Eu preparo um livro para falar de dois amigos. Amigos que carrego no coração, como fala a canção do poeta Cummings. Um livro de afetos e de agradecimentos. Afetos e agradecimentos porque Nathanael Alves e Gonzaga Rodrigues são merecedores. Ambos foram importantes na minha caminhada profissional. Eles acolheram o jovem que andava pela cidade carregando nas mãos o massapê de Serraria, olhando para as casas como o camponês do poema de Fernando Pessoa.
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Olhando as marcas no caminho desde o alvorecer da década de 1970, reconheço distantes os nevoeiros que ofuscavam as belezas da alma e que encobriam a poesia da vida. Era um tempo de inquietação e sem circunspecção. Tudo era fastidioso. Até as praças perfumadas me incomodavam.
Eu era um jovem desengonçado, que andava desolado, que vivia a recolher sementes estéreis, mas acertei ao empunhar o cetro que me entregaram.
Quando os conheci, tinha perto o deserto nos aceiros dos bares, mas, com o tempo de convivência com Nathanael e Gonzaga, passei a ouvir os sons que brotavam das artes e dos livros. A poesia salvou a minha vida.
Eles foram benevolentes e ternos a todo momento para comigo e protagonizaram gestos de acolhida que guardo como prêmio. Um se encontra na eternidade;
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Deles extraí conhecimentos sobre a arte da leitura e da escrita. Os seus ensinamentos foram uma unção recheada de saberes, a partir da harmonia espiritual encontrada no edifício dos livros.
Ninguém é artífice sozinho da sua vida. Por isso, nas minhas inquietações ou alvores da vida literária, recorria a estes amigos. Ambos adornaram o aprendiz com saberes até a configuração do repórter e do escritor em contínua construção. Sempre excelsos para comigo, agora tento lhes retribuir pelo afeto dispensado.
Ensinaram a sonhar, a acreditar na democracia, nos livros, na oração. Ao longo de minha formação de leitor, ambos abonaram minhas escolhas literárias. Deram alívio para a minha caminhada pedregosa pela escrita. Fizeram-me ver os milagres das artes e mandaram retornar às origens do lugar onde fomos criados.
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Entre os amigos que recolhi para mim, sobretudo eles fizeram com que eu “encontrasse um certo modo de ler livros” e parasse para observar as nuvens e as pessoas ao redor.
Ambos ensinaram a reconhecer os gestos de solidariedade e de partilha das coisas, por menores que sejam. Ensinaram a expressão maior da amizade, sem subterfúgios.
Por que escrevo isso somente agora? Escrevo para que conheçam que a amizade é capaz de coisas maravilhosas e saibam da generosidade destes dois homens que, sem serem endinheirados, agasalharam o jovem com o cobertor imperecível.
Em Santo Agostinho descubro que “a amizade dos homens se torna doce, por unificar, com um laço querido”. A amizade entre nós três — Nathanael, Gonzaga e eu — sempre foi ornada pelas luzes de muitos solares.
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Sabia que alguém intercedia por mim para a mudança das minhas ações de jovem trepidante. De tanto minha mãe suplicar, o Alto escutou os rogos e deu guias para eu deixar de ser o pastor que “apascentava ventos”.
No decorrer dos anos, Nathanael e Gonzaga, mais do que outros que encontrei na minha caminhada, cheios de benevolência, me puseram nas mãos o Sol da Sabedoria (livro) e a Lua da Espiritualidade (poesia). Os dois nunca cobraram a conga pelo que me ensinaram. Depois deles, passei a beber da água dos rios que correm dos livros e que abriram novos amanheceres.
Por isso, para estes dois amigos, restava-me escrever um livro para perpetuar com palavras aquilo que o coração expressava: a gratidão pelas benevolências recebidas.
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Precisei escavar na memória pormenores de nossos encontros e conversas para escrever este livro.











