Nos tornamos, pouco a pouco, o que normalizamos, valorizamos, conversamos e observamos. Essa é uma verdade denunciada por Paulo na Carta aos Efésios, quando ele afirma que alguns, tendo perdido toda a sensibilidade, entregaram-se aos excessos e passaram a praticar toda sorte de impureza.
O apóstolo não descreve uma queda repentina, mas um processo silencioso e gradual:
Paulo de Tarso, para quem a vida ética e a vigilância espiritual são ações naturais à salvação cristã ▪️ Arte: Rembrandt van Rijn, 1627
Aquilo que antes feria o coração passa a parecer comum, e o que era exceção transforma-se em costume.
A alma humana é profundamente influenciável. O que vemos com frequência domestica o olhar; o que ouvimos molda o pensamento; o que comentamos fortalece convicções; e o que admiramos passa a orientar nossas escolhas.
Quando a vulgaridade é tratada como aceitável, divertida ou inevitável, a consciência se acomoda e perde a sua capacidade de discernimento e de indignação.
Para Paulo, é de vital importância estar vigilantes para não se deixar enganar por forças espirituais malignas, mantendo o coração e a mente atento ▪️ Arte: Rembrandt van Rijn, 1633
Da mesma forma que o convívio com a degradação embota a consciência, a familiaridade com o bem a desperta. Aquilo que escolhemos contemplar, valorizar e cultivar também nos transforma. O ser humano acaba se tornando reflexo daquilo que permite habitar seus pensamentos e afetos.
Pornografia, companhias promíscuas, ambientes contaminados e conversações degradantes devem ser evitadas, não por medo ou moralismo vazio, mas por zelo pela própria alma. Nada disso é neutro. Tudo o que expomos repetidamente à mente e ao coração deixa marcas, induz desejos, enfraquece a sensibilidade e distorce a forma como passamos a enxergar a nós mesmos e aos outros.
O que começa como curiosidade ou tolerância acaba como hábito, e o hábito, quando não é vigiado, transforma-se em prisão.
Arte: Nicolaes Pieterszoon Berchem, 1650
Evitar tais caminhos é um ato de lucidez e de amor-próprio. É reconhecer que a liberdade verdadeira exige discernimento e que a vida interior precisa de ambientes saudáveis para florescer. Quem cuida do que vê, ouve, fala e frequenta preserva a sensibilidade espiritual e moral, mantendo viva a capacidade de escolher o bem.
Arte: Giovanni Francesco Barbieri, 1635
Efésios 4:19 é um alerta atual e necessário. Ele nos recorda que a perda da sensibilidade não é um destino inevitável, mas uma consequência de escolhas repetidas. Somos responsáveis pelo que normalizamos, pelo que apreciamos, pelo que repetimos em conversações e pelo que alimentamos com o olhar.
Tornamo-nos aquilo para o que olhamos, porque a mente se fixa, o coração se inclina e a alma se molda conforme aquilo que se contempla com frequência. Aquilo que observamos, admiramos, nutrimos ou toleramos acaba por nos habitar e nos definir.























