Eram 3:50 quando batidas insistentes ecoaram casa adentro, acordando Ruth. Ainda desnorteada, ela apeou-se da cama e tateou à procur...

Ruth e a banalidade do mal

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Eram 3:50 quando batidas insistentes ecoaram casa adentro, acordando Ruth. Ainda desnorteada, ela apeou-se da cama e tateou à procura de seu robe. Atordoada pelas batidas, agora mais fortes, Ruth chega à porta de entrada e se depara com dois homens uniformizados.

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Eram os homens da tropa civilizatória instalada há 5 anos pelo exército. Portavam uma braçadeira vermelha e preta com as iniciais DPF – Deus, Pátria e Família. Ruth os recebeu com certo espanto. Depois de recobrada do susto, ela ouve deles um pedido para acompanhá-los na calada da noite. Apesar de insistir em perguntar o que eles queriam com ela àquela hora da manhã que se avizinhava, eles apenas disseram que ela se compusesse para uma investigação por parte das forças policiais.

Depois de vestida, Ruth toma sua bolsa, pega seu telefone e entra numa viatura preta, também estampada com as iniciais DPF. O caminho foi de silêncio e tensão. Os oficiais diziam estar obedecendo a ordens claras de seus superiores e que logo mais ela saberia do que se tratava. Após cerca de 40 minutos, eles chegam a uma base militar. Um dos oficiais desce e abre a porta para que Ruth saia da viatura. Naquele momento, Ruth sentiu seu coração bater mais rápido, e suores frios lhe atravessavam as têmporas em direção ao pescoço.

Depois de percorrer duas alas deste prédio, Ruth é recebida por um oficial de jaleco, ao qual ela atribuiu a função de enfermeiro ou médico.
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Com certa frieza, ele se apresentou como médico legista a serviço do DPF. Foi saudado pelo oficial com um gesto típico do sistema: o braço firmemente estirado, findando com o polegar em riste. O médico assentiu com a cabeça para que Ruth o seguisse. Chegaram a uma câmara, algo parecido com leitos de hospital. Havia umas oito camas, porém a maioria sem pessoas, à exceção de dois leitos.

Num destes leitos, havia uma pessoa inteiramente coberta. Ruth sentiu um frio na espinha. Aquele ambiente tinha um odor nauseabundo, meio acre, meio ácido. O legista explicou a Ruth o motivo da visita dela: ela precisaria identificar um corpo. Nessa hora, Ruth realmente apavorou-se. Por que ela? Quem seria aquele morto?

Com a frieza de quem lida diuturnamente com a morte, o legista retirou o lençol do rosto e do dorso do corpo. Estava lá ele, aquele corpo cianótico, com marcas de perfuração na testa e no peito. Estava lá ele, o irmão de Ruth. Ela o reconheceu imediatamente e se recolheu num misto de espanto e choro incontido. Ele fora morto pelas forças militares, acusado de ler e divulgar literatura proibida.

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Ruth tinha 17 anos e seu irmão, Pedro, 21, quando o golpe militar foi dado pelo grupo paramilitar Deus, Pátria e Família. Os argumentos eram de que a sociedade estava corrompida, degradada em seus valores morais e se distanciando do cristianismo. Ruth foi às ruas pedir pelo golpe. Ficou num acampamento no portão de uma das unidades do exército durante 47 dias e noites, sem revezar com ninguém. Não acreditava mais em eleições livres nem mesmo na democracia. Ruth, uma mulher ressentida pela vida, agora tinha nos militares a esperança de uma salvação de algo que perdeu na vida, sem que ela mesma soubesse o que era.

Ruth era funcionária pública, classe média. Amargurada pela vida, foi abandonada por seu pai quando completou 8 anos. Pedro entrou nesse lugar como suplente tanto do pai quanto, idem, do marido perdido de sua mãe. Depois, ele tomou outro rumo quando da morte de sua mãe. Ruth seguiu, vivendo seu amargor e culpando o sistema por suas frustrações.

