Os tipos populares escasseiam em nossas ruas. Marreteiro era descendente de escravos, vendedor ambulante. Carregava nos fortes ombros o pes...

O profeta da estação

jose leite guerra profeta negro ambiente de leitura carlos romero

Os tipos populares escasseiam em nossas ruas. Marreteiro era descendente de escravos, vendedor ambulante. Carregava nos fortes ombros o peso de dois balaios apinhados de frutas.
jose leite guerra profeta negro ambiente de leitura carlos romero
Apinhados, literalmente. Pinhas, sapotis, algumas bananas. Fazia ponto na antiga Estação Ferroviária (a Great-Western).

Sobre o sensualismo de Drummond e a presença do erotismo em sua poesia muito se tem escrito. E é fato. O poeta foi sempre muito sensível às...

Uma vitória de Eros

francisco gil messias erotismo drummond ambiente de leitura carlos romero

Sobre o sensualismo de Drummond e a presença do erotismo em sua poesia muito se tem escrito. E é fato. O poeta foi sempre muito sensível às coisas de Eros e o revelou desde o começo. Lá no primeiro poema (Poema de Sete Faces) de seu primeiro livro (Alguma poesia) já se vê o registro explícito do sexo como algo incontornável: “As casas espiam os homens/que correm atrás de mulheres./A tarde talvez fosse azul/não houvesse tantos desejos.”.

francisco gil messias erotismo drummond ambiente de leitura carlos romero
Concluída a obra poética de Drummond, os estudiosos tendem a dividi-la em quatro fases, facilmente identificáveis para o leitor mais atento. A primeira (Alguma poesia e Brejo das almas), é a do conflito com o mundo, a do gauche, a do coração do poeta esquivo maior que o mundo. A segunda (Sentimento do mundo, José e A rosa do povo) , a do diálogo com o mundo, da inserção social do poeta na realidade, a do poeta engajado, em que seu coração fica do tamanho do mundo. A terceira (Claro enigma, Viola de bolso, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição de Coisas, A falta que ama, As impurezas do branco, Discurso de primavera, Boitempo e A paixão medida), a da introspecção metafísica, da “viagem ao interior de si mesmo”, na qual o coração do poeta se reconhece menor que o mundo, nele não cabendo nem suas próprias mágoas, vejam só. E finalmente a quarta fase (Corpo, Amar se aprende amando e O amor natural), a da velhice ou quase velhice, em que o poeta canta o amor, o corpo e o sexo em todo seu esplendor vital, num verdadeiro desafio a Tânatos, que se aproximava. E aí temos (em O amor natural), sem nenhum pudor, mas com extrema elegância, os versos do poema “Amor – pois que é palavra essencial” ( poema)

Como bem observou Antonio Carlos Villaça, nessa fase outonal, no limiar da velhice, “Não é mais o individualismo tenso e triste, de Belo Horizonte outrora, na juventude inquieta e insatisfeita. Não é mais a guerra com a batalha de Stalingrado. Não são mais os edifícios. Não é mais a reflexão existencial. Agora, é o diálogo com o corpo, renovado.”. Agora (então) é a assumida celebração da sensualidade cultivada, afirmação impetuosa da vida perante a morte ameaçadora.
Fiquei embasbacado, observando-o, até ele desaparecer em meio à multidão

No coração de Drummond de fato couberam muitos amores. Ele estava sempre atento aos encantos femininos, em todo lugar. Não que fosse rudemente galinha. Não. Ele era antes de tudo um esteta especial, sensível aos apelos de mulheres interessantes, não necessariamente belas. Seus casos mais conhecidos foram com Eneida, a paraense intelectual, com Célia Neves e com Lígia Fernandes, esta última uma relação de mais de trinta anos, presenciada por mim, por puro acaso, ora vejam, já no ocaso do poeta. Estava eu uma tarde de sábado na Visconde de Pirajá, em Ipanema, quando avistei, ao longe, um casal que vinha em minha direção, pela calçada. Era um senhor visivelmente idoso, elegante, de “blaser”, de braço dado com uma senhora aparentando meia-idade. Achei-o parecido com Drummond, que conhecia apenas de fotografia, e fiquei curioso, prestando atenção. À medida que o casal se aproximava, constatei que era ele realmente. O coração bateu forte. Não acreditei. Mas era verdade. O poeta aproximou-se sem pressa, passou por mim, bem próximo, e seguiu adiante. Fiquei embasbacado, observando-o, até ele desaparecer em meio à multidão. Como diria Bandeira, foi um alumbramento.

