Os versos que abrem Poema Sobre as Obras da Terra , de Solha , funcionam como uma verdadeira chave de leitura da obra. Vejamos os que ...

W. J. Solha e a poética da continuidade humana

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Os versos que abrem Poema Sobre as Obras da Terra, de Solha, funcionam como uma verdadeira chave de leitura da obra. Vejamos os que separei na página 8:


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Arte: Max Ernst
e sei que é a espécie humana, que é a Terra em seu trabalho, como no dia em que foi “Max Ernst” e flagrou a baleia nadando no assoalho, ou, neste momento, que cria este poema, que, por "meus" estranhos arranjos, será, como os outros, invisível feito o zê de Augusto dos z/Anjos.

Neles, W. J. Solha sugere uma das ideias centrais de seu livro: a de que a criação individual é apenas um elo na longa corrente da experiência humana. Sua voz é singular, mas ecoa muitas outras.

Como o "zê" invisível de Augusto dos Anjos, o poeta está presente e ausente ao mesmo tempo, integrado a uma tradição que o antecede e o ultrapassa.

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GD'Art
Estruturado em cinco movimentos, como uma composição sinfônica, Poema Sobre as Obras da Terra acompanha a trajetória da inteligência criadora desde suas manifestações mais primitivas até as realizações mais complexas da humanidade. Mais do que cantar a Terra ou enumerar conquistas, Solha procura seguir os rastros da consciência humana ao longo do tempo.

Ao evocar a roda, a música, a imprensa ou o computador, o poeta nos lembra que nenhuma dessas obras pertence inteiramente a alguém. Cada invenção nasce do esforço acumulado de inúmeras gerações. A inteligência humana surge, assim, como um fogo coletivo que atravessa os séculos, alimentado pela experiência, pela tentativa e pelo erro.

Uma das maiores qualidades do livro está justamente na capacidade de reunir ciência, filosofia e poesia sem perder densidade estética. O conhecimento não aparece como ornamento erudito, mas como matéria viva do poema.

Senti que a palavra seminal da obra é: prossegue... Percebi que nela está condensada a visão de Solha sobre a humanidade e sobre a própria poesia.
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GD'Art
Apesar dos erros, das dúvidas e dos limites, prosseguimos, pois a criação humana é, antes de tudo, um movimento contínuo.

Como poeta provinciano, filho do solo nordestino e sertanejo, e de uma paisagem concreta, senti-me parte dessa vasta sinfonia “solheana”.

Ao percorrer as páginas de Poema Sobre as Obras da Terra, tive a impressão de ouvir não apenas a voz do autor, mas o eco de incontáveis gerações que, antes de nós, ousaram pensar, criar, errar, aprender e continuar.

Talvez seja esse o maior feito do livro: recordar-nos de que somos passageiros e de que viajamos numa embarcação muito antiga.

Somos breves, mas participamos de uma obra que nos ultrapassa. E a poesia, quando alcança essa dimensão, deixa de ser apenas palavra, tornando-se também permanência, vestígio e chama.

Vivas a Poema Sobre as Obras da Terra! Vivas ao poeta W. J. Solha!

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