Ao longo da história da humanidade, a instrumentalização da falsidade tem sido estruturada para construir a ideia do inimigo, frequent...

Falsidade e controle social

Carl Schmitt propaganda marketing sociologia jacques ellul
Ao longo da história da humanidade, a instrumentalização da falsidade tem sido estruturada para construir a ideia do inimigo, frequentemente por meio de ideologias perversas e de formas de religiosidade discriminatórias. No século XX, a propaganda adquire uma dimensão ainda mais robusta, sendo utilizada para tornar invisível o bem comum e substituí-lo por uma realidade artificialmente fabricada.

Nesse contexto, a força coercitiva de regimes autoritários direciona o indivíduo a um estado em que a distinção
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Carl Schmitt, jurista, filósofo e teórico político alemão, conhecido por suas ideias influentes e controversas sobre poder, soberania e política ▪️ Fonte: trafo.hypotheses.org
entre bem-estar social e ficção deixa de existir. O falso, então, torna-se estrutural: dissolve o senso de verdade, naturaliza o ódio e atua no controle social. Essa dinâmica pode ser compreendida por meio da teoria da construção do inimigo, elaborada pelo jurista e filósofo alemão Carl Schmitt (1888–1985), em sua obra O Conceito do Político, publicada em 1932. Nela, o autor defende que um dos princípios do político é a distinção entre amigo e inimigo, isto é, a compreensão de como uma narrativa falsa ou propaganda deve ser mobilizada para intensificar antagonismos. Nesse processo, a falsidade demonstra sua capacidade de impor práticas de violência e até de extermínio contra povos, nações ou países.

Jacques Ellul, sociólogo, filósofo, teólogo e jurista francês, em sua obra Propagandas: Uma análise estrutural, publicada em 1962, sustenta que a propaganda está vinculada ao funcionamento da sociedade tecnológica. Nesse sentido, as mensagens ideológicas configuram-se como um ambiente que molda percepções, atitudes e comportamentos. Uma das teses centrais do autor é a concepção da publicidade como um sistema contínuo e onipresente. Para Ellul, ela não se reduz a slogans ou campanhas isoladas; trata-se de uma técnica difusa que deve ocorrer no cotidiano e influenciar a formação da consciência. Esse fenômeno de estar concomitantemente presente em todos os lugares contribui para a supressão do pensamento crítico, levando a pessoa a internalizar valores e padrões sem reflexão.

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Jacques Ellul, sociólogo, filósofo, teólogo protestante e jurista francês, conhecido por suas reflexões críticas sobre a sociedade moderna, especialmente sobre tecnologia e propaganda ▪️ Fonte: museeprotestant.org
No plano tipológico, Ellul estabelece uma distinção entre propaganda de agitação e propaganda de integração. A primeira está associada a movimentos revolucionários e busca mobilizar as massas para a ruptura com a ordem vigente. A de integração, predominante nas sociedades tecnológicas, prioriza adaptar a pessoa aos padrões estabelecidos, com a finalidade de promover conformidade com os modos de vida, produção e consumo. Essa modalidade funciona de maneira mais sutil e eficaz na manutenção da ordem social.

Outro conceito relevante desenvolvido pelo autor é o de propaganda política e sociológica, sendo a segunda uma inovação conceitual para entender a sociedade tecnológica moderna. A propaganda política, também denominada “direta”, refere-se ao modelo tradicional utilizado por governos, partidos, administrações e grupos de pressão, com o objetivo de influenciar opiniões, atitudes e comportamentos em curto ou médio prazo. Caracteriza-se por ser uma ação consciente, organizada e explícita, frequentemente estruturada de forma vertical — isto é, das instâncias de poder para a base social —, visando à obtenção de respostas imediatas ou ações táticas. Exemplos desse tipo de propaganda incluem campanhas eleitorais, propaganda de guerra e slogans partidários.

A propaganda sociológica, também denominada “pré-propaganda”, consiste em um fenômeno difuso, enraizado no ambiente social, que atua na formação de estilos de vida, valores e visões de mundo. Seu principal objetivo é criar uma atmosfera favorável à aceitação de determinadas ideias, ajustando os indivíduos aos padrões da sociedade tecnológica.

Diferentemente da propaganda política, caracteriza-se por seu caráter lento, contínuo e de longo prazo, operando, muitas vezes, de forma inconsciente ou naturalizada. Exemplos dessa modalidade incluem a publicidade, o cinema, a educação, a cultura de massa e a crença no progresso tecnológico. Ellul argumenta que a propaganda política não funciona sem a propaganda sociológica. Esta organiza o espaço social ao criar o clima e os reflexos psicológicos necessários para que a propaganda política direta seja aceita e eficaz. Ambas são formas de propaganda de integração, necessárias para o funcionamento da sociedade tecnológica contemporânea.

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O livro Propagandas: Uma análise estrutural apresenta outras distinções entre propaganda vertical e horizontal — sendo a primeira estruturada na comunicação de autoridades para as massas; a segunda fundamentada na circulação de ideias entre grupos de pares —, bem como entre propaganda racional e irracional, referentes, respectivamente, ao uso de argumentos lógicos e factuais ou à mobilização de emoções, mitos e símbolos.

Jacques Ellul enfatiza que o objetivo da propaganda não se limita à transformação de opiniões, mas à indução da ação. Nesse processo, emerge o conceito de “ortopraxia”, entendido como viver, na prática, o que se crê. A propaganda, portanto, orienta o indivíduo a agir de acordo com os padrões esperados, os quais garantem a funcionalidade do sistema social e tecnológico. O autor também apresenta uma crítica aos mecanismos de influência e controle nas sociedades modernas. Ao evidenciar o caráter difuso, contínuo e estrutural da propaganda, Ellul denuncia seus efeitos sobre a autonomia do cidadão, destacando os desafios impostos à preservação do pensamento crítico em um mundo cada vez mais inflamado por falsidades e violências, e mediado por dispositivos técnicos.

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