Aqui é importante registrar que, a despeito de seu coração imenso, o poeta nunca deixou de amar Dolores, a esposa que um dia quis deixá-lo. Mas ele pediu-lhe para ficar (“Que seria de mim sem você?”) e ela aceitou, até o fim. Mulher sábia.

francisco gil messias erotismo drummond ambiente de leitura carlos romero
É muito interessante essa sensualidade de Drummond, um homem sabidamente tímido, reservado, de poucos derramamentos emotivos. É um daqueles casos em que uma coisa não combina com a outra. Quem não o conhecesse mais de perto e o visse na rua, ensimesmado, não adivinharia nunca o alegre fauno que havia nele.

E um detalhe: a publicação dos poemas eróticos drummondianos não se deu de repente, de uma só vez, já em livro. Não. Ela foi se dando aos poucos, um poema aqui, outro acolá, dados a público em revistas masculinas da época. O fato é que havia uma espécie de “patrulha” moral conservadora que inibia a publicação ostensiva de tais poemas, como se eles atentassem contra a respeitabilidade do poeta consagrado. Nesse sentido, um livro como “O amor natural”, totalmente dedicado à louvação de Eros, representou a corajosa libertação do poeta da referida censura.

Enfim, sabemos todos que, na vida, a vitória final é sempre de Tânatos. E talvez seja melhor assim, para que o homem não cultive a soberba. Mas na poética de Drummond constata-se, sem dúvida, um derradeiro triunfo de Eros, deus poderoso que pairou sobre ele até mesmo quando o seu velho corpo já não correspondia aos seus ímpetos. É o que se vê, bela e melancolicamente, no poema “Restos”, do livro que encerra oficialmente sua obra, “Farewell”, com o que, em negrito, encerro, reverente, este breve texto:

O amor, o pobre amor estava putrefato.

Bateu, bateu à velha porta, inutilmente.

Não pude agasalhá-lo: ofendia o olfato.

Muito embora o escutasse, eu de mim era ausente.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB

Ancianidade Sinto na alma A ancianidade das montanhas, E nos ombros pesam A passagem do tempo.

Dois poemas

volia loureiro ancianidade portugal ambiente de leitura carlos romero


Ancianidade

Sinto na alma

A ancianidade das montanhas,

E nos ombros pesam

A passagem do tempo.

Todos os idosos se parecem; alguns aproveitam a alegria do presente, outros, atingidos pela “caduquice”, andam de braços com a saudade, viv...

O tão presente passado

Ana Paula Cavalcanti Ramalho lembrancas engenho ambiente leitura carlos romero

Todos os idosos se parecem; alguns aproveitam a alegria do presente, outros, atingidos pela “caduquice”, andam de braços com a saudade, vivem seu passado como se fosse o presente, enquanto o presente lhes parece alheio.

Após a reforma no calendário romano, realizada por Júlio César, com a ajuda do astrônomo grego Sosígenes , em 46 a. C., o mês de fevereiro,...

O dia bissexto

milton marques dia ano bissexto calendario ambiente de leitura carlos romero

Após a reforma no calendário romano, realizada por Júlio César, com a ajuda do astrônomo grego Sosígenes, em 46 a. C., o mês de fevereiro, a cada 4 anos, passou a ter 29 dias, de modo a completar com perfeição a órbita da terra ao redor do sol (na época pensava-se o contrário, óbvio). No entanto, mesmo depois do calendário juliano e enquanto permaneceu a contagem tradicional dos dias pelos romanos, nunca existiu o dia 29 de fevereiro.

