Durante nove noites , Zeus se uniu à deusa Mnemosyne e dessa união surgiram as nove Musas – Calíope, Polímnia, Érato, Thalia, Terpsícor...

Memória e reconhecimento

mitologia odisseia hesiodo homero
Durante nove noites, Zeus se uniu à deusa Mnemosyne e dessa união surgiram as nove Musas – Calíope, Polímnia, Érato, Thalia, Terpsícore, Melpômene, Euterpe, Urânia e Clio –, divindades que, a um só tempo, guardam a memória, as artes, as festas e o conhecimento. Encargos daquelas que são filhas da deusa da memória e do deus mais sábio (μnτίετα) e que tem a visão mais ampla (εὐρὐοπα).
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É o que narra o poeta Hesíodo, na Teogonia (v. 915-917).

A memória, tradução do termo grego Mnemosyne (Μνημοσύνη), portanto, desde os tempos míticos e, em trocadilhos, imemoriais, recebe um destaque como divindade que se une a Zeus, o maior e mais poderoso dos deuses, em uma das suas muitas hierogamias. A partir de sua personificação como divindade, fica implícito que sem a memória nada somos. Homero compreendeu isso muito bem, ao nomear, através da fala de Circe, como sombras (σκίαι, Odisseia, Canto X, v. 495), as almas que esvoaçavam na escuridão vaporosa do Hades, situação confirmada por Odisseus, quando da sua passagem no mundo inferior (Canto XI, v. 207). Apenas o adivinho Tirésias mantém vivos o seu conhecimento e a sua memória, dádiva da deusa Perséfone, esposa de Hades. Os demais, como a mãe de Odisseus, Anticleia, só recobram a sua memória após beberem do sangue sacrificial das vítimas oferecidas pelo herói ao casal divino do mundo hipoctônico.

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É nos dois episódios citados, o de Circe (Canto X) e o da nékuia (νέκυια), a visita aos mortos (Canto XI), que podemos ter a consciência da importância da memória para o ser humano, o que torna a Odisseia um poema que prioriza essa faculdade imprescindível. Sem a memória, Odisseus não retorna a Ítaca; sem ela, ele não reconquista o seu reino das mãos dos presunçosos pretendentes; sem memória, não se fará reconhecer por Pénelope e pelo seu pai, Laertes.

Onde se encontra, contudo, o fio de Ariadne, para que possamos remontar à origem da imprescindibilidade da memória, no poema homérico? Encontra-se num episódio deixado de lado pela maior
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parte dos leitores, por não ter a emoção dos demais que fazem parte do relato de Odisseus aos Feácios, entre os Cantos IX e XII. Dos dez episódios narrados pelo herói, seis são extremamente perigosos, com risco de vida para Odisseus e seus companheiros – Cícones e Ciclopes (Canto IX); Lestrigões (Canto X); Sereias, Cila e Caríbdes, e Bois do Sol (Canto XII). O episódio de Éolo (Canto X) é um ensinamento de como a ganância e a ambição podem levar o homem à derrota, no sentido literal de desvio da sua rota, sobretudo; o episódio de Circe mostra o risco de metamorfose de todos em porcos, inclusive Odisseus, se não fora a intervenção do deus Hermes; em todos, a impossibilidade da volta a Ítaca, diante dos perigos reais que se enfrentam. O episódio, porém, mais perigoso, embora sem risco de perda da vida, sendo também o mais curto, é o da passagem entre os Lotófagos, localizada em algum ponto entre a Tunísia e a Líbia, no Norte da África (Canto IX). É aí que se encontra a origem da Odisseia como um poema da volta, garantida pela memória.

A chegada à terra dos Lotófagos (Canto IX, v. 92-104), narrada por Odisseus, se dá no décimo dia da sua partida da Trácia, terra dos Cícones. Como o nome define, os Lotófagos
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são comedores de lótus e um povo completamente inofensivo, levando-se em consideração as aventuras anteriores e as posteriores. Odisseus envia três companheiros para saber notícias dessa gente, que ele pensa ser “comedores de pão” (σῖτον ἔδοντες, v. 89), ou seja, civilizados, por conhecerem o fogo. Instalados entre os Lotófagos, os companheiros de Odisseus, ao contrário do que se esperava, não têm a vida ameaçada (v. 92), mas oferta de comida. Os Lotófagos lhes oferecem o lótus, cujo fruto era doce como o mel (μελιηδέα καρπόν, v. 94). Após comerem, os companheiros já não queriam voltar para dar alguma notícia ou para retomar a viagem de regresso para casa. Esquecidos de quem eram e do objetivo que tinham em mente, eles queriam permanecer entre os Lotófagos, mastigando o lótus, completamente esquecidos do seu retorno (v. 96-97). Odisseus é obrigado a arrastá-los e amarrá-los aos bancos da nau, embora eles chorem, retomando a viagem de volta.

