Sou, de verdade, de um outro tempo.
De um tempo em que os professores eram olhados com respeito, admiração, quase devoção. De um tempo em que professores concursados iniciavam suas carreiras em pequenas escolas rurais, muitas vezes distantes de tudo, mas próximas daquilo que verdadeiramente importava: a formação humana.
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Hoje, a profissão que sustenta todas as outras não recebe sequer a remuneração compatível com sua grandeza.
Tenho profunda admiração pelos professores vocacionados, aqueles que ainda carregam o orgulho de ensinar, apesar de tudo.
Nos últimos tempos, trabalhando em escolas da periferia, tenho encontrado profissionais extraordinários. Homens e mulheres que não se limitam a cumprir jornadas e receber salários. Preparam-se, reinventam-se, entregam-se ao prazer de ensinar. São heróis anônimos de uma batalha diária, travada muitas vezes em territórios onde a esperança parece ter sido expulsa.
Ali chegam crianças e jovens trazendo nos ombros o peso de uma realidade que não escolheram. Lares desestruturados, ausências afetivas, pobreza, violência, bairros ameaçados pelo tráfico. Muitos chegam à escola já feridos pela vida, antes mesmo de compreenderem o que significa viver.
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Querem ser vistos. Ouvidos. Amados. Querem que alguém lhes diga que são capazes, que existe um mundo além daquele que conhecem.
Encontro olhos acesos, inteligência à espera de oportunidade, uma sede imensa de conhecimento.
Para muitos, a escola não é apenas um caminho. É a possibilidade de salvação.
Mas encontro também professores exaustos. Submetidos a programas sucessivos, metas, supervisões e determinações que nem sempre dialogam com a realidade humana e social das comunidades onde trabalham.
A escola vai sendo aprisionada por um automatismo que sufoca a criatividade. O professor, antes mestre de sua própria experiência, corre o risco de tornar-se executor de fórmulas concebidas longe da sala de aula.
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Uma educação que padroniza, enquadra, repete. Que, em nome de métodos e ideologias, pode acabar levantando muros justamente onde deveria abrir janelas.
Preocupa-me especialmente o destino da leitura.
Livros selecionados por instâncias administrativas, percursos previamente determinados, pouco espaço para a liberdade de escolher uma obra pelo simples impulso do desejo. E a imensa riqueza da literatura brasileira, quantas vezes relegada a segundo plano!
Onde está o encantamento de entrar numa biblioteca, percorrer as estantes, descobrir um autor por acaso e levar para casa um livro que poderá mudar uma vida?
Onde estão os mediadores de leitura, aqueles profissionais capazes de despertar numa criança a aventura de ler?
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Educar não é fabricar pensamentos em série. É ensinar a pensar.
É permitir que cada aluno descubra sua voz, sua inteligência, sua capacidade de interrogar o mundo.
A escola precisa voltar a ser um território de liberdade intelectual, onde o conhecimento não seja instrumento de domesticação, mas exercício de emancipação.
Minha primeira profissão foi a de professora. E, embora a vida tenha me levado por muitos caminhos, nunca deixei de ensinar. Nem de aprender.
Carrego esse ofício como uma das mais belas credenciais da minha existência.
Sei que um professor não transforma sozinho as injustiças do mundo. Mas sei também que uma palavra sua, dita no momento certo, pode alterar para sempre o destino de uma criança.
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Neste Dia dos Professores, minha reverência aos que resistem, aos que insistem, aos que ainda entram numa sala de aula acreditando que vale a pena.
Porque, enquanto houver um professor capaz de acender uma luz nos olhos de uma criança, haverá esperança.
E nenhuma sociedade será verdadeiramente livre enquanto não reconhecer, respeitar e valorizar aqueles que a ensinam a pensar.











