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Ele anda meio adoentado. Passou por procedimentos cirúrgicos delicados e hoje se vê às voltas com algumas patologias oportunistas que atacam nosso organismo quando este se encontra debilitado. Acontece que esse caba é duro na queda, é terreno duro, não é mole como um tijuco. Ali, enxadada alguma é capaz de encontrar minhoca. O chão é seco, impermeável, e só britadeira para furar.

Pois esse meu amigo faz de cada dia uma vitória. É um guerreiro. Anda afastado dos causos e das doces mentiras que sua verve prodigiosa é capaz de produzir. Não nos referimos àquelas falsetas tenebrosas paridas em escala industrial nos bastidores do poder, mas sim àquela narrativa cheia de magia, própria dos que têm a capacidade de entreter a roda de amigos quando estes estão imbuídos do propósito de molhar a palavra num desses botecos emblemáticos de nossa Filipeia. E qual seria essa tasca onde meu amigo toma assento? Falemos um pouco dela.

Na verdade, trata-se de uma academia informal que reúne gente das mais diversas estirpes: do magistrado ao passador de cheques sem fundos, do poeta ao cachaceiro que jamais produziu um versinho sequer, mas compartilha com algum vate as dores da alma e do coração. Aparecem por lá desde o filósofo capaz de discorrer acerca da metafísica de Aristóteles até o pretenso pensador que se apega às máximas desconexas de nosso emblemático Caixa d’Água. Estarão por lá também o dramaturgo, o cronista, o jornalista que ainda escreve e o que não está mais na lida. Aparece, algumas vezes, a senhora elegante e refinada, como mais amiúde surge a mocinha de vida fácil, que, segundo ela afirma, não é tão fácil assim. Enfim, vai todo tipo de gente. E que espaço tão “sui generis”, tão democrático é esse?

Ah, meus amigos, é o Bar do Lulinha. A cerveja vem na temperatura ideal; dos petiscos não há do que reclamar; o atendimento tem dia que é bom, tem dia que dá vontade de brigar. E os sanitários? Bem, há a chance de você sair pior do que entrou naquele cubículo que deveria socorrer nossas necessidades urgentes. Depende da premência de sua necessidade: o número 1 ou o 2. O 2 é bem complicado.

Mas ali é uma academia informal e lá foram lançadas, sempre com sucesso, algumas candidaturas a uma outra academia mais prestigiada — a Academia Paraibana de Letras.

Muitos sábados encontrei esse meu parça por lá. Não na Academia de Letras, mas nessa outra, a mais chinfrim. Pensem numa prosa da melhor qualidade. A essa altura, é bom que eu revele a identidade desse mentiroso criativo, que tem a bossa de convencer qualquer interlocutor do improvável. Como o talento não é só de prosear de copo à mão, esse amigo, doutor em Física, foi professor em nossa prestigiada UFPB. Como não bastasse, também lecionou no curso de Direito da mesma instituição. É um danado: domina desde a ciência de Isaac Newton à de Hans Kelsen. Imaginem que sujeito sabido ele é.

Foi com esse meu camarada, José Ronald de Farias, que, há alguns anos, visitamos uma comunidade de sacis no Brejo paraibano. Precisavam ver só como ele interagia com aquelas criaturinhas. Levávamos apitos, chocalhos, rapadura, fumo de corda, paçoquinha de amendoim, pipoca, mel de abelha uruçu e, como não podia faltar, uma meiota de cachaça. Eles adoravam. O chefe da sacizada, um indivíduo mais taludo e com cara de poucos amigos, afeiçoou-se a Zé Ronald — e que amizade! Esse chamego deve ter sido por conta de uma bandeira do MST que meu amigo trouxe para o chefão, e este, o saci-mor, cortou a flâmula em pedaços e fez bandanas para ele e os mais chegados.

Zé Ronald, como eu, deve estar também tristonho, pois um outro parceiro dessas aventuras não está mais conosco. Deve, a essa altura do campeonato, estar de prosa com anjos, arcanjos e querubins. Sim, Thomas Bruno está fazendo uma falta danada por aqui e seria testemunha qualificada deste depoimento. Ele e Zé Ronald sempre tiveram a vocação de fazer este mundo mais colorido e cheio de fantasia.

Mas finalizo meus rabiscos nestas mal traçadas linhas, desejando pronto restabelecimento a esse meu parça querido, de prosa e de copo. Forte abraço, Zé Ronald.

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