Meu amigo João , com quem discuto temas graves da geopolítica, passou a gostar de uísque puro, ao estilo caubói. Meus 80 anos requere...

O meu com gelo

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Meu amigo João, com quem discuto temas graves da geopolítica, passou a gostar de uísque puro, ao estilo caubói. Meus 80 anos requerem a diluição dessas doses em gelo, muito gelo. O que ele propôs, quando do nosso recente encontro, foi um brinde com gosto de despedida, o toque dos copos como se fosse o último.

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João acha que a pulverização de todos os seres vivos pode se dar, neste planeta, a qualquer momento. Arrisquei um contraponto: “Vivi esse perigo em 1962, ainda meninote, quando John Kennedy determinou à sua Marinha de Guerra o cerco a Cuba e o afundamento de navios soviéticos dispostos a aportar em Havana”.

Dona Madalena não sabia disso. Ao contrário do marido, as guerras nunca foram assunto da sua predileção. Mas largou alguns pratos sujos na pia interessadíssima no tema que, de repente, lhe dizia respeito. Viu-se, instantaneamente, na pele de um dos 8,2 bilhões de seres humanos em risco de extermínio. A pia que esperasse.

Tentei não agravar seus temores. Contei-lhe que, em 1962, a aviação americana fotografou escavações em solo cubano interpretadas pelo Pentágono como instalações para mísseis russos com ogivas nucleares a cem milhas da Flórida. E que, na ocasião, a diplomacia mundial interveio, o Papa enfiou o bedelho e as
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coisas se aquietaram com o aperto de mãos entre Kennedy e Nikita Kruschev. Os dois líderes mundiais concordavam, então, com a desativação simultânea de parte de suas bases militares em pontos estratégicos. A diplomacia, que antes funcionou muito bem, pode voltar a funcionar agora.

E lá veio João, impiedoso: “Aqueles eram tempos diferentes. Com a Europa em frangalhos, os dois países emergiram da Segunda Grande Guerra como superpotências. O fatiamento do mundo dava-se, então, por igual, cada qual com seu pedaço, até o desmantelamento da União Soviética. Até ali, a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte para o Leste Europeu era coisa impedida por acordo mútuo posteriormente quebrado”.

Meu amigo lembrou que a guerra por procuração na Ucrânia decorre da insatisfação russa com a possibilidade de ter foguetes ocidentais a 300 quilômetros de Moscou. Ou a Ucrânia desistiria do ingresso na Otan, ou seria invadida, o que, de fato, aconteceu.
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“Temos de volta a encrenca de 1962 com endereço trocado e um Império em queda acentuada, mas disposto a cair atirando”, observou ele. Pressentindo que a história iria de mal a pior, a dona da casa voltou aos seus pratos.

Entre nós dois a conversa iria passar pela Doutrina Monroe (a proclamação das Américas para os americanos feita em 1823 pelo velho James e agora reafirmada por um sujeito da cor de laranja), pelo acordo de Bretton Woods, o tratado que em 1944 estabeleceu a ordem monetária e financeira do pós-Guerra tendo o dólar como moeda global, e pelo fim da conversabilidade do mesmo dólar em ouro, coisa de Nixon, em 1971.

Isso, depois dos acertos com a Arábia Saudita que redundaram no petrodólar. Ou seja, em troca de proteção militar, os sauditas venderiam petróleo, exclusivamente, em dólares americanos, o que forçou a demanda pela moeda e sua consolidação como reserva global, mesmo sem lastro em ouro. Eis que, agora, lá vem a China com seus yuans e seus investimentos em infraestrutura
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não recusados pelo príncipe herdeiro que lidera as iniciativas de modernização e a política externa do País. Ouvi de um analista da geopolítica que esse terremoto tem a equivalência daquele que derrubou o Muro de Berlim e remodelou o mundo. O petrodólar passou a respirar com a ajuda de aparelhos.

É claro que a velha situação não se sustentaria para sempre. Detentor, hoje, da maior dívida da história das nações – algo do tamanho de impagáveis US$ 38 trilhões –, Tio Sam passou a imprimir dólar a três por quatro. Afinal, era e é dono da impressora. A inflação disso resultante cairia no lombo do restante de um mundo agora em luta pela multipolaridade.

João lembrou que a China, que já foi detentora do maior volume de títulos do Tesouro Americano (algo em torno de US$ 1,3 trilhão), hoje ocupa a terceira posição no ranking dos compradores, depois do Japão e Reino Unido. E continua a vender esses ativos atualmente reduzidos a US$ 759 bilhões.

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A briga sem regras nem tréguas pela manutenção do antigo modelo político e econômico mundial deu no que deu: na desconfiança de um sistema onde o dólar virou arma de guerra, no confisco de ativos financeiros de países diversos (a Rússia sozinha perdeu mais de US$ 300 bilhões), na imposição de sanções a amigos e inimigos e, em contrapartida, no fortalecimento de um poderoso bloco alternativo. Podemos chamá-lo de Brics.

O fato é que os Brics, acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (assim denominados pelo economista britânico Jim O’Neill, homem do Grupo Goldman Sachs) já abrigam onze países e têm outros 40 a caminho da parceria. É bloco que já representa 35% do PIB global, concentra mais da metade da população do mundo, comercializa em moedas nacionais e mantém banco próprio com reserva de US$ 100 bilhões.

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A conversa com meu amigo não terminou sem menção a outros acontecimentos ruidosos. As guerras pontuais, o abandono da Europa à própria sorte (ela que cuide da Ucrânia), as ameaças ao México, o propósito de anexação do Canadá e o da ocupação da Groelândia manifestados pelo Laranjão estiveram no nosso cardápio. Assim, também, a presença de submarinos e navios russos nas águas ferventes do Caribe. Ainda, a aprovação majoritária da União Europeia ao projeto de integração ao Mercosul e, há pouco, o desejo de Portugal de integração aos Brics. João contou-me que a Espanha também já põe o pé nesse caminho. A França estrebucha.

O problema é que nenhum Império cai dando adeus. Cai brigando, como assim tem demonstrado a história universal. Poderíamos inverter o provérbio: Roma não feneceu num dia.

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Não cheguei a contar ao meu amigo, posto que a coisa se deu depois da nossa conversa, que exemplares novos do B-21 Raider, o bombardeiro estratégico dos EUA, intensificaram seus voos com decolagens sucessivas da Base Aérea de Edwards, na Califórnia. Esses bichos utilizam tecnologia furtiva. Aparecem nos radares como se fossem passarinhos inocentes e inofensivos.

Para engrossar o caldo, a Rússia despachou, semana passada, um Oreshnik, seu míssil hipersônico, contra instalações ucranianas próximas da fronteira com a União Europeia, zona da Otan. O troço voa em velocidade dez vezes superior à do som, pode transportar cargas nucleares, tem alcance de cinco mil quilômetros e carrega seis ogivas capazes de manobrar por conta própria tomando destinos variados. Foi pura intimidação, pois não continha explosivos. Foi um aviso, coisa do tipo: “Vejam bem, podemos alcançar vocês”. A China, por sua vez, realizou com sucesso o voo inaugural do seu caça invisível J-35.

Tem razão o meu amigo. Quaisquer dos nossos drinques podem mesmo ser os últimos. Quero o meu com gelo, por favor.

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