Dois fatos chamam a atenção nesse curto relato de Odisseus. O primeiro é a repetição do verbo esquecer (λαντάνω), em duas estruturas muito semelhantes: “esquecidos do seu retorno” (νόστου τε λαθέσθαι, v. 97) e “esquecer
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o seu retorno” (νόστοιο λάθηται, v. 102). O perigo, conforme já assinalamos, não é perder a vida, mas perder a volta. Se a falta de memória exclui o sofrimento, por outro lado, ativa o esquecimento, impedindo que a vida se processe. Decorre daí o segundo fato. É essa estranha felicidade destituída da memória, que obriga Odisseus a usar a força e arrastar os companheiros chorosos para o navio, amarrando-os aos seus bancos. O que desperta a atenção no uso da força é que no texto homérico não se usa os termos βία ou βίη, apropriados para designar a violência operada pela força física; a força da violência, personificada na divindade Bia (Βία), que faz parte do séquito de Zeus, ao lado do Poder (Κράτος), seu irmão, na punição que leva Prometeu a ser agrilhoado por Hefestos nas escarpas da Cítia (v. Ésquilo, Prólogo de Prometeu Acorrentado, v. 1-87). O poeta, de modo sutil, utiliza outro termo – necessidade (ἀνάγκη) –, solenemente ignorado nas três traduções consultadas (português, francês e italiano). Para Homero, a força que leva Odisseus a arrastar os companheiros, da terra dos Lotófagos às naus, é mais do que a força física. É a força da necessidade. Odisseus poderia ter deixado os seus companheiros entre os Lotófagos, mas ele se vê compelido (a tradução inglesa é a que melhor se aproxima do termo ἀνάγκη, ao utilizar-se da expressão “under compulsion”) a ir resgatá-los, atitude que o torna um herói ainda maior, herói civilizador, comedor
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de pão, que entra em confronto com os povos que apenas colhem os frutos da natureza. Ele não quer a volta a Ítaca apenas para si, ela a deseja, também, para os seus companheiros. A memória é, pois, imperiosa necessidade, sobretudo na estrutura da Odisseia, daí a nossa classificação como um poema da memória. Vejamos os desdobramentos decorrentes da fuga dos Lotófagos.

É a memória, trazida com os relatos aos Feácios, que determina a volta de Odisseus para Ítaca. Encantado com as suas narrativas, o rei feácio dá a ordem para seus remadores deixá-lo em Ítaca (Canto XIII). É a memória que o faz, por causa da cicatriz na coxa, ser reconhecido por Euricleia, a serva (Canto XIX), assim como o fizera reconhecido pelo cão Argos (Canto XVII). Até aí, não haveria complicações, se a viagem se restringisse a uma volta para casa. Odisseus venceria os pretendentes e reconquistaria o seu reino, mas faltaria algo. Sem a memória, mesmo vencedor dos pretendentes e libertador da sua casa, ele não seria reconhecido e aceito por Penélope, que, de modo astucioso, pede a ama Euricleia para colocar fora do quarto do casal a cama daquele que se diz seu marido, depois de dali retirar a sua cabeceira. É a armadilha lançada por Penélope, cuja solução só quem tem é Odisseus: ele construiu o quarto ao redor de uma oliveira, de cujo tronco foi esculpida a cabeceira da cama, sendo impossível retirá-la do quarto.
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A resposta de Odisseus, provocada pela memória, é que torna possível o seu reconhecimento (Canto XXIII, v. 173-217); sem a memória, o velho rei Laertes, seu pai, não o reconheceria e nem voltaria para casa, vez que estava vivendo ao relento, por pensar que o filho querido estava morto. É através da mesma cicatriz, reconhecida por Euricleia, e da recordação de como a adquiriu, que Odisseus responde ao sinal pedido pelo pai (σῆμά ἀριφραδές, Canto XXIV, v. 329), com a nomeação das fruteiras plantadas por Laertes, para ele, quando criança. Sinal claro, brilhante, indubitável, que leva ao reconhecimento e completa o seu retorno ao lar (v. 320-355).

Em suma, não se trata apenas de um homem que volta para casa, como afirma Aristóteles, comentando o argumento curto da Odisseia (Poética, 1455b), em torno de uma ação una (id., 1451a), mas de uma reconquista do reino e da mulher, além do resgate do filho e do pai. É uma narrativa que, priorizando a memória, faz dela o lugar não-físico em que se depositam todos os afetos, que necessitam ser revividos. Memória é sema (σῆμα), signo, sinal, para reconhecer e reconhecer-se.

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  1. Como sempre é um prazer a leitura dos artigos do Prof. Milton, de onde saio sempre mais rica com informações preciosas da cultura clássica. Hoje o que me causou enorme prazer foi conhecer os Lotófagos "comedores do pão, civilizados por conhecerem o fogo". E depois a memória imperiosa necessidade e perceber a Odisseia como o poema da memória. Lúcia Maia

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