A sala quase toda escura, só a luz na mesa revelava a toalha transparente e, por cima, um pano vermelho aveludado onde as cartas do Ta...

O jogo de Tarô

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A sala quase toda escura, só a luz na mesa revelava a toalha transparente e, por cima, um pano vermelho aveludado onde as cartas do Tarô descansavam inertes. Uma vela acesa fazia a composição com o incenso que exalava um doce cheiro de canela. A sensação de curiosidade e medo deixavam uma leve excitação pairando no ar.

Quando ela entrou, senti que tinha algo diferente, misterioso, meu sexto sentido logo percebeu, tão acostumada que estou com anos e anos atendendo às mais variadas almas aflitas. Ela entrou, deu boa tarde e sentou, ainda com o olhar distante, como se tivesse vindo hipnotizada
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pelo desejo de encontrar a resposta para a dúvida que lhe afligia. Começo perguntando:

— Tem alguma questão específica?

Ela acena com a cabeça dizendo que não, quase balbuciando:

— Vou deixar tudo por conta do baralho.

Faço minha prece silenciosa, pego as 22 cartas dos arcanos maiores do Tarô, as que dizem o mais profundo de cada pessoa, os mistérios maiores, têm a energia mais poderosa. Peço que escolha quatro cartas, ela aponta decidida, sem hesitar, como se soubesse onde se escondiam as respostas. Vagarosamente vou desvendando uma a uma. As quatro representam a identidade, o material, o intelecto e o mundo interior. A primeira carta foi a Torre Fulminada, a XVI carta, quando ela olhou para a imagem da torre com a parte de cima desmoronando e homens caídos de cabeça para baixo, se assustou, como se confirmasse o que estava por vir.

— “Essa carta mostra sua alma”, falei baixinho, quase pedindo licença, “representa como você estará nos próximos meses. O velho precisa ser destruído para dar lugar ao novo, para surgir o que oferecerá ao mundo.

O seu olhar mostrava medo, inquietação, será que era mesmo a hora de tirar a máscara e expor o que carrega consigo no mais íntimo do sentir? Explico que não é uma carta ruim,
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que apesar da imagem das pessoas caindo da torre, representa um recomeço, de outra forma.

Passo para próxima carta, preciso manter o ritmo do jogo das revelações, não perder a corrente energética. A segunda carta é a Temperança, uma mulher com rosto feminino e traços masculinos. É uma carta que faz também uma conexão com o divino, em cada mão uma jarra jorrando água, de uma para outra, como se trocando do feminino para o masculino e vice-versa, o que pensar com relação ao mundo material? Vi esta pergunta estampada nos olhos espantados da moça, e falei:

— É chegado o momento de harmonizar o mundo material, sem abandonar o divino, é preciso não se deixar persuadir pelas palavras dos outros, ter temperança nas suas escolhas.

Ela não fala nada só vai aos poucos se acalmando de sua angústia, como se tivesse recebido permissão para fazer o que tem de ser feito, algo que há muito ela sabe, mas nunca tinha ousado expor.

O Mago aparece para decifrar o seu intelecto, é uma carta com um rapaz e uma mesa onde estão os quatro elementos, terra, água fogo e ar, e os quatro naipes do baralho representando sua comunicação com o mundo exterior, sua relação com as pessoas, parentes, vizinhos, colegas de trabalho, o entorno que nem sempre é construído por afetos, mas dados pelas circunstâncias da vida. É a carta número “I” do Tarô,
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tem uma natureza específica, ela representa o novo, os elementos que a pessoa possui para comunicar algo, capacidade em aprender algo novo e força de vontade.