Na tarde de um dia com chuva que nos faz recolher ao aconchego da rede preguiçosa, passeando pelos círculos sociais, percebo um texto me ch...

A arte e os seus espinhos

arte e espinhos jose nunes ambiente de leitura carlos romero

Na tarde de um dia com chuva que nos faz recolher ao aconchego da rede preguiçosa, passeando pelos círculos sociais, percebo um texto me chamou a atenção. Não conheço a pessoa que o escreveu, mas muito gostaria de parabenizá-la pelas colocações acerca da arte, porque trouxeram salutares reflexões, como um manto a agasalhar as inquietações de minha alma.

Há mais ou menos 100 anos, a radiodifusão irrompeu no mundo criando novos paradigmas para a Comunicação. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht...

Réquiem para o coronelismo midiático

josinaldo malaquias decadencia midia tradicional ambiente de leitura carlos romero

Há mais ou menos 100 anos, a radiodifusão irrompeu no mundo criando novos paradigmas para a Comunicação. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht saudou o novo meio como uma concretização da ágora ateniense, ou seja, um espaço para a participação democrática em todas as esferas da vida, por intermédio da livre manifestação da opinião.

National Gallery! Para que se tenha ideia aproximada do espaço ocupado pelas 2.300 obras da Galeria Nacional, que se impõe ante a Praça Tra...

Apenas um museu como esse…

national gallery londres solha ambiente de leitura carlos romero

National Gallery! Para que se tenha ideia aproximada do espaço ocupado pelas 2.300 obras da Galeria Nacional, que se impõe ante a Praça Trafalgar, parei no centro dele e, ao me voltar para a série de salões a oeste, portas afora, depois para outro tanto delas a leste, eu disse:

O trato continuado com a ensaística de Ângela Bezerra de Castro não dá margem a assomos de surpresa com a sua poesia. Ela não tem feito ou...

Síntese e confissão

gonzaga rodrigues angela bezerra castro ambiente de leitura carlos romero

O trato continuado com a ensaística de Ângela Bezerra de Castro não dá margem a assomos de surpresa com a sua poesia. Ela não tem feito outra coisa, desde que se dedica ao cultivo literário, senão exercícios de percepção poética. Se o resultado ganha a aparência de ensaio ou discurso, não seja por isso, pela forma comum, que ele se dissocie do conteúdo poético. Boa parte das pessoas que se confessaram surpresas com aquele mínimo de espaço transbordante de poesia, trazido a público no blog de Germano Romero, se disso não sabiam, bem o pressentiam.

O relacionamento humano saudável não pode prescindir da reciprocidade. O conceito de que a convivência entre as pessoas deve ser pautada nu...

A reciprocidade

rui leitao reciprocidade ambiente de leitura carlos romero

O relacionamento humano saudável não pode prescindir da reciprocidade. O conceito de que a convivência entre as pessoas deve ser pautada num espírito de solidariedade é de enorme valor para a harmonia social. Estamos sempre na dependência uns dos outros, e essa compreensão faz com que devamos estar permanentemente dispostos a retribuir os favores que recebemos.

Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. ...

O céu na terra

Alberto Lacet Ambiente de Leitura Carlos Romero

Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. Mas tinham, isso sim, começado a cair, de tão gordos. Simplesmente despencavam do alto e esborrachavam o papo no chão. Nos lajedos. Na lama esturricada da vazante.

Cinco vezes! Foram 5 chances para se evitar tal absurdo. Mas a burocracia, a desatenção com os idosos, a indiferença com os mais velhos, o ...

O peru do Dr. Vavá


Cinco vezes! Foram 5 chances para se evitar tal absurdo. Mas a burocracia, a desatenção com os idosos, a indiferença com os mais velhos, o descaso com um ancião, concorreram para o disparate.

Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

Labirintos

labirintos adriano leon ambiente de leitura carlos romero

Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

Nem tanto mais imponente, mas desafiante do esquecimento que a persegue nas últimas décadas. Para olhos atentos, ela fornece pinturas, em m...

