberta desde que a Íris lhe falara daqueles ingleses bonitinhos. Tornou-se um vício ouvi-los e o rapaz da loja de discos a ajudara a comprar aos poucos toda a coleção, em ordem cronológica. Teve de apelar para os dicionários a fim de traduzir as coisas que seu inglês precário não alcançava.

Naquele dia foi diferente. Tinha todos os discos do Beatles, alguns dos Stones e do Led Zeppelin, entre outros. Parecia, do alto de seus quatorze anos, que já não havia mais ninguém para ouvir no mundo do rock. O rapaz de cabelos encaracolados discordou:

– Já ouviu o Queen?

Sacudiu a cabeça. Ele trouxe – com grande cuidado, ainda lembra – um álbum todo branco, com um desenho no meio da capa: quase um brasão, com leões, fadas e uma fênix. Bonito. Um ar de realeza que combinava com o nome da banda.

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– Esta música aqui, você vai ouvir primeiro. Preste atenção nas vozes deles. Parece uma ópera, sabe. Você já ouviu ópera?

Pela segunda vez, sacudiu a cabeça, meio envergonhada da sua ignorância.

Ele colocou a faixa.

Is this the real life? Is this just fantasy?

– Isso é uma balada. – sussurrou, baixinho.

– Shhh, ouça. – Ele apontou para o disco.

Abra seus olhos, olhe para os céus e veja. Veja, Soninha...


Arrepios descendo pela espinha. Aquela introdução a capella, única; o piano; cascatas de vozes dizendo coisas tão novas. O que é scaramouche? E Bismillah? Fígaro? Galileo é o Galileu Galilei? Rhapsody?

Ópera e guitarras. Anyway the wind blows foi morrendo no piano até emendar num hino que ela achou muito belo e, só alguns anos depois, saberia que era God Save the Queen.

Levou o álbum para casa. Não resistiu a iniciar por Bohemian Rhapsody. Só então ouviu o disco inteiro, viu as fotos dos músicos, a cabeleira de Brian, os cortes de cabelo esquisitos de Freddie, Roger e Deacon. E nasceu no seu peito um novo amor.
A harpa e a doçura na voz de Freddie em Love of my Life vieram suavizar o impacto de um álbum que abre com a frase “você chupa meu sangue como uma sanguessuga”, numa das canções mais rancorosas da história. Teve vontade de dançar com o vaudeville de Seaside Rendezvous e sorriu com a simplicidade ingênua de You’re my Best Friend. Algum tempo teria de se passar até que entendesse que Brian May era astrofísico e que ’39 era uma ficção científica com gotas de Einstein.

Um mês depois comprou A Day at the Races. E nos anos seguintes vieram todos os demais álbuns lançados pelo Queen. Aprendeu a cantar em japonês com sotaque britânico e a tentar pronunciar, em segundos, a impossível frase “they say I got a lot of water in my brain”. Ficou sem fôlego, descobriu blues melancólicos, sons de bicicleta, guitarras flamencas em Innuendo, soube que a vida era dura como na ópera Il Pagliacci e aprendeu que tudo o que se tem a fazer é se apaixonar, mergulhar no jogo e emergir com as mãos cheias de uma coisinha louca chamada amor.

Agora tinha oito favoritos. John, Paul, George, Ringo, Freddie, Brian, Roger e mais um John, o Deacon.

Queen ◼ Roger Taylor, Brian May, Freddie Mercury e John Deacon

Alguns anos se passaram e logo surgiu uma doença nova no mundo. A imprensa dava-lhe nomes feios: câncer gay, peste gay. Ninguém sabia como se contraía aquilo. Um medo se espalhou pela terra. A doença transformava homens em esqueletos vivos e lhes roubava as defesas do corpo, deixando-os nus e desamparados perante coisas simples, como resfriados.

Os primeiros amigos partiram, abatidos pela Aids. O Ailton, o Sóter, o Beto, o Augusto. Tão jovens. Dois anos antes, ela vira pela TV o Queen chegar ao Rock in Rio. Mal respirava quando o coro de 270 mil vozes cantou Love of my Life. Cantou também, a plenos pulmões, diante da televisão, sofrendo por não estar a poucos metros de um palco no Rio de Janeiro.


Seis anos depois, o HIV seguia implacável, a espalhar sombras. Levara o Henfil, o Cazuza e mais de uma dúzia de seus amigos. Ela havia se formado em jornalismo, analisando no trabalho final a forma como a imprensa havia noticiado o surgimento da Aids.

Medo, ignorância e preconceito pulsavam em toda parte. Famílias trancavam os parentes em quartinhos no fundo dos quintais. Sentia-se pavor ao abraçar os amigos doentes. Madre Teresa de Calcutá estava em Nova York, recolhendo soropositivos descartados pelas famílias nos becos imundos, junto às lixeiras. Gift of love.

Numa noite de novembro, ela editava o caderno de Cultura de um jornal quando leu, com um nó na garganta, a notícia que deveria colocar na página:
05.09.1946 — 24.11.1991
Freddie Mercury havia comunicado que era portador do vírus HIV. Os olhos se encheram de lágrimas ao saber da sentença de morte pesando sobre o amigo que jamais havia visto. Nem teve tempo de se recuperar. No dia seguinte, ao chegar à redação, teve de noticiar que Freddie já não estava no mundo. Cabisbaixa, escreveu a manchete lacônica, resistindo à vontade de fazer trocadilho em inglês: “The Queen is dead. God save the Queen”.

Veio o tempo e estendeu sobre ela sua teia de novos sonhos. Agora tinha filhos, que cresceram ouvindo o Queen, os Beatles, Mozart e óperas. Esses mesmos filhos que lhe telefonaram num sábado de sol: “Vamos ver Bohemian Rhapsody juntos?”

Assistiu ao filme de mãos dadas com eles, os olhos úmidos, vendo sua existência desfilar, inteira, tendo como trilha sonora a voz poderosa de Freddie. Uma colagem de lembranças que fazia lágrimas e risos brotarem a cada imagem, vestimenta, clipe e canção.

Que importava se o filme tinha umas falhas históricas? Ela tinha de novo 14 anos, seus amigos estavam vivos e ela estava na loja de discos, iniciando sua vida.


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