São pequenos feixes de luz em castanho, negro, verde, azul, caramelo, mel. São misteriosos avisos para serem desvendados, clamam por terem ...

Faróis da alma


São pequenos feixes de luz em castanho, negro, verde, azul, caramelo, mel. São misteriosos avisos para serem desvendados, clamam por terem os segredos revelados. Incansáveis percebem qualquer movimento, capturam sombras e sonhos ainda no ar. Sentinelas da guarda permanente da alma, vigilantes da insana ânsia por descobrir. São faróis no oceano infinito, percorrem pegadas deixadas pelo luar no mar em rastro prateado

À noite, mais ainda, são como armadilhas lançadas de catapultas para captura de outros seres, iscas faceiras recheadas de malícia para conquistar outras luzes. São fatais quando misturados a um bom vinho. São puro desejo à meia luz, ao luar. Formam cenários pinçados de páginas de romances clássicos e banais, folhetins espalhados embaixo das marquises do Ponto de Cem Réis em tempos idos.

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Poderosos, têm o dom de penetrar o corpo, gelar a espinha, mergulhar no desfiladeiro do íntimo d'outros seres postos à sua frente. E sem tocar conseguem tirar-lhes a roupa, acariciar-lhes a pele, desnudar-lhes o sorriso tímido, jogá-los à lona ou à cama.

São ameaçadores se lhes for negada a chave do coração, largados fora da caixa de batimentos. Se trancados atrás de grades ou amordaçados com lenços, ficam atônitos. Sim, são cachoeiras por vezes de tristezas ou alegrias, ou por coisa pouca, um cisco permanente chamado saudade. Lubrificados brilham mais, ganham novos contornos, tons diferentes, como final de tarde na linha do horizonte.

São sábios. Sabem obter as respostas das profundezas, torturam sem deixar cicatrizes, só as invisíveis. Se emoldurados percebem mais, ou saem do foco. Desastre in loco, cabeça virada ou mesmo sobre o nariz, eis que são lentes sem consenso.

Quando piscam são apaixonantes e buscam o reflexo dos pares, a carta perfumada do vento no rosto, a magia de algo novo. Conquistados e conquistadores, avançam quase antropofágicos para saborear o outro. E mastigam sem dentes a essência da desconstrução de outrem.

Por vezes são loucos. Lançam indagações crônicas, torturantes, desarmônicas, aos montes. Às vezes, são vermelhos, seja por transformação ou pelas nuvens da fumaça ao seu redor. Zumbis da madrugada ou da manhã da noite varrida e errante, que desemboca na manhã da extrema luz, são quase extrema-unção.

São perdidos ao se fecharem na última olhada, o fim de tudo ou o do quase nada, apenas piscadela ao passar por um novo túnel de uma longa estrada. Quem sabe, eis o momento do encontro...


Clóvis Roberto é jornalista e cronista
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  1. Constantino Macedo29/4/20 14:02

    Ótimo texto. Parabéns ao autor.
    Como se diz por ai: os olhos são as janelas da alma.

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    1. Obrigado Constantino. E que janelas fantásticas.

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