Outro dia, “trêzontonte”, estava eu sofrendo de “palavras engasgadas”. Sim! É uma moléstia bem comum, que ainda não consta no livrinho...

Um caso de saúde pública

Outro dia, “trêzontonte”, estava eu sofrendo de “palavras engasgadas”. Sim! É uma moléstia bem comum, que ainda não consta no livrinho do CID (Classificação Internacional de Doença), mas é perigosa.

Palavra presa sufoca, dá nó na garganta e abatimento. Já vi muita amigdalite que começou com palavra ríspida que não desceu e se agravou com respostas oportunas que não saíram.

No meu caso, as palavras agarradas são simples, inofensivas, acanhadas e humildes, vem embrulhadas em papel de pão com barbante.

Nordli-Mathisen
São palavras que sonham com liberdade, querem escapulir e se espalhar pelo ar, mas a timidez as prende em minhas cordas vocais.

Mesmo palavras acolhedoras como a palavra mãe, ou “fofa” como a palavra almofada, ou rápidas como nhoque, e inquietantes como a palavra infinito, às vezes agarram. Já vi poeta morrer engasgado com uma palavra que não tinha rima. Isso aconteceu em Caratinga, lá acontece cada coisa…

Ultimamente, minhas palavras embrulhadas estão escapando aos poucos. São iguais moças da roça que antigamente eram proibidas de ir à cidade, mas quando conseguiam escapar, saiam envergonhadas, inibidas, enroscadas no vestido herdado da tia, escorrendo perfume, cabelo maria-chiquinha, e no pé aquelas bolhas bonitas causadas pela sandália apertada.

São assim as minhas matutas palavras que, no fundo no fundo, só querem passear livres pelos olhos e ouvidos do meu amor.

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