O mais produtivo dos nossos autores aldeãos lançou recentemente mais duas produções: Sarafim, Reino Encantado e Nunca mais quero tudo, ambos com o selo da Ideia Editora, sinônimo de qualidade. Os livros têm pouco mais de cem páginas cada um, como costumam ser as reuniões de poemas, mas diferenciam-se em alguns aspectos.
Comecemos por Sarafim, Reino Encantado. Para mim, à primeira vista, o que foi Boitempo para Carlos Drummond de Andrade é o que é Sarafim para Hildeberto, observadas as especificidades de cada autor e de cada obra: uma reconstituição poética da infância, através da memória e do olhar do poeta maduro, com tudo o que um processo restaurador desse tipo pode acarretar, tanto para o autor quanto para a obra. Em ambos os casos, Boitempo e Sarafim, temos um mergulho nas profundezas do tempo, para recuperar, pelo filtro da memória possível, vivências, impressões e sentimentos de um menino em parte real e em parte imaginário, na medida em que o que é lembrado é simultaneamente recriado, face à imprecisão inerente às recordações.
Na célebre Recherche, Proust buscou o tempo perdido, no sentido de tempo que passou; e, nessa procura, vai recompondo, recriando e criando ao mesmo tempo, num delicado trabalho que em parte é submetido à vontade racional do autor-condutor e em parte submete esse mesmo autor-condutor, conduzindo-o. É o que mais ou menos acontece, parece-me, na recherche de Drummond e de Hildeberto, guardadas as proporções. Nunca recordamos as coisas e os acontecimentos exatamente como eles foram, e sim como eles se apresentam à nossa memória, em geral atravessados pelas nuances de uma subjetividade não raro inconfiável.
Vejo Sarafim como um poema dividido em dez partes, entremeadas por belas fotografias em preto e branco de Antonio David, fotografias estas que retratam paisagens, bois e pessoas, remetendo o leitor à parte material do encantado reino do Sarafim. Os bois, neste caso, reforçam, para mim, a relação temática com o referido livro do poeta itabirano. Coincidentemente (ou não), também observo uma semelhança de atmosfera nos primeiros versos de Sarafim:
Nasci numa tarde de chuva.
O Cariri era uma escuridão só.
E nos versos que iniciam o Poema de Sete Faces, o primeiro do livro inaugural de Drummond:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
Nos dois casos, a penumbra, a sombra e a escuridão fazem o pano de fundo da paisagem em que o menino Carlos e o menino Hildeberto chegam ao mundo. A ausência do sol e da luz como que anunciando futuros destinos melancólicos. O sol e sua tirania, no caso do poeta paraibano, viriam depois, como parte do cenário sertanejo, marcado pela seca, pelas reses magras, pela terra desolada, é certo, mas também por belezas insuspeitadas.
Não titubeio em afirmar que Sarafim é um dos pontos altos da poesia hildebertiana. Fez bem o poeta em dedicar ao poema único um livro todo seu, como que realçando sua importância especial em meio a uma vasta bibliografia que já ultrapassa setenta títulos. Deve ser lido em silêncio, sempre, com a simultânea contemplação das fotografias, para que as palavras e as imagens, juntas, nos transportem ao encantado reino, sem desvios. Associar esse reino a Aroeiras, a comarca das pedras, é inevitável, e as fotografias de David são explícitas nesse sentido. O Cariri rural é bem aquilo: áspera paisagem, mais dos bois que dos homens, e, não raramente, mais das pedras que dos bois. Um lugar a ser conquistado pela tenacidade e pela perseverança, em que os fracos não têm vez. Nascer aí – e em lugares semelhantes – é já um desafio da existência, que só os fortes logram vencer, o que é bem o caso do poeta que tão belamente tem cantado a comarca há mais de meio século.
Passando a Nunca mais quero tudo, mais um belo título hildebertiano, temos cinquenta poemas nos quais logo se identifica a voz inconfundível do poeta, a sua entonação sentenciosa de profeta bíblico, como costumo dizer. Essa entonação personalíssima faz parte da tragicidade típica do bardo, uma tragicidade que é toda sua, quase um sinônimo seu. A este propósito, imagino que Hildeberto, sendo como é, não se encaixaria bem no meio dos poetas piadistas do movimento modernista de 1922. Ele não é disso, não usa o poema para brincar, e sim para proclamar graves sentenças. É o seu jeito, decorrente de seu sentimento trágico da vida, como diria Unamuno. E é isso que o diferencia positivamente.
Vejamos, para concluir, o poema Menino antigo, que ecoa os versos de Sarafim, mostrando a continuidade dos sentimentos do autor quanto à infância:
Agora me vejo
no menino antigo,
sob os ardores do céu,
levado pelos ácidos da noite.
Deu cupim nos meus dias.
Secou o azeite das coisas.
O fígado da linguagem adoeceu.
Que restou de mim
no menino que se perdeu?
Vê-se perfeitamente que a velha sombra do dia do nascimento do poeta permanece incólume sobre ele. Isso se chama sina. Mas também pode se chamar coerência. Não importa. Hildeberto segue adiante, para além de Sarafim e, ao mesmo tempo, fiel ao reino encantado das origens, e já não mais guloso, querendo tudo, mas apenas o necessário e o suficiente. Bravíssimo.
