No ano de 2012, fui a um encontro de Clássicas, em Ascea Marina, um balneário de Salerno, no mar Tirreno. Depois de passar um dia em Pompe...

Uma visita ao Museu de Nápoles

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No ano de 2012, fui a um encontro de Clássicas, em Ascea Marina, um balneário de Salerno, no mar Tirreno. Depois de passar um dia em Pompeia, no final do encontro, cheguei, no sábado pela manhã, a Nápoles, de onde sairia, à noite, com destino a Roma. Planejei sair à noite, para que pudesse passar o dia no Museu Nacional Arqueológico, onde se encontra grande parte do acervo da cidade de Pompeia. Tive sorte de ser início da primavera e as salas principais do Museu estarem abertas, o que me permitiu obter muitas fotos importantes, que utilizo como material para a sala de aula.

A visita à cidade de Pompeia é, realmente, algo único. A emoção é grande, por sabermos o que ocorreu e por nos colocar diante do belo e do terrível, como a visão dos corpos calcinados, cenas que só conhecemos pelos livros; como a dos ladrilhos da entrada da Casa do Poeta Trágico, com a figura de um cachorro e o aviso “CAVE CANEM”, “Cuidado com o cão” (figura 1).

M. Marques Jr
A imponência dos templos de Júpiter e de Apolo, a Basílica, o Forum, os teatros e o anfiteatro, palco das munĕra, os jogos gladiatórios, cem anos antes da construção do Coliseu; os afrescos, os lupanares, tudo empolga, sobretudo a visão do Vesúvio, perceptível de todos os ângulos da cidade. O Museu Nacional Arqueológico de Nápoles é a complementação da visita a Pompeia, com o grande tesouro de mármores, bronzes, afrescos, altos-relevos, cerâmicas, que abriga. Um deles é a estátua original do fauno dançante do impluvium da Casa do Fauno (figura 2). Podemos admirá-la mais de perto, ainda que esteja protegida por um vidro, e acompanhar o seu movimento de todos os ângulos, o que não é permitido em Pompeia.

M. Marques Jr (E) ◼ M. Kabel (D)
Outra grande atração do Museu é o Jardim Secreto de Pompeia, onde se encontra o que se pôde de salvar do acervo erótico da cidade, em estátuas, na cerâmica, em lâmpadas de argila ou de bronze, sinos, móbiles, numa sagração ao deus Priapo. Além disso, podemos ver os falos, representação dessa divindade, que eram depositados nos jardins das casas ou pregados nas suas paredes, como símbolo de fertilidade e de felicidade. Não se pode deixar de lado os afrescos salvos dos lupanares – alguns ainda se encontram na cidade –, com as pinturas das variadas posições sexuais, de maneira a guiar, como um menu, os clientes das várias línguas, que frequentavam a agitada cidade, famosa pelos seus prazeres.

De todas as belezas que eu vi, uma me chamou a atenção. Trata-se de um afresco, enquadrado como se fosse uma tela, datado do século I d. C., que aborda o mito do nascimento de Roma (figura 3).
M. Marques Jr
Nessa tela, percebemos uma narrativa contínua, iniciada na parte superior, em que Marte, deus da guerra, observado por Apolo, guiando o carro do sol, desce para surpreender a sacerdotisa vestal Rhea Silvia, no sono. À direita da vestal, um pouco mais acima, encontra-se o templo da deusa Vesta e, um pouco abaixo, à esquerda, um grupo, que parece ser de sacerdotes, diante de um altar, apontando para o inusitado da cena (figura 4).

Obrigada pelo tio Amúlio a se tornar vestal, de modo a não ter descendentes que pudessem reivindicar o trono de Alba Longa, por ele usurpado das mãos do irmão, Numitor, Rhea Silvia, já sacerdotisa, é amada por Marte e dele concebe dois filhos, os gêmeos Rômulo e Remo, jogados na enchente do Tibre, recolhidos e amamentados por uma loba, depois resgatados pelo pastor Fáustulo, que os cria com a sua mulher Acca Larentia. Depois de adultos, os gêmeos descobrem a sua origem, matam Numitor e devolvem o poder de Alba Longa ao avô, Amúlio. Agraciados, cada um, com um pedaço de terra no Lácio, cabe a Rômulo, sob a proteção dos deuses, fundar uma cidade de pastores, no alto do Palatino, e nomeá-la Roma, derivação de seu próprio nome.

M. Marques Jr
Descendo a vista para a base do quadro, ali encontramos o deus Mercúrio, mensageiro de Zeus, devidamente paramentado com seu chapéu e suas sandálias aladas, tendo nas mãos o caduceu que concede o sono e a fortuna aos mortais. Como Mercúrio também é um deus condutor, ele aponta para o centro do quadro, indicando os gêmeos sendo aleitados pela loba a uma figura feminina, que se supõe ser a deusa Vênus, em virtude do busto a descoberto, uma forte característica na sua representação na estatuária. Ao lado, mais à direita, encontra-se outra figura feminina, supostamente identificada como Acca Larentia, a mulher do pastor Fáustulo, ambos responsáveis pela criação dos gêmeos (figura 5), vendo o aleitamento no lugar sagrado que ficou conhecido como lŭpercăl, a gruta da loba (figura 6).

M. Marques Jr
A cena se completa, quando olhamos diretamente na base do quadro, à esquerda, e percebemos a representação do rio Tibre – os rios, na cultura grega e romana são divindades, sempre representados por homens fortes e férteis, muitas vezes acompanhados da cornucópia, o chifre da abundância –, a nos dizer sob que circunstâncias nasceu a cidade que dominou o mundo (figura 7). Fundada à margem de um grande rio, tendo como símbolo um animal predador, que caça em grupo, e sob a proteção do deus da guerra e da deusa Vênus, mãe de Eneias, Roma jamais poderia deixar de ser a cidade conquistadora em que se tornou.

M. Marques Jr
O afresco/tela, apesar da erosão provocada pelo tempo e pela erupção do Vesúvio, é simplesmente admirável, porque, é uma narrativa didática sobre a origem de Roma, com a vantagem de ser compreendida rapidamente num enquadramento do olhar. Assim como o proprietário da casa, em cuja parede o afresco se encontrava, tinha a exata noção do quanto a cena pintada era importante, os romanos modernos se encarregaram de preservá-la no Museu de Nápoles e, não contentes, pintaram uma réplica, para que ela fizesse parte do acervo do Museu da Civilização Romana, nos arredores de Roma, de modo que as novas gerações, principalmente as crianças, conduzidas pelos seus professores, e aqueles que não têm como se deslocar a Nápoles, pudessem apreciar um dos raros e mais importantes mitos de sua origem.

Estas raras surpresas valem toda uma viagem.

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