Ando questionando tanta coisa que acabei intoxicada de despropósito.
Confesso: já não sei muito bem como lidar com o caos nesta velocidade deglutidora. Tudo chega antes que tenhamos tempo de compreender o que chegou. Uma notícia engole a outra, uma indignação substitui a anterior, uma imagem atropela a próxima. Opiniões, certezas, versões, sentenças. Todos parecem ter alguma coisa urgentíssima a dizer.
Confesso: já não sei muito bem como lidar com o caos nesta velocidade deglutidora. Tudo chega antes que tenhamos tempo de compreender o que chegou. Uma notícia engole a outra, uma indignação substitui a anterior, uma imagem atropela a próxima. Opiniões, certezas, versões, sentenças. Todos parecem ter alguma coisa urgentíssima a dizer.
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E seguimos.
Consumindo imagens, ideias, pessoas, tragédias, guerras, escândalos, corpos, receitas, conselhos para sermos felizes, jovens, magros, ricos, espiritualizados e produtivos. Tudo antes do café esfriar.
De vez em quando, porém, alguma coisa interrompe a máquina.
Assistir à *Odisseia*, por exemplo, devolveu-me por algumas horas o encantamento pela sétima arte. Quando a inteligência artificial e a tecnologia de ponta estão a serviço da imaginação — e não o contrário —, ainda podemos nos surpreender. A técnica deixa de ser exibicionismo e volta a ser instrumento. A tela se abre. O impossível ganha corpo. E respiramos.
Foi um respiro em meio a tantos filmes esquecíveis, programas que parecem apostar na redução da inteligência humana e conteúdos fabricados para durar exatamente o tempo de um dedo deslizando pela tela.
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Procuro poetas.
Alguns ainda aparecem pelas frestas dessa imensa vitrine das redes sociais. É preciso garimpar. Há palavras verdadeiras por ali, certamente, mas estão misturadas a uma quantidade monumental de frases fabricadas para parecer profundas, pensamentos instantâneos, espiritualidades de quinze segundos, indignações em série e discursos ideológicos e identitários que, quando se tornam trincheiras, pouco acrescentam à complexidade humana.
Tudo precisa ter um lado.
Tudo precisa ter um nome.
Tudo precisa pertencer a alguma prateleira.
Talvez por isso eu esteja cansada de prateleiras.
Aprendi até a desconfiar das palavras. Tento reconhecer o que foi escrito por uma pessoa e o que nasceu de uma inteligência artificial. Às vezes identifico. Às vezes
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E, pensando bem, isso também não resolve muita coisa.
Porque um texto pode ter sido escrito por um ser humano e não carregar humanidade alguma. E uma máquina pode ajudar alguém a encontrar palavras para uma emoção profundamente humana.
Talvez a pergunta esteja em outro lugar.
O que estamos fazendo com tudo isso?
O que acontece conosco depois de tantas imagens, tantas informações, tantas opiniões atravessando diariamente nosso corpo?
Onde guardamos tanto mundo?
Tenho saudade de reduzir.
Não reduzir o pensamento.
Não reduzir a curiosidade.
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Reduzir o ruído.
Quero menos coisas disputando meus olhos. Menos vozes entrando sem convite. Menos urgências inventadas. Menos gente me dizendo como devo viver, pensar, envelhecer, amar, comer, dormir, vestir, votar, respirar.
Quero recuperar o direito de não saber.
De olhar uma árvore sem fotografá-la.
De terminar um livro e permanecer algum tempo dentro dele.
De ouvir uma música inteira.
De conversar sem consultar o telefone.
De encontrar alguém sem transformar o encontro em postagem.
Quero uma mesa, talvez.
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Um livro aberto.
Uma janela.
Uma pessoa querida que não tenha pressa.
E o silêncio — esse artigo de luxo que ainda não conseguiram nos vender por assinatura.
Talvez o futuro verdadeiramente revolucionário seja esse: escolher menos.
Menos velocidade.
Menos espetáculo.
Menos consumo de mundo.
Mais presença.
Porque ando desconfiada de que, nesta corrida desenfreada para sermos cada vez mais conectados, informados, atualizados e tecnologicamente ampliados, estamos deixando pelo caminho uma tecnologia antiquíssima e insubstituível:
A delicada capacidade de estar presente.
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Reduzir.
Reduzir até ouvir novamente o barulho da própria vida.
Reduzir até caber em mim.
Reduzir para me sentir gente de novo.











