Há mortes que não acontecem de repente, que não passam por silêncio de velório, nem flores, nem despedidas. Algumas acontecem lentamente, quase sem que percebamos. Entre elas está a morte dos valores e das virtudes.
Talvez o mais perigoso não seja quando deixamos de acreditar em alguma coisa, mas quando passamos a acreditar que aquilo em que acreditamos é a única verdade possível. A nossa subjetividade desenha
Arte: J. Torres-García, 1932 ▪ MNAV, Montevidéu
O enfoque pessoal não deve desaparecer, ele é parte da nossa humanidade, mas precisa conviver com o coletivo. Uma sociedade não pode ser construída apenas pela soma de vontades individuais. É preciso que exista algo maior, como os valores capazes de ultrapassar o interesse de cada um.
Também por isso, contar a história exige responsabilidade. A transmissão da história precisa buscar a objetividade, não para apagar as diferentes interpretações, mas para permitir que aquilo que aconteceu tenha abrangência coletiva. Quando transformamos a história apenas naquilo que gostaríamos que tivesse acontecido, deixamos de transmitir conhecimento e começamos a fabricar memória.
Arte: J. Torres-García, 1911 ▪ Museu Nacional d'Art de Catalunya, Barcelona
A superação dos desejos pessoais é a supremacia dos atos individuais. É quando o indivíduo compreende que nem tudo aquilo que pode fazer deve fazer, e que nem toda vontade precisa transformar-se em ação, mas que liberdade também significa saber renunciar.
Vivemos tempos em que a opinião muitas vezes vale mais do que o conhecimento, e a convicção pessoal parece dispensar a necessidade de aprender. Mas ninguém é uma ilha de conhecimento,
Arte: J. Torres-García, 1928 ▪ MNAV, Montevidéu
Um excelente modo de fazer isso é através do livro, porque um livro é uma conversa silenciosa com alguém que não conhecemos. Nele encontramos pessoas que viveram antes de nós, pensamentos que não são nossos, experiências que jamais teremos e perguntas que talvez nunca tivéssemos coragem de formular.
Ler é permitir que o pensamento do outro entre em nossa casa sem precisar concordar com ele. É confrontar nossas certezas. É descobrir que aquilo que julgávamos objetivo talvez fosse apenas a paisagem construída pela nossa subjetividade.
Os valores e as virtudes não morrem apenas quando deixamos de praticá-los. Morrem também quando deixamos de transmiti-los, de questioná-los e de ensiná-los às próximas gerações. Ainda há tempo de impedir essa morte lenta.
Arte: J. Torres-García, 1918 ▪ Museu Nacional d'Art de Catalunya, Barcelona
Porque, no fim, ninguém pensa sozinho.
Somos feitos também daquilo que aprendemos com os outros, e uma sociedade verdadeiramente civilizada é aquela em que cada indivíduo consegue dizer: "eu tenho minhas próprias convicções, mas ainda tenho muito a aprender".












