Quando o jornalista Gonzaga Rodrigues (1933) comemora 93 anos, neste domingo, 21 de junho, é justo que se faça homenagem a este que José Américo de Almeida, econômico em elogios, ressaltava como sendo um cronista que era da Paraíba porque não quis ser do Brasil, preferindo ficar na terra onde nasceu.
Escritor de reconhecida elegância na criação literária no gênero da crônica, Gonzaga produziu textos de beleza literária e inspiração poética.
Gonzaga Rodrigues ▪️ Fonte: EPC /// GD'Art
Esse reconhecimento do leitor possibilita a Gonzaga manifestar gratidão, revelando quanto isso eleva a autoestima para continuar escrevendo. Ganhar um leitor é o maior salário do escritor.
Gonzaga Rodrigues ▪️ Fonte: EPC /// GD'Art
A paixão pelo livro vem da infância solitária, consolidando-se quando encontrou agasalho na Casa do Estudante e depois na redação de O Norte, nos primeiros anos da década de 1950:
“Nos momentos difíceis que atravessei, quando estava vazio de dinheiro e de amor, eu encontrava uma compensação na leitura. Até hoje, isso funciona. Eu posso estar no pior momento, pego um livro e viajo com ele”.
Modelado na paisagem de canaviais
Gonzaga Rodrigues foi gerado no barro vermelho de Alagoa Nova, que produz boa cana, a terra que anda com ele e para a qual produziu louvações.
G. Rorigues ▪️ Foto: A. David Diniz
Há muito tempo, Gonzaga anda feito um pastor com os olhos no chão, primeiro na terra onde nasceu, depois na passagem por Campina Grande durante a juventude e, a partir de 1950, em João Pessoa, cidade cujas ruas e passado conhece.
Como a repetir a frase do salmista — “guardarei as vossas leis; não me abandoneis jamais” —, nunca se ocultou em defender a cidade, desde a ventura inicial dos que aportaram nas terras à beira do Sanhauá, numa profissão de amor à terra do valente e saliente índio Piragibe.
Uma vida bem escrita
Pode-se dizer que, depois de mais de sete décadas de convivência com o jornalismo, escrevendo crônicas e textos abordando os mais diferentes assuntos, Gonzaga Rodrigues tem uma vida bem escrita.
G. Rorigues ▪️ Fonte: EPC
De todas as definições que se possam cunhar, a que mais representa o perfil de Gonzaga é dizer que ele é a própria Paraíba, porque vive e sente a sua gente.
Como paga por tudo o que fez pela cidade, em termos de divulgação e louvação de suas riquezas culturais, patrimoniais e ecológicas, é identificado na rua pelo que sempre gostou de fazer: escrever crônicas.
Escrever crônicas é uma arte, e essa arte Gonzaga sabe exercer. A escolha dos assuntos é fundamental para o cronista, e um exemplo é Machado de Assis, cujas crônicas, mais de um século depois, continuam atuais.
Do café às bugigangas
Gonzaga Rodrigues mantém hábitos desde o tempo da juventude, porque não os abandona em hipótese alguma.
G. Rorigues ▪️ Foto: A. David Diniz
Por exemplo, frequentar feiras livres é um gesto que mantém ainda hoje, indo do Mercado Central ao Bairro dos Estados, passando por Jaguaribe, depois pela Torre e Oitizeiro. São locais que se tornaram pontos para a conversa descontraída e o exercício da memória. Enfim, os principais mercados públicos são ambientes que gosta de frequentar.
A Feira da Torre é familiar. Nesse bairro morou com sua mãe, dona Antonina, nos anos de 1950. Nesse local, reencontra velhos feirantes e visita o amigo Crisaldo, que há anos trabalha na encadernação de livros.
Outro local de feira com o qual Gonzaga se tornou familiar foi Oitizeiro, lugar que visita desde os anos de 1970, quando Dorgival Terceiro Neto, então prefeito da Capital, construiu o mercado público. Naquele local, como íntimo, ele anda com desenvoltura, conversando com os feirantes e, certa vez, passando
G. Rorigues ▪️ Foto: A. David Diniz
O jogo de sinuca também é uma mania que repete, quando possível, a exemplo do que fez em sua última visita a Alagoa Nova.
Outra mania de Gonzaga é a “fezinha” na loteria, em que periodicamente marca os mesmos números, “há bastantes anos”.
Em casa, revela seu costume de décadas: preparar o café bem cedo, antes que a família acorde. “Eu preparo o melhor café que se possa tomar”, afirmou. Com as mãos, repetindo os gestos de misturar e coar o pó, ele mostra o processo de preparo do café na chaleira.
Antônio David Diniz, Gonzaga Rorigues e Assis Vilar ▪️ Foto: A. David Diniz
Mas não se resume ao café em casa. Ainda hoje mantém o hábito de frequentar os cafés do Shopping Sebrae, o que, em tempos remotos, fazia em um shopping no centro da cidade.
Outro gosto seu é almoçar carne de bode guisada ou carne de sol com feijão-verde.
Apreciador de cachaça, “dessa branquinha” que tem o cheiro da rapadura, esporadicamente gosta de biritar, apesar de o vinho ser seu companheiro.
Passear pela cidade antiga, revendo antigos prédios e pontos comerciais, é um gesto que mantém com frequência. Antes fazia isso a pé, mas, com a idade avançada, passeia de carro com os filhos.
Paulo Emmanuel ▪️ Foto: Antônio David Diniz
— Vamos ali a Campina comigo. Você vai rir quando souber o propósito da viagem.
Ao chegar à Feira Central de Campina Grande, Gonzaga compra dois quilos do queijo coalho Boa Vista e dispara:
— Era só isto o que eu queria fazer aqui. Vamos almoçar na Carne de Sol do Manoel e depois retornamos a João Pessoa.
Na volta, Gonzaga não traz na bagagem apenas o queijo. Essas viagens sempre lhe rendem saborosíssimas crônicas que só ele sabe escrever.
Outro filho dele, Fabiano, estando no Rio de Janeiro para fazer residência médica, costumava telefonar perguntando qual o remédio novo que surgia para curar a coriza. Gonzaga gosta de ir ao médico quando sente qualquer incômodo.
Gonzaga e Fabiano Rodrigues ▪️Foto: Antônio David Diniz
Ele tem apego às duas instituições às quais pertenceu e das quais foi presidente: a Associação Paraibana de Imprensa e a Academia Paraibana de Letras.
















