Júnior Dalberto, o homem que continua falando pelos livros
Há pessoas que passam pela nossa vida e deixam lembranças; outras deixam livros. E existem aquelas raras, raras como Júnior Dalberto, que deixam os dois. Quando penso nele, torna-se impossível separar o escritor do amigo ou a literatura do homem, talvez porque,
Júnior Dalberto (1959–2020), escritor, poeta e dramaturgo potiguar, nascido em Natal. ▪ Fonte: Sinpf
nele, essas dimensões fossem indissociáveis. Júnior escrevia como quem carregava o mundo dentro de si e vivia como quem ainda tinha histórias demais para contar. Por isso, a saudade que fica não é apenas da presença física: é a falta da conversa, do riso largo, da inteligência generosa e daquele olhar singular sobre o cotidiano. Hoje, quando sinto falta da sua voz, recorro às suas páginas. Abro um livro e, de algum modo, ele retorna. Não inteiro, pois nenhum texto devolve o abraço de um amigo, mas a literatura possui esse estranho poder de aproximar os ausentes. E Júnior continua próximo, falando, provocando o leitor e lembrando que a imaginação também é uma forma de resistência.
Sua obra nasceu em Natal, mas nunca esteve prisioneira de fronteiras. Profundamente potiguar, levou o Rio Grande do Norte para o coração de suas narrativas e suas histórias para muito além das dunas.
GD'Art
Em Pipa Voada sobre Brancas Dunas, encontramos uma das expressões mais luminosas desse universo, onde realidade e fantasia se cruzam sem pedir licença. Ali, as dunas deixam de ser paisagem para se tornarem território de memória e encantamento. Júnior sabia que a realidade, por si só, muitas vezes é estreita; por isso, acrescentava-lhe o impossível, fazendo dele uma viva possibilidade literária.
Em Cangaço e o Carcará Sanguinolento, surge outro Júnior: o autor atento à cultura popular e às memórias que sobrevivem pela oralidade, recriando o sertão através do humor, da violência e da fantasia. Ele conhecia a alma humana em suas grandezas, pequenezas, loucuras e esperanças. Essa versatilidade se expande em Leveza Infinita, onde a poesia emerge como necessidade e respiração. Transitando entre romances, contos, poesias e dramaturgias, ele recusou gavetas ou portas únicas, preferiu abrir todas.
Essa busca inquieta ganha contornos mais densos em Blattodea, obra em que o grotesco revela aquilo que preferimos ignorar, mostrando que por trás do insignificante pulsa a nossa própria mesquinhez, ferida e capacidade de resistir. Júnior provocava o leitor e o colocava diante do espelho, pois sabia que uma obra só permanece quando ainda guarda perguntas. Essa habilidade de dialogar em múltiplas frequências se manifesta também na delicadeza de Titina e a Fada dos Sonhos, que respeitava a inteligência da infância, e na vivacidade de Reféns nos Andes, onde a aventura ganha fôlego narrativo singular.
Mas é no palco que sua presença parecia ganhar corpo e densidade. Como homem de teatro, Júnior não escrevia apenas personagens: criava atmosferas, conflitos, silêncios e espantos. Borderline, com sua marcante trajetória em cartaz, e Ventre de Ostra, que transforma a dor em poesia cênica viva, mostram uma dramaturgia que sofre, interroga e respira diante do espectador. Já em A Barca de Caronte, ele mergulha no mito para investigar a solidão e as travessias entre a vida, a morte, o sonho e a tragédia. Por outro lado, O Velório da Marquesa Di Fátimo revela sua veia cômica refinada, um riso inteligente, onde o absurdo e a crítica caminhavam juntos, provando que pensar não precisa matar a alegria.
Borderline, com Bruce Brandão ▪ YT Canal Junior Dalberto (In Memoriam)
No Rio Grande do Norte, sua presença cultural foi imensa não apenas pelos textos, mas pelo movimento que gerava ao seu redor. Dirigindo, atuando, articulando encontros e fazendo a arte circular, Júnior manteve como marca mais bonita a generosidade sem pose. A morte, ao levá-lo tão cedo, cometeu uma profunda injustiça com as histórias e personagens que ainda esperavam para nascer. No entanto, se ela pode interromper uma vida, não consegue apagar uma obra.
Ventre de Ostra, Luana Vencerlau ▪ YT @luanavencerlau
Neste mês de outubro, data em que ele completaria mais um ano de vida, essa saudade ganha um contorno de reencontro. Ainda sem uma data definida a CJA-Editora está para lançar livros inéditos do escritor, o que será uma oportunidade de reunir velhos amigos e novos leitores em torno de sua memória.
Esta não é apenas uma reflexão sobre livros; é um diálogo com um amigo que mudou de endereço. Júnior saiu da cadeira ao nosso lado e foi morar nas páginas. Para quem ainda não o leu, fica o convite para a descoberta; para quem já o conhece, o convite ao regresso, pois os livros de Júnior amadurecem conosco a cada releitura. Por isso, quando a saudade apertar, farei o que aprendi com sua ausência: abrirei um livro, sentarei em silêncio e deixarei Júnior falar. E ainda vejo Júnior caminhando sobre as dunas brancas do nosso estado.