O proêmio é a parte inicial de um poema épico. Como o próprio termo grego (προοίμιον) diz, “é o caminho adiante”. Trata-se de uma parte constituída de invocação e proposição, nem sempre nessa ordem e nem sempre possíveis de ser separadas. Na invocação, o poeta chama as Musas, inspiração que se encontra dentro dele, conforme o estabelecido por Hesíodo na Teogonia, de modo
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que as deusas possam ajudá-lo, com seu sopro divino renovado, a compor um grande canto em louvor aos heróis. Na proposição, sabe-se qual é o propósito do canto, a que herói o canto se destina e o que aquele herói deverá ter como objetivo de sua empreitada. Tudo isso de modo sucinto, visto que as ações ali propostas serão desenvolvidas minuciosamente na narração, a parte mais longa do poema. Assim, quem quiser saber como aconteceu e quais as consequências da ira de Aquiles (Ilíada), terá de percorrer quinze mil versos; sobre o retorno de Odisseus (Odisseia), mais treze mil versos; as lutas de Eneias (Eneida), outros dez mil versos; as viagens de Vasco da Gama (Os Lusíadas), quase nove mil versos.
Para que possamos falar com mais propriedade do proêmio da Odisseia, falaremos rapidamente de outros proêmios, tendo em vista a semelhança da estrutura, remontando a Homero. Na Ilíada, a primeira palavra do poema é ira, no início do primeiro verso, que vai se encontrar com o seu adjetivo funesta, primeira palavra do início do segundo verso. A “ira funesta” (μῆνιν οὐλομένην) está associada ao maior dos heróis Argivos (lembremos sempre: não há gregos em Homero...), Aquiles, o Pelida. Logo, em dois versos, sabemos que o poeta incita a Deusa, uma das Musas, sem dúvida Calíope, a Musa da poesia épica, aquela mesma que Camões invoca no início do Canto III de Os Lusíadas, a cantar a ira funesta de Aquiles, filho de Peleu, tendo ocasionado a morte de muitos heróis, razão da ida de suas almas para o Hades (Ilíada, I, 1-4):
μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾿ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾿ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾿ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων,
Canta, Deusa, a fúria do Pelida Aquiles
funesta, que provocou mil dores aos Aqueus
e enviou ao Hades muitas almas corajosas
de heróis,
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Na Eneida, de Virgílio, poema do século I a. C., as palavras iniciais do poema são armas (arma), herói (virum), que deverão ser o motivo do que se canta (cano) em celebração e, mais do que isso, em tom profético sobre a fundação de Roma, com Eneias, o rei Troiano, já no poema lançando as bases da altaneira Roma, depois de compelido pelos deuses à fuga de Troia destruída pelos Argivos (Eneida, I, 1-3):
Arma uirumque cano, Troiae que primus abo ris
Italiam fato profugus Lauiniaque uenit
litora,
Eu canto as armas e o herói que, primeiro, das margens de Troia,
banido pelo fado, chegou à Itália e aos Lavínios
litorais,
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O verso inicial da Eneida acabaria sendo traduzido por Camões, no proêmio de Os Lusíadas – “As armas e os barões assinalados” (I, 1), em que barões nada mais é do que uma variante, no plural, de varão, relativo, no poema virgiliano, a Eneias, designado pelo termo latino no acusativo, uirum, que pode ser traduzido por varão, herói, homem do sexo masculino, marido, amante... No caso, será o herói, será Eneias, o herói insigne pela piedade – insignem pietate uirum –, assim como os barões camonianos são assinalados:
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana.
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Vê-se, portanto, que as primeiras palavras do poema e que se encontram no proêmio, em geral, determinam o assunto a ser tratado. Não poderia ser diferente com a Odisseia, cuja primeira palavra é ἄνδρα, “o homem, o herói”, encontrando logo adiante o seu adjetivo, πολύτροπον, “de muitas voltas”, a designar a viagem de retorno de Odisseus a Ítaca, seu reino e, mais especificamente, o seu lar. Vejamos o que diz o proêmio da Odisseia, na sua íntegra, com tradução nossa:
πολλὰ δ᾿ ὅ γ᾿ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων. 5
ἀλλ᾿ οὐδ᾿ ὣς ἑτάρους ἐρρύσατο, ἱέμενός περ:
αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἁτασθαλίῃσιν ὄλοντο,
νήπιοι, οἳ κατὰ βοῦς Ὑπερίονος Ἠελίοιο
ἤσθιον: αὐτὰρ ὁ τοῖσιν ἀφείλετο νόστιμον ἦμαρ.
τῶν ἀμόθεν γε, θεά, θύγατερ Διός, εἰπὲ καὶ ἡμῖν. 10
Reconta-me, Musa, sobre o homem de muitas voltas, que em extremo
errou, depois que destruiu a cidadela sagrada de Troia:
viu as cidades de muitos homens e conheceu seu pensamento,
que, sobre o mar, muitas dores sofreu no coração,
lutando pela sua vida e pelo retorno dos companheiros. 5
Mas não salvou os companheiros, embora desejando:
pois pela louca presunção deles próprios pereceram,
Tolos! Os bois do Sol de Hipérion comeram:
em seguida, o dia do retorno daqueles foi destruído.
