Pode parecer estranho juntar num mesmo texto criaturas que nem parecidas são. Mas a culpa é de um ilustre cidadão de minha convivência; digo, amigo desde priscas eras que, em seus encontros etílicos pelos bares de nossa Filipeia, andou reclamando que um atrevido Rupornis magnirostris andou devorando um Serinus canaria do plantel
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deste meu indignado camarada. Em outras palavras, um gavião-carijó devorou seu canarinho cantador, deixando este meu amigo pê da vida. O pior é que ele ainda viu o assassino pegando o beco enquanto, muito satisfeito, batia as asas, lambendo os beiços — ou melhor, o bico — de tanta satisfação. No viveiro, só penas e um pouco de sangue, pois até as perninhas do pobrezinho o rapinante devorou.
Lamento dizer que este meu amigo, ainda que pese a alta estima pela sua avezinha canora devidamente saboreada, está profundamente equivocado. Então, vejamos onde podemos fundamentar nossa tese.
Aquela picanha que meu confrade devora avidamente, passada no sal grosso e acompanhada de uma cerveja na temperatura ideal, não foi colhida em alguma árvore. Assim como de seu canarinho só sobraram as penas, do novilho que virou churrasco nada sobrou, porque não sei se é do conhecimento das minhas leitoras e dos meus leitores, mas do boi tudo se aproveita: o couro, o chifre, os ossos, os miúdos e até o cocô tem serventia.
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Passa pelos neurônios do meu amigo citado nestes autos que o pobre garrote, depois de abatido e minuciosamente esquartejado, pudesse ter sido bicho de estimação de um menino e que, enquanto esse meu colega chora sua perda, o outro lá também poderia estar aos prantos? Que maldade! Levaram seu bezerrinho de estimação ao matadouro.
Nem precisamos adentrar ao universo dos caprinos, dos suínos. O que tem de bicho de estimação indo à panela nem dá para contabilizar. Quando menino, tive um pato de minha estima, o Aristides, que, ao tempo certo, minha mãe fez dele um guisado muito saboroso, segundo os lá de casa. Eu, em protesto, naquele dia comi ovo frito com polenta.
Assim é a vida. Mas o meu amigo poderia ter evitado essa decantada tragédia. Era só, no entorno do viveiro, plantar, por exemplo, algum exemplar de hibisco, brinco-de-princesa, camarão-vermelho, sálvia-vermelha, chuva-de-coral, pois são plantas que atraem o beija-flor. E o que este passarinho tão fragilzinho tem a ver com a nossa história? Muito simples, meus amigos: o gavião se borra de medo do beija-flor. O pequenino é muito ágil e vai para cima do grandão, mete-lhe aquele bico comprido onde for possível. E machuca mesmo. Onde tem um colibri, o gavião nem chega perto.
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Outra possibilidade são os peixes. Mas como assim, peixe espanta gavião? Não! Mas tem criatura que come peixe e que ataca gavião. Mas o segredo fica dependendo do tipo de peixe. A dica pode estar nos filhotes, nos alevinos. Construa um pequeno tanque ou improvise uma dessas caixas-d'água azuis, muito comuns em nossos depósitos de construção. Ali, coloque água, deixe descansar por uns dias para o cloro evaporar e então coloque os peixes. Pode ser o espada, o molinésio, o guppy, o japonês. Não esqueça das plantas aquáticas, como a baronesa (aguapé), o papiro-anão e outras. Mas e daí? — perguntarão.
Simples, meus amigos, minhas amigas: esses peixes vão atrair os bem-te-vis. Um banquete para eles (os bem-te-vis, é claro). Peixes maiores, como o japonês, eles não comem; no caso, atacam os alevinos.
É de bom alvitre esclarecermos que está aí outro inimigo mortal do gavião e das corujas. Com o bem-te-vi, não tem moleza: é só ver um gavião que eles vão para cima, e essa postura agressiva mantém o intruso longe dos ninhos.
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Espero que esse meu amigo esteja mais conformado. O gavião que atacou seu bichinho querido estava apenas defendendo a própria sobrevivência. De uma forma mais sofisticada, é assim que fazemos ao comermos nosso bife: apenas transferimos, de forma disfarçada, a violência do ato para outrem. Mas, se quiser proteger outras aves que tenham sobrevivido, dei a receita. Mas fica esperto: tem sempre alguém comendo quem está marcando bobeira. É o que dizem.