A velha ponte

ponte do baralho joao pessoa clovis roberto ambiente de leitura carlos romero

Nem tanto mais imponente, mas desafiante do esquecimento que a persegue nas últimas décadas. Para olhos atentos, ela fornece pinturas, em meio à chuva, no rasgar do sol matinal, na penumbra vespertina. Muitas vezes se transforma em ouro ao deixar-se tocar pelos raios das primeiras e últimas horas do dia.

No tempo em que se usava relógio de algibeira se deu o fato que vou narrar. Era elegante puxar a corrente e trazer à vista o redondo e trab...

Relógio de algibeira

jose leite guerra ambiente de leitura carlos romero

No tempo em que se usava relógio de algibeira se deu o fato que vou narrar. Era elegante puxar a corrente e trazer à vista o redondo e trabalhado relógio de metal precioso. Um esnobismo que foi desaparecendo com o surgimento dos relógios de pulso. Atualmente, o celular faz tudo, inclusive marcar as horas. Mas, vamos à história propriamente dita.

Certo senhor de posses, dono de uma das lojas de bom porte, detentor de vultosa fortuna escondida nos bancos, morador de uma grande e confortável residência, saía, a pé, cada manhã para a sapataria de sua propriedade. Imaculadamente trajando branco, terno de linho puro, chapéu de linha, lenço no bolso do paletó, sapatos engraxados. Cumprimentava as pessoas de forma mecânica, por educação, mas sem aquele sabor de quem gosta de se entrosar com os conhecidos da rua onde morava ou passantes. Um pernóstico. Gabava-se de sua riqueza e principalmente do relógio de algibeira importado - fazia questão de acentuar – em ouro maciço, feito por encomenda e personalizado, inclusive com seu nome gravado. O único do planeta. Não vou revelar a identidade do dono, posto ser falta de ética desmesurada, e seria correr o risco de alguém ainda sobrevivente de sua prole elástica ainda estar no meio de nós.

Numa dessas manhãs, logo que dobrou a esquina rumo à loja, não notou ser acompanhado por um homem do povo, a certa distância. Jamais desconfiaria ser seguido por um larápio ou gente que lhe pudesse fazer o mal. Jamais. Na cidade todos o conheciam, inclusive o tal humilde personagem. Este logo se aproximou do ricaço e o cumprimentou com naturalidade, dizendo-se freguês, entrou na sapataria, experimentou um calçado, pagou e saiu. Iria estrear o sapato no casamento da filha. Mas o freguês tinha maléfica intenção que logo mais se saberá.

Próximo, havia uma feira livre extensa. O comprador do sapato, cujo nome omito por motivo óbvio, se aproximou de alguns perus e adquiriu o mais nutrido. Foi-se com a ave debaixo do braço em direção à bela mansão do vendedor de calçados. Chegou-se ao portão de ferro, bateu palmas. Veio atendê-lo a esposa do rico comerciante:

“Que deseja?” Ele respondeu, prontamente, na maior naturalidade:

“Seu digníssimo esposo mandou entregar este peru e pediu que lhe mandasse o relógio de algibeira que ele esqueceu”. A senhora mandou que um dos empregados recolhesse o peru e trouxe a peça, entregando-a ao emissário, em confiança. Agradeceu ao portador com alegria.

Quando o marido chegou para o almoço, a esposa contou o fato. Ele ficou totalmente surpreso. De nada tinha conhecimento. Apenas que esquecera, realmente, o famoso relógio, pois saíra apressado. Ficou perdido em suposições. Aquele perseguidor era um ladrão fino e inteligente. Notara que ele, dono da sapataria, se esquecera de levar na algibeira a raridade. Astuto o rapaz. O valor do peru estava aquém do portentoso marcador de horas fornido a ouro maciço...


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista

A ARAPONGA A Sérgio Faraco carcereira, abre a lingueta da garganta e aperta-me o cerco: o canto que a liberta dos ferros...

