No fim, o gol sai sempre. É só esperar o quanto for necessário.
Comprei um café e escolhi um lugar no meio, porque no meio a gente escuta tudo. À esquerda ficava a Torcida Escarlate, a da casa, mais velha, mais rouca, com bandeiras que já tinham desbotado de tanto sol. À direita ficava a Torcida Celeste, a visitante, camisa nova, tambor afinado, gente jovem com faixas que ninguém tinha terminado de ler. Ali no centro ficava o povo sem camisa, o povo que veio pelo jogo, o povo que veio pelo passeio e o povo que veio porque em casa não tinha nada melhor.
O time da casa era o mais velho. Trazia um treinador de cabelo branco, três títulos guardados em algum lugar e a paciência de quem já perdeu de tudo. Do outro lado, um time de camisa impecável, comandado por um rapaz que falava rápido e prometia apertar o adversário nos primeiros dez minutos.
Aos oito minutos, a casa abriu o placar. O estádio inteiro levantou, inclusive a metade que não era de ninguém. Gritei junto, porque é difícil ficar sentado quando trinta mil pessoas levantam ao mesmo tempo.
Aos vinte, o visitante empatou. A Torcida Celeste explodiu, pequena e barulhenta, e a Escarlate ficou em silêncio por uns quarenta segundos, que é muito tempo em arquibancada. Foi aí que vi a primeira coisa estranha da tarde. Um homem de camisa clara, que tinha cantado com a casa desde o primeiro gol, agora mexia a boca sem som. Acompanhava a música do outro lado. A boca ia, a voz não.
Aos trinta e três, a casa fez o segundo. De novo o estádio levantou, de novo o homem de camisa clara levantou. Só que ele levantou meio segundo depois dos outros e olhou primeiro para os lados antes de abrir os braços. Aprendi naquela tarde que existe comemoração que é checagem.
Passei a olhar cada jogador, e cada um me contava uma história que não era de futebol.
O goleiro da casa recebeu um recuo e se recusou a tocar de primeira. Girou o corpo, escondeu a bola, devolveu curta. Um senhor ao meu lado comentou, com orgulho, que ele declara sempre menos do que tem, e eu concordei sem entender.
O lateral da casa apareceu na linha de fundo com uma bola que atravessou o meio-campo por fora da fiscalização. Ninguém viu nota, ninguém viu sacola, todos viram o cruzamento, e o cruzamento foi bonito.
O zagueiro visitante entrou na dividida com o corpo aberto e levou o atacante junto. Levantou a mão, pediu desculpas, falou de família e de respeito. No segundo tempo, repetiu o lance no mesmo lugar, com a mesma mão levantada.
O volante visitante marcou a entrada da área com a mão na cintura e o olho no relógio. Administrava o que era de todos como se fosse dele e cobrava de cada companheiro o que não devolvia a ninguém. O apito o pegou duas vezes em posição de quem já considera o lance resolvido.
O volante da casa juntou os companheiros, apontou quem entraria em cada bola e fechou a entrada. Ali ninguém entrava sozinho, tudo era decisão de grupo, com um silêncio muito bem combinado.
O goleiro visitante espalmou o chute para o lado, aceitou a bola de volta do companheiro e repôs em jogo. Agradeceu ao zagueiro e seguiu, sem perguntar de onde vinha aquela bola.
No intervalo, a arquibancada virou praça. Vendedor de água, vendedor de amendoim, gente reclamando do calor, gente reclamando do time, gente reclamando do preço. A Torcida Escarlate cantou mais alto para não deixar dúvida sobre quem mandava ali. A Celeste cantou mais alto para não deixar dúvida sobre quem ainda estava vivo. E algumas camisas mudaram de cor. Um rapaz tirou o casaco e ficou com a camisa de baixo. Uma senhora virou o lenço do avesso. Ninguém reclamou, ninguém apontou, ninguém viu.
O segundo tempo começou com o visitante melhor. Aos cinquenta e dois, empatou outra vez, num chute de fora da área que o goleiro da casa viu passar. A Torcida Celeste fez a festa. E aí aconteceu o que eu tentava entender desde o primeiro gol. O setor do meio, aquele setor sem dono, começou a cantar junto com a torcida visitante. Baixinho. Sem levantar. Só a boca e a palma da mão batendo na perna. Um coral discreto, de gente que não queria ser vista cantando e não queria deixar de cantar.
O lateral visitante veio por baixo, escondido, passou por trás do meia e reapareceu na área com a bola no pé. O muro da linha lateral é baixo, e muro baixo em dia de jogo grande é convite.
O meia da casa pediu a bola com a calma de quem tem documento assinado. Anunciou que jogaria pela esquerda, assinou embaixo, girou para a direita e não entregou nenhuma das três promessas. Dois marcadores ficaram com o papel na mão até o fim da jogada.
