O mais correto seria colocar este título no singular: “A xícara de Eurídice”. As razões verão mais à frente. Primeiro, devo explicar ou esclarecer quem é Eurídice, pois xícara vocês sabem o que é.
A Eurídice, aliás, Eurídice Hespanhol, é uma querida amiga lá das bandas do Rio de Janeiro. Escritora de boa cepa e uma criatura da melhor qualidade. Em outubro de 2023, estive por lá para receber uma honraria das mãos dessa gentil senhora pela novela que eu havia escrito (*Memórias Indecentes*). Ela, na ocasião, era presidente da União Brasileira de Escritores, seccional carioca. Não bastasse essa deferência, Eurídice fez questão de me hospedar. Fez-me sentir um nobre da casa de Windsor, tal o acolhimento.
Digo isso para que não pensem em outra Eurídice, aquela que foi vítima da curiosidade de seu marido Orfeu. Essa fora mordida por uma serpente peçonhenta e, depois de parar de respirar, foi levada ao mundo das trevas. Mas o filho de Apolo e da musa Calíope, um tal de Oeagrus, convence o carrancudo Hades — deus das profundezas infernais — a deixar que Eurídice voltasse ao mundo dos vivos, mas com uma condição: Orfeu, que fora buscá-la, não olhasse para trás até que chegassem em casa. Mas ele desobedeceu, e Eurídice foi devolvida ao reino de Hades, lugar mais popularmente conhecido como inferno.
Essa é uma versão, há outras, mas, como o negócio aqui é falar de uma xícara e de uma amiga, fiz essa digressão apenas para que soubessem qual Eurídice faz parte desta narrativa.
Feitos os esclarecimentos, voltemos à primavera de quando estive por lá. Essa minha amiga, ao me ver fazendo as malas para pegar o beco de volta, fez questão de me entregar um mimo, “coisa simples, mas de coração”, como fez questão de ressaltar. Não era tão simples assim (Eurídice é muito modesta); tratava-se de um par de xícaras da mais fina porcelana.
Fiz questão de trazer esse regalo bem protegido, e tantos foram os cuidados que chegou por aqui intacto. Minha consorte apreciou a prenda e, tomada de toda a autoridade que lhe concede nosso contrato matrimonial, determinou que aquelas xícaras só seriam usadas em ocasiões especiais, quando, por exemplo, fôssemos tomar juntos nosso café, sem as pressas cotidianas, naqueles momentos de se celebrar a vida. Fora disso, usar as mais simples ou uma caneca.
Assim fizemos. E nunca um parente, uma visita, um hóspede fez uso daquelas chávenas. Falta-me ainda contar que esses brindes eram exatamente iguais, congruentes, se preferirem, e os chamávamos de “as xícaras da Eurídice”.
Acontece que, dias atrás, eu, desastradamente, derrubei uma delas ao chão. Tentei ainda um malabarismo para pegá-la no ar. Só que atualmente o corpo não tem a mesma agilidade para obedecer aos comandos e: ploft! Lá se foi aquela porcelana se dividindo em cacos. Recolhi as lascas muito aborrecido e já pensando que aquilo ia dar bronca. E deu.
Tive que comunicar o ocorrido à outra metade da minha laranja. — Preciso contar uma coisa para você. — Coisa boa ou coisa ruim? — Não é boa. — Então, conta logo. Não fica enrolando. — Quebrei uma das xícaras. — Qual? — Uma das da Eurídice. — P%#8&!”#$&¨($. — O pior você não sabe. — Diz logo. O que foi? — É que foi logo a sua. — Como, a minha? Eram iguais. — Você, hoje de manhã, não usou uma delas? Então, era a que estava na pia, portanto, era a sua e foi justamente a que deixei cair. — Pode ir tirando o cavalinho da chuva. A que sobrou é a minha. Ninguém mandou você ser... Como mesmo é que sua mãe chamava o senhor? — Aleijão. — Então, ninguém mandou você ser um “aleijão”!
Bem, senhoras e senhores, isso pelo menos acontece comigo: há objetos pelos quais vamos criando estima. Foi assim com as xícaras de Eurídice. Já perceberam que fiquei sem a minha. Não vou arriscar uma arenga para reclamar o meu pertence. Mas que a xícara que quebrei foi a dela, isso foi. Garanto! Agora Inês é morta.