Oito poemas

sergio de castro pinto poemas animais ambiente de leitura carlos romero



sergio de castro pinto poemas animais ambiente de leitura carlos romero
A ARAPONGA

A Sérgio Faraco

carcereira,

abre a lingueta

da garganta


e aperta-me o cerco:


o canto

que a liberta

dos ferros

O rapaz se chamava Josué e tinha cavalgado quatro léguas para assistir a primeira missa do domingo na Matriz de Nossa Senhora das Mercês. E...

A missa de Josué

celio furtado amor perdido ambiente de leitura carlos romero

O rapaz se chamava Josué e tinha cavalgado quatro léguas para assistir a primeira missa do domingo na Matriz de Nossa Senhora das Mercês. Era uma manhã deserta e silenciosa porque não havia ninguém pelo caminho e também porque nada parecia importar, a não ser os pensamentos que lhe martelavam o coração, assim como os cascos do cavalo nas folhas secas do terreno arenoso. Nem a beleza da névoa azulada que pouco a pouco se dissipava através dos galhos e folhagens das árvores que margeavam a estrada parecia importar. E nem mesmo o último mata-burros sombreado por frondosas algarobas e touceiras de aveloses que chamavam a atenção pela exuberância e onde havia uma casa secular com janelinha perto da cumeeira e telhado com chaminé, parecia importar.

Quando penso ter esgotado todo o acervo de orações, vejo que a sintonia com o Alto é infinta como a Inteligência Suprema. Mesmo respeitand...

Convite à prece


germano romero convite prece ambiente de leitura carlos romero

Quando penso ter esgotado todo o acervo de orações, vejo que a sintonia com o Alto é infinta como a Inteligência Suprema. Mesmo respeitando preces historicamente tradicionais, como a de Cáritas, São Francisco, Pai Nosso, Credo, Ave-Maria e outras, o conceito de oração não se reflete exatamente em repeti-las. Ainda que, como atestam estudiosos do magnetismo e das energias vitais, o “Pai Nosso” tenha o poder de um mantra.

O nome da teoria não deixa de ser estranho: de tudo. Mas é o apelido que renomados cientistas, no campo da Física, denominam a teoria “que ...

Teoria de Tudo

teoria de tudo espiritismo ambiente de leitura carlos romero

O nome da teoria não deixa de ser estranho: de tudo. Mas é o apelido que renomados cientistas, no campo da Física, denominam a teoria “que visa resumir em um único conjunto de equações a origem e a natureza do cosmo, assim como as forças contidas nele” - esclarece o inglês Robert Mattheus, físico-matemático, pesquisador e repórter científico.

teoria de tudo espiritismo ambiente de leitura carlos romero
A teoria propõe unir o micro e o macrocosmo, sendo também denominada Teoria da Grande Unificação (TGU). Essa união consiste em provar, na prática, o que os cálculos já revelam: a existência de uma matéria primordial, encontrada tanto no Universo quanto no átomo. Para demonstrá-la é preciso unir os métodos de estudo do Universo com os das partículas atômicas.

Natacha Rostóva, na sua ingenuidade de criança, aliada a uma vida fátua de aristocrata, embora em franca decadência, apaixonava-se com faci...

Apelo à vida

Milton Marques Júnior Guerra e Paz Ambiente de Leitura Carlos Romero

Natacha Rostóva, na sua ingenuidade de criança, aliada a uma vida fátua de aristocrata, embora em franca decadência, apaixonava-se com facilidade. Uma de suas paixões foi pelo príncipe Andrei Bolkónski, com quem chega a ter um compromisso de noivado. Instado pelo pai, Andrei propõe que eles esperem um ano, dando total liberdade a Natacha, durante esse período, até de ela se apaixonar por outro. Se, passado um ano, Natacha mantiver firme a sua decisão, eles se casarão. Por mais que seja duro para ela, Natacha aceita a situação, não sem lamentos.

Flávio Tavares, aos 70, se reinventa. E inventa de alcançar os limites do seu próprio tempo. Elege esses dias de pandemia para sugerir exu...

