Dizem os mestres que os grafemas (letras), mais o som (fonemas) de uma palavra e o conceito que dela temos não têm, de fato, uma relação com o que ela representa.
Mas estranha palavra é o vazio. Suas consoantes, não importa agora a classificação, emitem um silvo turbulento. São obrigadas a roçar os dentes ao serem proferidas, como a mostrar o fruto do sofrimento e, por isso, deixam passar os ecos ondulantes da vida que submergiu.
Imagem: Nick Fancher
Nesse poço, cada dia cai, porque a claridade não consegue libertar-se do pântano da solidão. Limita-se a trazer à tona alguns restos que escaparam das profundezas lodosas, como se já fosse noite nas arestas dos sentidos.
Esse poço dissimulado liberta, de vez em quando, a imaginação, mas não deixa que se completem os instantes, nem que eles se difundam na alma. Eles vêm sempre com pingos salgados que anunciam lágrimas de dor.
Nas profundezas desse poço há paredes incrustadas de rochas, cultivadas no frio da espera sem fim e dos olhos cansados dos cais onde os navios não mais aportam. Uma estranha camada de areia jaz nesse poço que não se pode medir.
Imagem: Nick Fancher
Se conseguires, estarás medindo forças com a solidão e seus espinhos. Um cipoal de folhas frias onde teus pés pisam.
Ninguém aprende esses passos que te levam a esse lugar áspero e no qual o amor está preso. Dizem que ele sempre canta na noite, a cada crepúsculo ou a cada aurora, e as estrelas — que tudo entendem — entreolham-se, deixando escapar nomes e sons que bailam no infinito.
Não te enganes, escava esse chão do poço. Estarás escavando o horizonte, mesmo que seja o da ausência. Serenamente, concluirás que uma pessoa nunca se foi: uma és tu. Outra, sem dúvida, é a presença de Deus.
Imagem: Nick Fancher
Senta-te à beira desse poço e faz uma prece. Ela é a luz dourada, feita de pétalas rajadas colhidas em jardins que não conheces. É assim que Deus te ama. Chegaste à vida com tão pouco. Podes prosseguir assim.