Aos 18 anos, já na faculdade, se apaixona por Ana Clara, porém de maneira platônica. Seus brios não lhe permitiam tamanho desejo. Esse medo, essa frustração se transformam em ressentimento. O ressentimento
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se transfigura em ódio gratuito. Ela nem mesmo sabe o porquê de tanto ódio. É um sentimento visceral. Passa, assim, a abominar quaisquer traços de liberdade, de amores e sexualidades livres, enclausurando-se num abrigo de solidão e moral, na defesa da pátria, da família e de Deus. Em nome de ter recalcado seus mais íntimos desejos, alia-se ao masculino devastador, ao masculino tóxico e violento.

Enfurecida com suas frustrações, encosta-se às botas dos generais que esmagam crânios daqueles que ousam pensar e agir de maneira diferente do programa moral do sistema. Ruth participa de movimentos que fecham museus, proíbem peças de teatro, queimam livros e condenam canções. Guarda na sua mesinha de canto uma braçadeira da DPF, tal qual um crente que guarda um terço.

Por um tempo, ela repousa em paz com o triunfo do golpe. Por um tempo, ela anda pelas ruas, no trabalho e entre poucos amigos com a braçadeira.

Certo dia, é surpreendida no trabalho por um esquadrão local que a questiona sobre a leitura de um livro que estava na lista de textos “não recomendados pela DPF”: *Oráculos de Maio*, de Adélia Prado.
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“Literatura comprometida por temas feministas”, “ela se refere ao marido como um amante”, “ela era amiga de Hilda Hilst, banida das estantes e proibida por literatura imoral e pornográfica”. A partir desse dia, Ruth entrou num período de desencantamento e resolveu não mais usar a braçadeira.

Dias depois, recebe um pacote sem remetente contendo um livro: *Eichmann em Jerusalém*. Em 1961, Hannah Arendt, a autora daquele livro, foi enviada pela revista *The New Yorker* para cobrir o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Ele foi um carrasco nazista, responsabilizado pela morte de milhares de judeus. No julgamento, ele se declarou inocente, pois “estava apenas obedecendo a ordens”. Na sua tese sobre a banalidade do mal, Arendt descreve Eichmann como um medíocre, o qual, como tantos atores sociais, pode praticar o mal a partir do momento em que o banaliza.

Em meio a um turbilhão de pensamentos, Ruth mergulha em seus devaneios. Percebe, por uns instantes, que ela mesma, ao ter apoiado o golpe, estava tanto a serviço de um mal quanto no perigo de ser devorada por esse mesmo golpe.

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Assim, sufocando mais uma vez seus desejos, ela abandona as ideias daquele livro medonho e passa a cultivar uma literatura mais leve, mais dentro do que o DPF exigia dela. Ressentida, recolhe-se a si mesma, tornando-se uma mulher desmotivada, sem a pulsação necessária à vida. Uma peça do sistema.

Agora, diante do corpo do único e tão amado irmão, que lhe fizera às vezes de pai, olha para si mesma e se envergonha. Não teve o direito nem de enterrar o irmão, considerado um ser abjeto pelo sistema que ela cultuava. Seria enterrado sei lá onde, numa possível vala comum dos condenados.

Agora, diante do corpo do irmão, sentiu o queimor no seu braço, exatamente no lugar da braçadeira.

Porém, ao sair daquele cenário aterrador, Ruth esquece das bravatas do seu pai, do colo sempre à espera de sua mãe, dos abraços sufocantes de seu irmão.

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Ao ressentido só vale o peso que carrega, tal qual Sísifo arrastando a pedra montanha acima. Ao ressentido só resta o fel dos dias, que arrebenta as veias e sulca a pele.

Ruth vagueia pela madrugada adentro, sem seu luto, só com sua melancolia. Vaga acompanhada de sua mais fiel companheira: a solidão. E cada passo, no estalar dos saltos na calçada fria, soa como uma sentença de morte em vida. Ruth, a viva-morta cuja condenação serão as memórias de um tempo em que o mal foi triunfante na sua banalidade.

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