Ao meu lado direito, Anton Van Dyck, contratado pela corte, fazia esboços de uma infinidade de retratos dos presentes. Como todo amador que vê um grande artista em atividade, fascinaram-me a velocidade e precisão com que surgia de seus traços uma galeria de homens e mulheres em damascos e veludos, pérolas e diamantes, heráldicas coruscando em púrpuras, goles, sinopla, sable, Van Dyck — sem um instante de hesitação — reproduzindo grinaldas, detalhes de ombros desnudos, luvas, olhos verdes ou azuis, negros ou castanhos, enquanto crescia o murmúrio contido, cada vez mais tomando todo o espaço debaixo da estrutura vertiginosa.
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Percebi, vendo-o trabalhar, que nós nos vestimos de amarelo cromo ou de Nápoles, de azul cobalto ou da Prússia, de verde-esmeralda ou véronèse, depois é que vêm os detalhes das texturas, dobras, adereços. Ah, e a pena que senti — acompanhando-lhe o olhar de lince — ante o desperdício de engenho e arte (em indumentária e ourivesaria) na horrorosa família real espanhola. Gentilmente, entretanto, o pintor saiu.
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Por falar em Arte, fiz sucesso com meu presente de núpcias, de custo infinitamente maior que o da conta que eu vinha cobrar de Claudius: uma série de retratos de conterrâneos meus em óleo sobre tela — pintados por Eckhout — hoje parte do acervo da Seção Etnográfica do Museu Nacional de Copenhague — o Nationalmuseet — destaque para o da índia Tarairiu (quadro de dois metros e sessenta e quatro por um e cinquenta e nove) com a bugra nua usando pulseiras de sementes, sandálias de gravatá, levando na destra uma destra masculina decepada, outros pedaços de homem (inclusive um pé) visíveis no cesto de taquara em suas costas, preso à cabeça dela por uma testeira.
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— Eles não devoram os inimigos — expliquei à corte, com gozadora naturalidade — Consideram que não há melhor sepultura para um tapuia morto em combate do que os corpos dos sobreviventes que o amam. Cada cadáver é lavado, assado e saboreado pelos parentes e amigos. Os ossos, depois reduzidos a pó e misturados com farinha, são ingeridos noutra ocasião. As lamentações e gritos de dor por um marido ou filho só terminam quando o dito-cujo é totalmente consumido.
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Isso marcou minha presença na Dinamarca. Passei a ser conhecido com De Braziliaan (O brasileiro), o que me tornava um tanto aparentado com meus pajés e morubixabas, mamelucos, cafuzos, mulatos e negros, apesar de bom descendente de portugueses que sou.
Do livro A ANGÚSTIA DE HAMLET segundo seu amigo Horácio, paraibano, disponível no site da Editora Arribaçã