Cada vez que eu ia interpretando o jogo, ficava mais intrigada e curiosa. Uma vontade de conhecer mais essa pessoa tão enigmática, e com um jogo de Tarô tão presente e real, me concentrei mais ainda, receosa para não expor meu interesse para além dos espíritos que me guiam na interpretação. A carta é a materialização dos seus projetos, mesmo que eles ainda não tenham sidos revelados, comunicados, expostos. Tinha vontade de ficar para sempre lendo aquele jogo, vontade de poder entrar nessa vida e seguir com ela, nunca me ocorreu isso, o que será?

Comecei a embaralhar a minha vida com a dela, não posso pensar nisso, não será honesto com ela, que veio aqui para ver o seu jogo e não o meu. Retomo a concentração e desviro a quarta carta, sai a Justiça, a VIII carta do baralho dos Arcanos Maiores. É a carta da família e do mundo interior, uma carta que pede cautela, pode ser um alerta, é a representação do carma em sua vida, quer dizer, o que fizer agora terá consequências futuras. Vi a aflição nos olhos dela, tive vontade de acariciar suas mãos, de lhe oferecer um consolo, não podia, não estava ali para isso, era meu papel apenas revelar o que as cartas diziam, alertei, não dê nenhum passo sem pensar,
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sem buscar o autoconhecimento, pondere no momento de decidir, avalie todos os lados, seja justa, mas observe, é o momento de encontrar seu verdadeiro eu, é o momento de acertos de contas.

Uma pausa para que pudéssemos respirar e retirar a carta final, a quinta carta, A Síntese, retirada do outro monte, os Arcanos Menores, mas não menos importantes. Ousei perguntar:

— Está tudo bem? Podemos continuar?

Antes da resposta senti, por um breve instante, um lapso de hesitação, logo retomado pelo gesto com a mão dizendo que poderia prosseguir. Fecho meus olhos para poder me desligar dela e me concentrar nas cartas. O que é isso que está me ocorrendo? — peço ajuda dos meus mentores e prossigo. A quinta carta representa o livre arbítrio, quando saiu o Rei de Paus fiquei mais intrigada ainda, um homem poderoso, representa a integridade e maturidade como companheiros daqui para frente, poderá impor respeito e conquistar a admiração das pessoas, revela que é o momento de realizar o grande desejo que estava apenas no plano mental, pode indicar o homem poderoso que irá te acompanhar nessa nova jornada. A carta de paus representa uma ação concreta de que é preciso realizar.

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Ela abriu um sorriso de alívio, era a resposta que queria ouvir, desde que entrou aqui para saber do seu destino. Ele já estava traçado desde o momento que chegou, estava apenas precisando de uma palavra de certeza, de confirmação. Fiquei aliviada de uma forma inusitada, parecia que era a minha história que via naquelas cartas, cada carta uma a uma revelando meus desejos, guardados, tão bem guardados que pensei que nunca chegariam quando estivesse acordada, principalmente colocando cartas, o que isso significa. Não ousei nem pensar em tirar uma carta para mim, assim que ela saiu deixando um perfume de madeira,
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sutil e forte ao mesmo tempo.

Um ano se passou e eu nunca esqueci daquele dia, daquela pessoa misteriosa… Um ano pensando, tentando decifrar, sem poder, só sentindo ainda uma mistura de curiosidade e atração, que estranhamente permanece comigo, uma vontade de pegar na sua mão, de saber mais. Vou sair e tomar um café estou precisando. Saio sem saber se seria um simples café como faço todos os dias, mas sentia algo no ar, não sei dizer.

Quando entro na cafeteria, quase vazia pelo horário, vem um moço e se aproxima. O cheiro do perfume amadeirado acende algo dentro de mim. Ele, de leve toca na minha mão:

— Quer me acompanhar no café? Era como se tivesse realizado o desejo, não entendi de imediato, só quando, com um jeito tranquilo, me falou que tinha feito uma consulta comigo há mais ou menos um ano. O jogo veio todo na minha cabeça, como se estivesse revivendo tudo em segundos, tão inexplicado e agora tão nítido e presente.

O que senti tinha um desejo oculto, à espera de algo que não ousei pensar...

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