“Só serve para botar nome em ruas”. Quem já não ouviu a sentença popular proferida por moradores indignados com impostos municipais, com o custo crescente do transporte coletivo, com inundações, ou com a ineficácia de serviços públicos em áreas urbanas centrais e periféricas? O “batizador de ruas” – assim percebido, muitas vezes, o vereador – é insulto decorrente da relapsia com aquilo que dele espera o eleitor furioso: o papel de fiscal da sociedade, o do legislador competente, o do agente político de olhar atento nas Prefeituras.
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No caso em pauta, a revolta popular encontra explicação em registro estatístico: mais de 50% dos projetos aprovados em Câmaras Municipais dizem respeito à denominação de logradouros, à criação de datas comemorativas e à concessão de títulos honoríficos. Assim nos têm contado, no transcurso dos anos, manchetes sucessivas. O problema se agrava quando as homenagens contemplam figuras vinculadas a períodos ditatoriais. Quem, em suas cidades, não tem bairros inteiros com nomes desse naipe?
A ninguém mais surpreende, portanto, quando muitas dessas denominações não “pegam” mesmo quando reverenciam grandes e honrosas expressões dos meios jurídicos, administrativos,
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O grande José Américo me perdoe, mas “Beira-Rio” é o que vingou como certidão de batismo da avenida que liga o Centro de João Pessoa ao nosso Litoral, delimitando os espaços das icônicas praias de Tambaú (à esquerda) e Cabo Branco (à direita). Melhor sorte não teve o governador Flávio Ribeiro Coutinho, apesar de seu nome nas placas da artéria que o povo decidiu ter por “Retão de Manaíra”.
Há casos, porém, inversos. A atual Maciel Pinheiro, velho reduto dos amantes da noite, dos amores a preços fixos, da música e da bebida nas madrugadas, era no Século 18 a “Rua das Convertidas”, denominação originalmente inspirada no abrigo honestíssimo que ali se instalou para “mulheres públicas”, ao que leio dessas origens.
“Conde d’Eu”, no Segundo Império, e “Rua do Comércio”, até o início do Século 20, a Maciel Pinheiro levou a fama de polo da boemia a princípios dos anos de 1970. Seus prostíbulos tiveram a fase áurea de 1940 a 1960. Antes disso, o urbanismo e a visão moralista do presidente João Pessoa não conseguiram tanger dali aquelas meninas.
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Sinto-me, agora, obrigado a pedir perdão aos mais sensíveis, aos de retidão moral irremovível, aos puros de corpo e alma, mas não dá para falsear a história nem a verdade por mais reprováveis que sejam. Ponho-me, então, na posição de um juiz, de um promotor, de um advogado, ou, ainda, de um membro de júri, todos necessitados dos termos exatos da agressão sofrida por alguém que tenha reagido ao vilipêndio no tapa, na bala, ou na faca. O tamanho da ofensa, juridicamente, pode atenuar a punição ao ofendido, porquanto teria ele agido, violentamente, em estado de choque, com a privação dos sentidos. Daremos, portanto, nua e cruamente, os nomes que as coisas têm, ou tiveram.
Então, lá vai. Chame um motorista de Uber para o “Beco da Bosta”, em São Luís do Maranhão, e ele o levará à Travessa 28 de Setembro, área turística. Leio que a expressão tanto é reconhecida pelo algoritmo do aplicativo, quanto é ponto de referência no Google Maps e Wase. Por que os aplicativos aceitam isso? Pois bem, porque não dá para desmerecer o gosto popular nem a experiência dos
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“O antigo Beco do Mijo foi transformado em uma verdadeira obra de arte. Este é o governo de Paulo Roberto oferecendo o melhor ao povo vitorense”, dizia, em 2002, a propaganda oficial inscrita no “Pirituba Informa”, editado em Vitória de Santo Antão (PE), com fotos de belas fachadas, bancos e iluminação pública. Outro beco com idêntica denominação, na belíssima e histórica Paraty (RJ), ali não aparece como endereço oficial. Mas isso talvez resulte do fato de que o lugar é interditado à circulação de carros. Ou seja, lá não chegam o Uber nem seus congêneres.
O GPS mental do povo, sem dúvida, ativa o pitoresco. Alguém já disse que as cidades pertencem aos que nelas caminham. Que as placas são o que o que as cidades dizem ser. Os apelidos contam, porém, o que elas realmente são. Concordo com isso.
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A leitura do GGN, o jornal eletrônico de Luiz Nassif, deixou-me informado de que existiu, no Rio de Janeiro, uma rua com nome esquisitíssimo, lá para as bandas do Século 19. Citado em registros históricos, o fato adviria de um proctologista alemão que, tropeçando na língua portuguesa, tranquilizava sua vasta clientela com a promessa de cura. “Sucussarará”, a rua onde instalou a clínica, originou-se, então, do propósito de sarar aquilo que o moço tinha sob cuidados profissionais. E viva o povo.











