Na minha próxima visita a Pilar, a cidade paraibana que quase me viu nascer, irei buscar a origem daqueles postezinhos de ferro fundido...

Signos de tempos idos

Na minha próxima visita a Pilar, a cidade paraibana que quase me viu nascer, irei buscar a origem daqueles postezinhos de ferro fundido instalados nas duas praças principais e, ainda, à entrada do Grupo Escolar Dr. José Maria, cuja farda enverguei em três anos do Curso Primário.

Em preces ao céu, enquanto isso, buscarei o nome do anjo que livrou da eletrocutação os meninos que então éramos eu e meus companheiros de travessuras. Pois bem, nós nos dávamos as mãos em fila de oito, ou dez, para segurar num daqueles pequenos postes do qual houvesse algum vazamento de corrente, algo próximo do formigamento. O último da fila tomava o choque maior. Findas as risadas, o grupo se revezava com o garoto da ponta a retomar a primeira posição. A brincadeira durava até nossa expulsão do local por um adulto disposto a dali retirar o filho pela orelha, caso o encontrasse no bando de moleques.

Quando eu voltar ao templo das minhas memórias, repito, buscarei na base daqueles postes o nome do fabricante. Pela pesquisa que já fiz, devo ali encontrar em alto relevo a marca da Fundição Aurora, ou da M. Abreu & C. – Recife, gigantes do setor desde a segunda metade do Século 19 até princípios do Século 20. O que então produziam eram pilares ornamentais do tipo “Lampião Republicano”. Do ferro fundido diga-se que era o material padrão de refinamento urbano. E que replicava o desenho “belle époque”. A altura um tanto baixa de cada luminária servia, e ainda serve, à projeção da luz sob a copa das árvores, à iluminação direcionada aos pedestres e, evidentemente, ao charme estético.

Sou avisado de que os pequenos postes de Pilar, a terceira cidade mais antiga da Paraíba, podem ter entre 90 e 110 anos. E que também podem trazer a marca da fundição escocesa Walter MacFarlane & Co., ou da francesa Val d’Osne. Mas não estou disposto a crer nisso, embora me tenham dito que essas empresas exportavam ao Brasil catálogos inteiros de postes, lâmpadas e coretos em ferro com desembarques, entre outros, nos Portos do Recife e Cabedelo.

Contam-me que a iluminação pública elétrica chegou à Paraíba nas décadas de 1910 a 1930 para o ornamento de praças e prédios administrativos, inclusive, de muitas cidades do interior. Eu, por meu turno, não sou capaz de confirmar isso, por falta de pesquisa maior do tema. Melhor, então, deixar o assunto aos cuidados, ao domínio, à perícia e à qualificação de nomes como o do historiador Flávio Ramalho de Brito com quem, orgulhosamente, divido os espaços deste Ambiente de Leitura Carlos Romero. Com ele e muitos outros autores de primeira grandeza.

Perguntei ao Google, para exatidão da crônica, do ano em que Pilar desativou o “motor da luz” movido a diesel, dada a chegada da corrente elétrica de Paulo Afonso. O Google, então, mentiu para mim: “Mil novecentos e sessenta e cinco”, respondeu.

Foi não. A cabeça fraca não me impede a certeza de que em 1960, quando eu ainda brincava de tomar choque, Pilar já tinha a luz fornecida pela Companhia Hidrelétrica do Vale do São Francisco, a velha Chesf cansada de guerra. Eu então chutaria 1957, ou 58, por aí assim. A Usina de Paulo Afonso começou a operar, oficialmente, em janeiro de 1955. Perguntemos, neste caso, a Café Filho, o Presidente da República, o homem que cortou a fita da inauguração.

O conterrâneo Damião Ramos, ex-presidente da Academia Paraibana de Letras, também tem suas dúvidas quanto à data de chegada da luz de Paulo Afonso à cidadezinha onde vivemos. Mas sabe, tanto quanto eu, que antes disso nossas famílias tinham rádios que funcionavam com baterias de carro na sala de estar, geladeira movida a querosene e lamparinas preparadas para o uso habitual depois do terceiro sinal de Oscar, o operador do motor a diesel ligado ao pôr do sol e desligado sem dó nem piedade às 22 horas. O primeiro sinal (o piscar das lâmpadas públicas e domésticas) servia ao sobreaviso das donas de casa. O segundo, ao recolhimento das cadeiras das calçadas e, o terceiro, ao acender dos pavios antes que tudo virasse breu. Em seguida, dormiríamos todos o sono dos justos.

Essa rotina era somente quebrada em momentos festivos, a exemplo das celebrações à Nossa Senhora del Pilar, ao Natal e ao Ano Novo. Em tais ocasiões, Oscar punha o motor a queimar diesel até quase a manhã seguinte. Porém, apenas para a iluminação das ruas e das casas. Os parques de diversão, com seus carrosséis, eram tocados a braço, eram “movidos a feijão”, como dizíamos.

“Você lembra de onde ficava o gerador elétrico?”, perguntou-me Damião. Respondi que sim. Ficava na rua lateral à da Igreja, sob um galpão com telhas de cerâmica e paredes com chaves e quadros de luz, um para cada área da cidade. Quando em funcionamento, o motor barulhento movimentava o gerador por meio de uma correia emborrachada, ao que me parecia. Hoje, o terreno abriga a agência moderna do Banco do Brasil.

Quando minhas pernas octogenárias percorrem, agora, as praças e calçadas da minha infância tomo aqueles pequenos postes como signos de tempos idos. Ali, reencontro minha adolescência e meus amigos. Torno a ouvir as cantigas de roda e volto a sonhar com as brincadeiras de passa-anel. Numa delas peguei a mão da primeira namorada. Felizmente, o idoso que me tornei agora também se põe em cada halo com o desejo de apenas contemplar símbolos da graça, da estética e do requinte urbanos. Busca o repouso da alma. Diminui o risco de morrer de saudade.

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