Estas coisas, de algum ponto, narra-nos também, Deusa, filha de Zeus. 10
Nesses dez versos, há muito o que considerar. De início, devemos dizer que o termo ἄνδρα, em grego, acusativo de ἀνήρ, serve a designar apenas o homem do sexo masculino ou o herói, além de marido e amante, assim como o termo uir do latim. Odisseus é o herói de muitas voltas, ἄνδρα πολύτροπον, tendo em vista o grande
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périplo que ele faz pelo Mediterrâneo, desde o litoral de Troia, no estreito de Dardanelos ou Helesponto, até bem perto do estreito de Gibraltar, na saída para o Atlântico, e onde, possivelmente, se situava a então ilha de Ogígia, da bela Ninfa Calipso.
Herói de múltiplos epítetos, Odisseus é também o πολύτλας, “o que é capaz de muito suportar ou de muito sofrer”; além de ser o πολύμητις, “o de muita inteligência ou de muita astúcia”. Todos esses epítetos servem para identificá-lo e sintetizam a sua personalidade: ele é o de muitas voltas, jogado daqui para ali pelo mar (o sentido de πλάγχθη, do verbo πλάζω, errar, versos 1-2) e o que é capaz de muito suportar, sofrendo a dor do retorno para sua terra (versos 4-5); ele é o de muitas voltas no pensamento, pela sua astúcia em escapar dos perigos do caminho e em conter a desmedida, de modo a fugir de cometer ofensas aos deuses e, então, retornar (versos 5-9). O ἀνήρ πολύτροπος se expande, portanto, em ἀνήρ πολύτλας e em ἀνήρ πολύμητις.
É a partir do proêmio que se pode definir a Odisseia como uma narrativa de retorno. Após vinte anos de ausência (Canto I, versos 170-176) – dez lutando em Troia; dez retornando para casa – Odisseus consegue, enfim, voltar. O retorno, presente no proêmio, através de termos como
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νόστον (verso 5) e νόστιμον (verso 9), imprescindíveis para a definição da narrativa, será desenvolvido desde o Canto I, com a assembleia dos deuses no Olimpo (versos 76-92), decidindo sobre a volta de Odisseus, e com o canto do aedo Fêmio aos pretendentes (versos 325-327), narrando sobre o triste regresso dos Aqueus. Mas ainda veremos como o retorno existirá nas narrativas de Nestor (Canto III) e de Menelau (Canto IV), ambas a Telêmaco, além da narrativa de Odisseus aos Feácios, que ocupa 4 cantos – do Canto IX ao XII. Retorno necessário para Odisseus operar a reconquista do reino e do lar, não sem antes de o herói completar a educação do filho, Telêmaco. A Odisseia é também uma paideia (παιδεία).
Odisseus é, conforme já vimos, o herói que muito sofre (verso 4), mas também é o que muito aprende (verso 5), vendo muitas cidades de homens e conhecendo seus pensamentos: a ilha de Ogígia e a bela Calipso, ninfa que quer com ele casar-se e o mantém preso por sete anos (Canto V); os Feácios, povos isolados do mar, excelentes remadores que o acolhem e o levam para casa (Cantos VI-XIII); os Cícones, que tiveram sua cidade pilhada e de onde Odisseus leva um vinho escuro e puro, que lhe fora dado pelo sacerdote Maro, por ter sido poupado; os
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Lotófagos, que perdiam a memória, pelo hábito de comer o loto; os terríveis Ciclopes, antropófagos, não-comedores de pão e desconhecendo a lei da hospitalidade (Canto IX), dos quais Odisseus embebeda Polifemo, com o vinho puro que recebera; o antro de Éolo, deus dos ventos, que lhe ajuda com ventos propícios, mas nega-lhe novos ventos, quando Odisseus os perde pela cobiça dos companheiros; os Lestrigões, antropófagos, quais os Ciclopes; Circe, a feiticeira que transforma seus companheiros em porcos, mas, apaixonada pelo herói, retorna-lhes a forma primitiva e o orienta como deve proceder para retornar a Ítaca (Canto X); o terrível Hades, onde se encontra com o profeta Tirésias, que complementa os conselhos para o seu bom retorno (Canto XI); os perigos de Cila e Caríbdis, das Sereias e da ilha Trinácria, onde os companheiros comem dos bois sagrados de Hélios e já não poderão mais retornar (Canto XII). Tudo isso Odisseus vê (ἴδεν, verso 3) e conhece (ἔγνον, verso 3), o que lhe permite, depois, retomar pela memória, outro elemento imprescindível para a significância da Odisseia – sem memória, não retorno, daí o grande perigo que representam os Lotófagos.
