Costumamos acreditar que somos a geração da novidade, do momento mais fértil e feliz da humanidade, porém os muros nunca desapare...

Tempo infinito

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Costumamos acreditar que somos a geração da novidade, do momento mais fértil e feliz da humanidade, porém os muros nunca desapareceram. Inventamos as redes sociais, os comentários instantâneos, os debates intermináveis, as selfies, os desabafos e a necessidade quase compulsiva de sermos vistos. Na verdade apenas modificamos o material sobre o qual escrevemos.

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Inscrições eleitorais em uma parede de Pompeia, no século I d.C., com pedidos de votos para candidatos às magistraturas locais. ▪ Foto: S. Amiet / Wikimedia
Quando os arqueólogos escavaram Pompeia, encontraram muito mais do que ruínas. Descobriram uma cidade que ainda conversava nas paredes. Havia anúncios de comerciantes, pedidos de voto, declarações de amor, ofensas, piadas, poemas improvisados, desenhos infantis e pequenas vaidades. Mais de onze mil grafites sobreviveram ao tempo, como se a lava tivesse preservado não apenas uma cidade, mas também a necessidade humana de dizer: "eu estive aqui".

Os neandertais deixaram paredes marcas com desenhos, pinturas e gravuras rupestres, provavelmente simbólicas, que os pesquisadores chamam de finger-flutings — sulcos produzidos pelo movimento dos dedos sobre a superfície da rocha. A distribuição, direção e organização dos sulcos indicam que foram produzidos intencionalmente, classificadas como um exemplo de design abstrato neandertal.

Percebe-se, então, que as redes sociais não nasceram com a internet, elas apenas trocaram a pedra pela tela iluminada.

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Desenhos rupestres da gruta de La Pasiega, na Espanha, com pelo menos 64.800 anos, atribuídos a neandertais que habitavam a Europa durante o Paleolítico Médio. ▪ Foto: D. Hitchcock / Wikimedia
Os muros de ontem exigiam coragem, pois era preciso caminhar até eles, escrever com as próprias mãos e assumir o risco de que todos reconhecessem sua letra. Os muros de hoje cabem no bolso, basta um toque para que uma opinião atravesse oceanos, alcance milhares de desconhecidos e, muitas vezes, desapareça no minuto seguinte, soterrada por uma avalanche de novos conteúdos.

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Retrato de uma jovem de Pompeia, segurando objetos associados à escrita. O afresco, do século I d.C., faz parte do acervo do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. ▪ Fonte: Wikimedia
Em essência continuamos os mesmos, que ainda pedimos aprovação, buscamos aplausos, espalhamos notícias, contamos vantagens, ainda amamos, odiamos, fofocamos e julgamos. A tecnologia acelerou a velocidade das palavras, mas não transformou a natureza de quem as escreve.

O que nos é mais claro hoje é a permanência do que publicamos, porque o grafite de Pompeia sobreviveu quase dois mil anos naquela tragédia congelada no tempo. Nossas publicações parecem eternas enquanto estão na tela, mas tornam-se esquecíveis na mesma velocidade com que deslizamos o dedo para cima. Produzimos muito mais memória, mas talvez deixemos menos lembranças.

É curioso pensar que, daqui a alguns séculos, arqueólogos talvez não encontrem paredes rabiscadas. Encontrarão servidores, bancos de dados e fragmentos digitais tentando reconstruir quem fomos. Descobrirão que discutíamos política, fotografávamos o almoço, comemorávamos aniversários, exibíamos viagens, escrevíamos frases profundas nas madrugadas e compartilhávamos indignações que duravam exatamente até o próximo assunto do momento.

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Foto: F. Tai
Talvez sorriam ao perceber que não éramos tão diferentes dos habitantes de Pompeia. O ser humano nunca quis apenas comunicar uma informação, mas sim vencer o silêncio. Escrevemos para existir diante dos outros, para deixar um vestígio, para dizer que sentimos, pensamos e passamos por este mundo. A tinta transformou-se em pixels, o carvão em algoritmos e a praça pública em uma linha do tempo infinito.

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