Somos todos poetas. Quem nunca escreveu um verso, ou pelo menos uma quadrinha para alguém que admira? Confesso que muitas vezes tentei e ig...

A obstinação dos poetas


Somos todos poetas. Quem nunca escreveu um verso, ou pelo menos uma quadrinha para alguém que admira? Confesso que muitas vezes tentei e igualmente vã foi minha experiência. Quem lê poesia é o poeta que não escreve poesia, disse alguém.

Cedo houve uma tentativa de ver meu nome na capa de um livro de poemas. No redemoinho dos quarenta anos de idade, em desobediência a Nathanael Alves que me pedia cautela antes publicar algum livro, como ele havia procedido na juventude, na insistência de Nonato Guedes, há vinte e seis anos, coloquei asas na minha produção de poemas.

Não renego o que publiquei, até porque foi prazeroso, com boa acolhida.

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W. J. Solha
O poeta, artista plástico, ator e romancista Waldemar José Solha, com a visão universal que lhe é peculiar, à época falando da minha poesia, sapecou um punhado de palavras elogiosas que me deixou tonto, comparando-me ao que faziam os antigos pintores chineses que, com poucas pinceladas numa tela em branco, diziam muitas coisas. Recolhi-me, escondendo as palavras a respeito daquilo que o autor de “Israel Rêmora” tinha escrito sobre meu livro. Afinal, sou um poeta que ler poesia mais do que escreve.

De poeta bissexto na juventude imitador dos românticos, escrevendo sobre o choramingar do coração, continuei dando asas à imaginação, colocando no papel o produto das lucubrações, aquilo que não conseguia reter comigo. Na época em que foi publicado “Lira dos 40 Anos”, tinha esperança de tocar na sensibilidade da musa que me inspirava. Meia dúzia de leitores, igualmente apreciadores de poesia, deu guarida ao que publiquei.

A partir daí, então, recolhia ao silêncio das gavetas a poesia que produzia. Lendo mais do que escrevendo, consumia meu tempo a descrever outras paisagens da literatura.

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Nathanael Alves
Não dando cabimento nos conselhos de Nathanael, encontrei em Horácio o ensinamento como conforto que tanto esperava, pois o mestre dos mestres afirma que “o trabalho do poeta não se restringe ao momento singular da criação, mas representa o acúmulo da experiência criativa”. Uma bofetada em tudo o que tinha feito. Mesmo assim insisti na publicação das poesias. Vinte e seis anos depois, eu continuo satisfeito porque publiquei aquele livrinho, mas relendo agora os poemas com olhar crítico, constato que alguns merecem reparo. Nathanael tinha razão.

O tempo passou, voltei-me a outras ocupações literárias, enveredei pela pesquisa acerca do passado de minha cidade e seus habitantes, de minha família, consumindo o tempo escrevendo sobre o que pesquisava. Mas sem nunca abandonar de vista a poesia, algo prazeroso de ler.

Tempos atrás, quando menos esperava, novamente estava produzindo poesia. A Musa que desde cedo amava, trouxe-me a inspiração para cantar os ímpetos da alma na voz da terra e dos rios. Poemas que às vezes são incursões autobiográficas, contendo a visão do relacionamento entre duas pessoas que o tempo se encarregou de modelar.


José Nunes é poeta, cronista e membro do IHGP
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