Poucas vezes senti um calor tão intenso como o que experimentei em Roma na última semana da nossa viagem. Considerando-se o n...

No calor de Roma

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Poucas vezes senti um calor tão intenso como o que experimentei em Roma na última semana da nossa viagem. Considerando-se o número de igrejas da cidade, cabia perfeitamente à situação a imagem de Nelson Rodrigues; era mesmo um calor “de rachar catedrais”. Isso não impediu que visitássemos alguns templos, pois esse era o propósito maior dos mentores da excursão – ao qual, mesmo sem muita inclinação religiosa, aderi em nome da harmonia familiar.

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Igrejas gêmeas de Roma (Piazza Venezia) ▪️ Foto: Melvin
Valeu a pena, dado o esplendor dos templos romanos. Enquanto os visitava, eu não podia deixar de pensar o quanto esse esplendor confirma a influência política e econômica que a Igreja adquiriu após o cristianismo receber apoio imperial com a conversão de Constantino. Tal conversão envolveu sobretudo interesses políticos em um contexto de crise e busca por estabilidade no Império. A fim de abastecer seus cofres, a Igreja passou a vender indulgências aos ricos, que as adquiria para ganhar a Salvação.

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Estátua do imperador Constantino em York (Inglaterra) ▪️ Fotografia: Gunnar Larsson
O poder e o dinheiro constituíram um poderoso atrativo para grandes artistas, que encontraram na Igreja um vasto campo para exercer sua imaginação criadora. Pintores, escultores, arquitetos e músicos revestiram de Beleza e simbolismo os ideais cristãos, convertendo conceitos como a graça e a redenção em formas sensíveis. O esplendor das catedrais, a grandiosidade das esculturas, a riqueza cromática dos afrescos e a elevação da música sacra transformaram o apelo religioso numa experiência estética capaz de suscitar recolhimento e transcendência.

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Visão da Cruz (Raphael, 1524) /// Basílica de S. Pedro (Roma)
Não se conhece o verdadeiro semblante histórico de Cristo, nem o de Maria, a não ser pelos traços concebidos por sucessivas gerações de artistas. Tampouco há retratos autênticos dos apóstolos ou de numerosos santos venerados pela tradição. As imagens que atravessaram os séculos são, antes de tudo, construções artísticas e culturais. Nelas, seus autores projetaram um ideal de Beleza que variava conforme os valores estéticos de cada época, ajustando-os ao anseio de espiritualidade que buscavam despertar nos fiéis. Mais do que reproduzir indivíduos históricos, essas obras procuravam tornar visível o invisível: a compaixão no rosto de Cristo, a pureza em Maria, a serenidade nos santos, a majestade no divino – e também, claro, a fealdade no Mal.

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Imagem de Jesus (trabalho mediúnico de um grupo de Berlim) e Maria de Nazaré (Mary Foundation
Ao ilustrar cenas e personagens da religião, a arte ajudou a criar a maneira como gerações inteiras passaram a imaginá-los e senti-los. Assim, a força do cristianismo decorreu não apenas de sua doutrina ou organização institucional (boa parte herdada da tradição greco-latina), mas também da extraordinária capacidade de seus artistas de converter ideias em imagens memoráveis.

Graças ao engenho de um Michelangelo, um Bernini ou um Bach, a pintura, a escultura e a música produziram representações dotadas de extraordinária força emocional, promovendo o enlevo e o transporte que a imaginação frequentemente associa à esfera mística. Tais manifestações revestem a Palavra de fundas e sutis emoções, que nos
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A Pietá de Michelângelo ▪️ Foto: Nick Castelli
predispõem à aceitação de verdades que não precisam ser provadas e ajudam a preservar o dogma (que é o cadafalso da Razão). A Arte e seu correlato fundamental (a Beleza) tornaram-se a linguagem universal da fé, alcançando tanto os eruditos quanto os analfabetos, que podiam apreender narrativas e ensinamentos religiosos por meio das imagens e dos sons.

O curioso, pensava eu enquanto esteticamente me deleitava, é como todo esse fausto se confronta com os ideais de humildade e desprendimento contidos no ideário cristão. Tivessem dividido suas fortunas com os pobres, os ricos medievais não teriam como subvencionar as obras que hoje enchem os nossos olhos e, a despeito do cenário de desigualdade com que comumente nos deparamos, nos confortam com a ilusão da eternidade.

Como tudo tem um “outro lado”, Roma tem o seu, que é Trastevere (literalmente, além do Tibre, o rio que divide a cidade em duas). Como observam os historiadores, na Roma Antiga o Rio Tibre era não apenas um curso d'água, mas uma fronteira social e psicológica. O lado esquerdo concentrava o poder imperial e a monumentalidade; e o direito, os imigrantes, marinheiros e braçais que vinham construir as grandes edificações que ainda hoje maravilham o mundo.

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Rio Tibre (Roma) ▪️ Foto: Unsp
\ Numa passada rápida por lá, deu para verificar o contraste. Ruas estreitas e de calçamento irregular, becos escuros nos quais parecia que o táxi não ia caber. De repente emerge desses corredores suspeitos uma pequena praça, e o silêncio é substituído pelo rumor de copos e risadas. O que ali se vê, ao lado de casais sobretudo jovens, mais parece o complemento de um filme de Fellini ou De Sica. Nada que lembre o compungido fervor das orações.

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