Flávio salta aos olhos

ambiente de leitura carlos romero juca pontes flavio tavares

Flávio Tavares, aos 70, se reinventa. E inventa de alcançar os limites do seu próprio tempo. Elege esses dias de pandemia para sugerir exultante grafia em forma de poesia. E colhe luz de outros escolhidos e merecidos espelhos seus.

Algumas vezes a revisão do jornal se arrastava até a madrugada. Fosse por algum ato de última hora ou pela onda de oposição que começava a ...

Sobrou o ângulo

gonzaga rodrigues cronica uniao ambiente de leitura carlos romero

Algumas vezes a revisão do jornal se arrastava até a madrugada. Fosse por algum ato de última hora ou pela onda de oposição que começava a abalar a cabeça e os porões do Catete. “Mar de lama”, no discurso de Afonso Arinos, com maremoto no atentado a Lacerda. Na Paraíba mesmo ecoou forte o anátema saído do discurso de um dos nossos senadores, Argemiro de Figueiredo: “É preciso matar este governo para que sobreviva a nação”. O imã dos acontecimentos neutralizava a cantilena dos revisores em cima da prova tipográfica. Dois revisores para cada texto, um escandindo a leitura e o outro correndo os olhos no texto.

Na proximidade do crepúsculo é normal o trabalhador retornar a casa, esperançoso ou ansioso, aguardando o descanso noturno, seja ele reside...

Onde é a nossa casa?

aconchego de casa cronica jose nunes ambiente de leitura carlos romero

Na proximidade do crepúsculo é normal o trabalhador retornar a casa, esperançoso ou ansioso, aguardando o descanso noturno, seja ele residente na cidade ou na roça.

Voltar para casa é o desejo de todos, mesmo que a sua residência seja uma choupana de taipa ou papelão, mas é um cantinho ao qual chamamos de “minha casa”.

Os sebos e suas revelações. Não apenas as raridades bibliográficas que às vezes encontramos surpresos e recompensados. Também certos achado...

Revelações dos sebos

francisco gil messias sebos joao pessoa ambiente de leitura carlos romero

Os sebos e suas revelações. Não apenas as raridades bibliográficas que às vezes encontramos surpresos e recompensados. Também certos achados menos nobres mas não menos pitorescos, com dedicatórias ou autógrafos revelando histórias nem sempre edificantes, histórias de descaso, de desconsideração ou simplesmente de avara ignorância. São muitas as histórias dos sebos.

Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana...

Errata celeste

horoscopo chico viana ambiente de leitura carlos romero

Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.

Uma das angústias da mente curiosa adolescente é saber se um quilo de pedra pesa mais do que um de pena. Tal dúvida angustiante é esclareci...

A pedra e a pena

cronica josinaldo malaquias ambiente de leitura carlos romero

Uma das angústias da mente curiosa adolescente é saber se um quilo de pedra pesa mais do que um de pena. Tal dúvida angustiante é esclarecida a partir do estudo dos rudimentos da Cinemática, parte da Física que estuda o movimento dos corpos.

Todo preconceituoso é falso moralista e tem uma mentalidade promíscua. O pior é que muita gente exerce o preconceito com certo orgulho. Mas...

O preconceituoso

pessoas preconceituosas ambiente de leitura carlos romero

Todo preconceituoso é falso moralista e tem uma mentalidade promíscua. O pior é que muita gente exerce o preconceito com certo orgulho. Mas não deixa de ser uma manifestação de ignorância. Racismo, sexismo, discriminação étnica ou religiosa, são as formas mais conhecidas de preconceito nocivo. E assistimos essa prática encarada com naturalidade por muitos, mas que merece forte reação de quem não compactua com esse tipo de comportamento. Ainda mais quando se observa que o preconceituoso é alguém que deveria dar o exemplo de civilidade e de respeito às diferenças.

Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius – os registros históricos são imprecisos sobre seu nascimento; provavelmente entre 470 e 480,...

