O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém ...

Quando resolvi entrevistar Deus

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O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém de grande importância Será que me deixaria questioná-lo? Um caderno com perguntas, E um lápis qualquer. Sentaria perto dEle, Quem sabe, ofereceria um café. Para o Dono dos meus dias E quem me mantém de pé. Já pensei como seria Se as palavras se calassem, E as perguntas no caderno Esquecidas ficassem E desse um branco na memória. Imagina entrevistar Deus! Será que eu teria coragem? Então comecei assim: — Tenho coisas para perguntar. E Ele respondeu: “Você já faz isso, A toda hora, em todo lugar.” Então eu ri de vergonha Porque suas respostas Não aprendi a interpretar. Comecei perguntando: — Qual a lógica da vida? Mas Ele permaneceu calado. Então continuei, atrevida, Com minhas perguntas difíceis: — Por que tanta coisa é permitida? — Ô, Deus, por que morremos? “É ruim demais, meu Senhor!” “Nunca mais ver as pessoas, A quem tivemos tanto amor. Será que as veremos de novo, Depois do choro e da dor?” Ele calado estava, Calado ficou. Só olhava pra mim Com um olhar de amor. Devia pensar assim: “Tenho cada filho perguntador!” Dizem que o óbvio Também deve ser dito. Pois entrevistar Deus, Todo mundo já faz isso. Não sou só eu, não! Pra quem achar que é esquisito. Quando pensei assim, Deus então falou: “Calma, criatura minha! Sobre quem me entrevistou, São muitos, e são tantos. Realmente você acertou.” “Querem saber de tudo, Até do que não é pra saber. Como Sou, Minha Face ou cor, Meus olhos, jeito, o que vou dizer. Mas falo pelo silêncio. É só você entender.” — Aliás, Senhor Deus, Lembrei de Luiz Gonzaga, Um sonhador lá do Nordeste Que resolveu sair de casa Para seus sonhos buscar, Mas encontrou tantos “nãos” De quem nele não acreditava. — E sobre esses “nãos”, Que a gente leva na cara, Por que eles doem tanto, Igual a uma chinelada? Tem que ser assim mesmo? Ou é invenção Sua, que dá pra ser evitada? Ele me olhou firme, Nem sei dizer sua expressão. Disse: “Apenas escute. Preste bastante atenção: Se Luiz passou por isso, Pra tudo há uma razão. A direção das coisas É uma difícil engrenagem, Misteriosa e perfeita. Antes da chuva, há a estiagem. Como terminou Luiz? Sabe dizer, em sua reportagem?” Nosso Senhor sorriu Com misericórdia no olhar. E disse que Gonzaga Seus sonhos conseguiu alcançar. Me contou ainda, olhe só! Que falaram pra ele tocar só sanfona Porque cantar não ia dar. Será que é pecado Querer a Deus entrevistar? Sem procurar Sua assessoria, E a Ele ir direto falar. É muita audácia minha. Tô nem aí... Ah, lá!

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