O zagueiro da casa saiu da defesa, tomou a bola do atacante pela lateral e partiu em contra-ataque com categoria. Foi o lance mais limpo da tarde e o mais mal explicado depois, no vestiário.
Aos sessenta e cinco, a casa fez o terceiro. O setor do meio levantou de novo, com a mesma alegria de antes, com a mesma convicção de antes. O rapaz voltou a vestir o casaco. A senhora desvirou o lenço. O homem de camisa clara cantou o nome do clube da casa com a mão no peito e os olhos no placar.
Levei um gol inteiro para perceber que aquela gente não trocava de time. Trocava de lado. Trocar de time é convicção. Trocar de lado é cálculo.
O atacante visitante prendeu a bola de costas por quarenta segundos. Ninguém saía de perto dele. A defesa da casa precisou do juiz para se livrar do abraço, e o juiz, paciente, só pediu que soltassem devagar.
Aos oitenta e nove, o visitante empatou de novo. No apito seguinte, o quarto árbitro ergueu a placa. Antes que o juiz apitasse, um homem de roupa escura saiu de trás do banco de reservas, atravessou a lateral sem pressa e entregou um papel a ele. O juiz leu, chamou os capitães, olhou o relógio, guardou o papel e mandou todos de volta às posições. O quarto árbitro ergueu a placa outra vez, e nela não havia número.
O jogo continuou. Passou dos noventa. Passou dos cem. A Torcida Celeste já não cantava, só reclamava do horário. A Escarlate cantava cada vez mais alto, porque tempo passando com empate em casa é vitória adiada. E o setor do meio tinha se dividido em silêncio, metade puxando a música de um lado, metade respondendo do outro, como duas rádios na mesma frequência.
Perguntei ao homem ao meu lado quando aquilo terminava. Ele disse que dependia. Dependia de quê? Ele apontou com o queixo o homem de preto, que já voltava para trás do banco, e explicou que o jogo só acabava quando saísse o gol. Havia um prazo, e o prazo era o gol.
E o tempo passou a correr de outro jeito, sem número na placa, sem ninguém saber quanto faltava, com o juiz olhando o relógio e não o campo, com os dois bancos de pé, com o goleiro da casa batendo a bola no chão antes de cada tiro de meta, com o zagueiro visitante amarrando a chuteira duas vezes no mesmo lance, com o meia da casa pedindo a bola, recebendo, devolvendo e pedindo outra vez, com a Torcida Escarlate cantando uma música que já tinha acabado e começando outra no meio dela, com a Celeste calada, com o setor do meio dividido em duas bocas, com o vento entrando pela lateral e levando o papel do juiz para longe e alguém correndo atrás, com o relógio do estádio parado num número em que ninguém acreditava, com o homem de preto já de pé na beira do campo sem pressa nenhuma, e o jogo ali, teimoso, indo e voltando, sem terminar, como se o tempo fosse uma decisão que ninguém tinha tomado.
Aos cento e sete, o atacante da casa recebeu entre o lateral e o zagueiro, no espaço onde nunca aparece ninguém. Deu dois passos, olhou o goleiro, escolheu o canto e acabou com o jogo. Não comemorou. Voltou de cabeça baixa, como quem conhece o tamanho do que fez.
O estádio inteiro levantou. O setor do meio levantou primeiro, antes até da torcida organizada, e levantou com uma pressa que não combinava com a tarde. O rapaz já estava sem o casaco. A senhora já tinha virado o lenço. O homem de camisa clara cantava com a mão no peito e os olhos no placar, e cantava alto, e cantava certo, e ninguém ali sabia que ele tinha começado a tarde do outro lado.
O juiz apitou três vezes, seco e definitivo. A torcida foi embora sem pressa, o café acabou, o campo ficou ali com a linha do meio apagada. Saí depois do apito, porque queria ver a rua. Na calçada, um torcedor comentou que o gol tinha sido bonito e que o ano seguinte seria difícil. O amigo respondeu que sempre é.
Fui para casa com a contagem na cabeça. Onze delitos naquela tarde, cinco de cada lado e um a mais para quem marcou. E a sensação incômoda de ter visto uma coisa que não era futebol, sem conseguir dizer o nome. Havia mais gente decidindo fora das quatro linhas do que dentro delas, e um homem de preto que não estava nem aí para o cronômetro. No fim, o gol sai sempre. É só esperar o quanto for necessário.
Levei a caminhada inteira para achar o nome. Talvez você tenha lido futebol até aqui. Eu li também, até perceber que a arquibancada tem dois lados e um meio, e que o meio é onde mora a maioria. Ela não é fiel, ela é atenta. Ela espera o placar e, quando o placar se define, ela canta. Discretamente, para não ficar mal com o vizinho, e alto o bastante para que o vencedor escute.