Limiares da música

boecio musica medieval ambiente de leitura carlos romero

Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius – os registros históricos são imprecisos sobre seu nascimento; provavelmente entre 470 e 480, possivelmente em Roma, como a maioria defende. Morreu em 524, ao que se acredita, em Pavia, lugar onde repousa seus restos mortais, na basílica de San Pietro in Ciel d'Oro – em seu tratado De Institutione Musica, escrito entre os anos 515 e 520, obra, portanto, de sua maturidade, relaciona a música à conduta ética assim como ao raciocínio puro.

Dizem que na prisão vê-se o Sol nascer quadrado… Decerto porque nas atuais cadeias as janelas têm tal forma. Nas de antigamente, talvez hou...

Lembranças na janela

Germano Romero Ambiente de Leitura Carlos Romero

Dizem que na prisão vê-se o Sol nascer quadrado… Decerto porque nas atuais cadeias as janelas têm tal forma. Nas de antigamente, talvez houvesse algumas redondas, como as náuticas, amoldadas ao Sol, ou sequer existissem. Mas a uma janela não importa geometria de contornos. Elas bastam por si só.

Dos grãos da Rua da Areia , solidificada na Praça da Pedra , a cidade repousa suas histórias. De onde já existiu a Rua Direita , segue suas...

Pelas ruas onde andei

clovis roberto ruas joao pessoa ambiente de leitura carlos romero

Dos grãos da Rua da Areia, solidificada na Praça da Pedra, a cidade repousa suas histórias. De onde já existiu a Rua Direita, segue suas lutas para a Trincheiras, é também nação Tabajara. Em João Pessoa, a velha Parahyba, temos sim história, natureza e cultura marcadas em seus logradouros.

É bonito encontrar ruas que se chamam Adriático, Bering, Mar Vermelho e Oceano Pacífico
E não é só do núcleo histórico central que as ruas seguem trajetos com nomes sem nomes e homenageiam cores, formas, conceitos e flores, viajam por cidades, estados e países. Assim surge um bairro inteiro, com Maranhão, Acre, Rio de Janeiro, Bahia, Amazonas e demais unidades da federação. E tem Avenida Guarabira, que também não é no Brejo.

A Capital tem ainda uma reserva florestal batizando avenidas e ruas. De onde primeiro desapareceram as árvores, o tempo vai destruindo as casas e erguendo prédios. O Anatólia, não da Ásia Menor, da República da Turquia, mas o encravado nos Bancários, tem Baraúnas, Imburanas, Eucaliptos, Ipês, Flamboyants, Castanholas e até Pinheiros. No caso, foram-se as árvores, ficaram os nomes. Melhor que de homens, restou a poesia a batizar o concreto.

clovis roberto ruas joao pessoa ambiente de leitura carlos romero
Na zona Oeste da cidade também brotam ruas de flores e frutos. Lírios, Pau D´Arco, Jambeiros, Buritis e Algarobas ajudam a transformar a cidade num jardim. Na mesma região do Bairro das Indústrias, o Distrito Industrial, nada mais coerente que a busca pelo desenvolvimento fizesse surgir ruas ligadas ao local. Sim, mesmo com a economia sofrida é possível percorrer Progresso, Importação, Exportação e Criatividade. E encontrar Trabalho. Eu vivi por muitos anos na Prosperidade. Sou testemunha que elas existem já há bastante tempo.

E que tal mergulhar em diversos mares? Ok, é Cabedelo, Intermares, mas vale a referência. É bonito encontrar ruas que se chamam Adriático, Bering, Mar Vermelho e Oceano Pacífico. Em tempos próximos, no inverno, ali as chuvas e a falta de infraestrutura faziam com que os nomes ficassem bem próximos da realidade. Quanta ironia dos gestores cabedelenses.

Bonito mesmo é encontrar em Gramame convivendo próximas as ruas do Coração, História de Amor e Lei. Que, então, de fato, reine a paz.

