Quando um saci nasce, seus pais sabem que ele terá uma única perna; só não sabem se será a perna direita ou a esquerda. Não se preocupam com isso, porque, na cultura deles, a falta de uma perna é o símbolo da fraternidade, já que faz com que o saci se apoie no ombro de outro saci que tenha a perna que lhe falta, para uma caminhada mais tranquila. Ao invés de saltitar numa única perna, cansando rapidamente e maltratando o corpo pela postura inadequada, é no abraço ao oposto que
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o saci anda mais rápido, mais confortavelmente e chega mais facilmente ao seu destino, que sempre será o destino comum ao outro saci no qual se apoia e serve de apoio.
Nem sempre foi assim. Na origem, quando ainda eram praticamente irracionais, os sacis brigavam por tudo e sem qualquer razão. O pior é que, nas brigas, tentavam usar a única perna para agredir o opositor e fatalmente caíam, machucando-se ao invés de machucar o outro saci. Com o passar do tempo, deram-se conta da bobagem que era tentar impor sua vontade aos que tinham a perna oposta, porque chegaram à insuperável conclusão de que era burrice tratarem-se como inimigos somente porque tinham pernas à direita e à esquerda.
No entanto, até que chegassem a essa conclusão, foram explorados durante muito tempo pelos sacis desonestos, picaretas, que alimentavam o ódio entre os sacis de pernas direitas e os sacis de pernas esquerdas, com o claro objetivo de tirarem proveito próprio. É que, periodicamente, os sacis reuniam-se ao redor de fogueiras
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para escolher aqueles que iriam tomar as decisões em nome do grupo por um período de quatro anos, e a esses escolhidos eram dados direitos incríveis, inventados pelos próprios escolhidos, como, por exemplo, receber 40% do que os sacis comuns coletavam de alimentos, “trabalhar” somente três dias a cada semana e, principalmente, elaborar leis sobre como fazer as próximas escolhas dos representantes, o que eles faziam de tal forma que nenhum saci que não estivesse no grupo de dirigentes pudesse ter acesso aos privilégios deles.
Como faziam isso? Exatamente alimentando a disputa entre os sacis de pernas direitas e os sacis de pernas esquerdas. Enquanto a sacizada se engalfinhava, eles riam à socapa, até que, um dia, a plebe ignara entendeu a trama. Simplesmente decidiram que não iriam mais hostilizar seus opostos de pernas direitas ou esquerdas. Da compreensão nasceu o novo sistema, que, se bem mantenha cada saci com sua perna, respeita o que de comum podem fazer juntos.