Todo esse périplo, palavra grega que significa “navegar em torno”, vez que as viagens de Odisseus são pelo mar, traz dor e sofrimento, traz sobretudo a aprendizagem de que o
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homem não deve se entregar a sua louca vaidade ou louca presunção (ἀτασθαλία, verso 7) e cometer o descomedimento, ofendendo as divindades. Louca presunção que leva seus companheiros a cometerem a ὕβρις, “excesso”, “descomedimento”, ao comerem dos bois sagrados do Sol. Todos morrem, o único a retornar é Odisseus, que se manteve na prudência, a sofrosúne (σωφροςύνη). É assim que, ao se juntar a dor ἄλγος (no verso 4 encontra-se no plural, ἄλγεα) com a volta (νόστον, verso 5), temos a nostalgia (νοσταλγία), com o proêmio definindo também um dos momentos fundamentais da Odisseia, dividido entre a nostalgia física (Cantos V-VIII) e nostalgia psíquica (Cantos IX-XII).
Dois outros elementos chamam a atenção no proêmio da Odisseia, a utilização dos verbos ἐννέπω e ἔπω; e o termo ἀμόθεν. O verbo ἐννέπω aparece no verso 1 e o verbo ἔπω, no verso 10. O proêmio, portanto, está delimitado por dois verbos com o sentido de “contar”, “dizer”, “narrar”, de modo a caracterizar o que há de ser dito como essencialmente numa narrativa. A diferença entre os dois verbos é que ἐννέπω é formado de εν, prefixo com o sentido de “dentro”, e de ἔπω, o verbo. Normalmente, os tradutores optam por traduzir os dois verbos por falar (Frederico Lourenço), recontar e contar (Carlos Alberto Nunes); cantar e
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começar o canto (Trajano Vieira), raccontare e dire (Rosa Calzecchi Onesti), e dire (Victor Bérard). Acredito, no entanto, que há uma intenção de que a Musa conte ou narre os acontecimentos que se encontram dentro do poeta, considerando que o sopro das Musas para dentro da boca do poeta é o que lhe dá a condição de narrar os fatos. Não é fácil colocar este sentido no poema, sem tornar a tradução prosaica ou perder a disposição dos versos, numa edição bilíngue. Daí que uma das traduções possíveis desse verbo é recontar, conforme os sentidos utilizados por Carlos Alberto Nunes e Rosa Calzecchi Onesti. As Musas sopram os acontecimentos para o poeta, μοι ἔννεπε (reconta para mim), para que ele possa exteriorizar o soprado, contando para os demais, o que sai de dentro dele pela ação da divindade – εἰπέ καὶ ἡμῖν (narra-nos também). Como as Musas sabem o passado, o presente e o futuro, aqueles fatos da volta de Odisseu já são narrativas passadas para elas. Isto determina que aquilo que era uma relação inicial, entre o aedo e a Musa, deve passar a ser uma relação geral, entre o aedo e seus ouvintes. Está aí a definição da inspiração poética, antes de Hesíodo formular como isto aconteceu, no início da Teogonia (versos 26-34).
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Por fim, o termo ἀμόθεν, cujo sentido é “de algum ponto”, “de algum lugar”, o que ajuda Horácio a formular a lição que ele recomenda aos escritores, na Epístola aos Pisões, conhecida como Arte Poética (versos 146-149, em tradução nossa), de que o poema épico começa in medias res, no meio das ações, nunca do início dos fatos.
Nec reditum Diomedis ab interitu Meleagri,
nec gemino bellum Troianum orditur ab ouo;
semper ad euentum festinat et in medias res
non secus ac notas auditorem rapit
Nem o retorno de Diomedes desde a morte de Meleagro,
Nem a guerra Troiana, urdida desde o ovo gêmeo;
Sempre avança para o evento e nas ações médias
e conhecidas, não de outro modo apanha o ouvinte.
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O narrador não só pede a ajuda imprescindível da divindade para poder cantar o seu poema e delimitar o tipo de canto que ele vai fazer – uma narrativa –, mas pede, sobretudo, que ela comece de algum ponto, não do início, necessariamente. É exatamente por isto que quando a Odisseia se inicia, já se passaram dez anos desde que Odisseus deixou Troia, e há sete que ele se encontra em Ogígia, esperando retornar para casa. Os fatos anteriores, não todos, serão conhecidos ao longo da narração e devem ser devidamente encaixados e ordenados pelo leitor.
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A leitura detida do proêmio nos ajuda, pois, a saber como será direcionado o que se conta e o limite do que se conta: as viagens de Odisseus, conhecendo cidades e povos; seu sofrimento na planície marinha, a louca presunção dos companheiros, que perecem; a sua prudência, que determina o seu retorno para casa. Mais: não se trata de um herói que vai em busca de glórias guerreiras, mas de um herói que, tendo aprendido o que é o sofrimento, busca o lar como repouso dessa glória que, ao fim e ao cabo, acaba por tornar-se fastidiosa.
Leia aqui o oitavo capítulo da série Deixemos Homero falar