E dou o devido crédito. O texto surgiu ao ouvir o genial percurso musical de Alceu Valença. Eis que a fonte de inspiração/transpiração/respiração sobre os nomes de ruas. Em "Pelas ruas que andei" o cantor e compositor pernambucano percorre logradouros históricos e de nomes poéticos existentes na velha Recife. E lá vai Alceu cantando: "Na Madalena revi teu nome/ Na Boa Vista quis te encontrar/ Rua do Sol, da Boa Hora/ Rua da Aurora, vou caminhar/ Rua das Ninfas, Matriz, Saudade/ Da Soledade de quem passou/Rua Benfica, Boa Viagem/ Na Piedade tanta dor/ Pelas ruas que andei, procurei/ Procurei, procurei te encontrar..."

As avenidas, ruas e praças precisam ter alma, poética de preferência. Pena não achar no mapa de João Pessoa uma rua dos Sonhos ou da Poesia. Quem sabe um dia...

P.S. Se pensarem em colocar um dia meu nome numa rua, por favor, repensem e a batizem de algo mais natural, que soe melhor, tipo uma árvore, uma flor ou um amor.


Clóvis Roberto é jornalista e cronista

A cadeira de balanço roça a roda macia sobre o piso avarandado O mar, a brisa, os coqueiros zunem vindo a noite com maresias e murm...

Pequeno canto d’Orfeu

Ana Elvira Steinbach Ambiente de Leitura Carlos Romero

A cadeira de balanço
roça a roda macia
sobre o piso avarandado

...
O mar, a brisa, os coqueiros
zunem vindo a noite
com maresias e murmúrios

Mal chegamos a Londres, saímos à rua. Devidamente encasacados, cruzamos uma praça – a Russell Square - e entramos numa rua estreita, a Mont...

Visões londrinas

waldemar solha ambiente de leitura carlos romero

Mal chegamos a Londres, saímos à rua. Devidamente encasacados, cruzamos uma praça – a Russell Square - e entramos numa rua estreita, a Montague Street, onde nos iluminamos com o que vimos: todos os postes – de ferro – ostentavam, cada um, dois cestões suspensos, cheios de flores miúdas e de um colorido muito vivo, as mesmas que enchiam todas as jardineiras e grades dos hotéis e bistrôs de terracinhos georgeanos (do século XIX), como num cenário de conto de fadas. Londres é quase toda um jardim. A guia do City Tour, no dia seguinte, disse-nos: - "A Prefeitura cuida de florir os lamp-posts da cidade".

...
E há uma infinidade de empresas que mantêm as fachadas de casas, lojas, bancos e bares floridas o ano todo, inclusive no inverno, quando as espécies são substituídas por outras, resistentes ao frio.

Em outro deslumbramento, um professor universitário voltou todo um quarteirão para mostrar-nos como cortar caminho para o endereço que procurávamos. Uma jovem – típica inglesa pele de porcelana, olhos intensamente azuis – aproximou-se quando viu que um senhor não sabia dizer-nos onde ficava a catedral de São Paulo.

...
Globe Theatre
E uma senhora e sua filha ofereceram-se, sorridentes, para fotografar-me com Ione diante do teatro Globe, onde Shakespeare apresentava suas obras-primas no século XVII. Doutra feita, perdendo-nos apesar do mapa, eu - desculpando-me pelo péssimo inglês - perguntei a um gentleman - que estava para cruzar a rua com duas crianças, onde ficava o British Museum. Ele não me entendeu e caprichei:

- De Brítiche Miuseum. Não me compreendeu. Mostrei-lhe o nome impresso.

- Ôh – ele disse – The British Museum! – mas isso numa pronúncia tão arrevesada e incompreensível que eu disse “Uau” e pedi que me repetisse a dose. Ele fez isso, sentiu a própria extravagância e deu uma grande gargalhada. Do mesmo modo, aquecidos por tantas caminhadas, vimos, nos maravilhosos jardins posteriores do palácio de Buckingham, a vendedora de sorvetes mostrar-nos várias opções do produto que vendia, culminando por ler uma versão tão irreconhecível, para mim, de strawberry, morango, que a imitei, sorrindo. Poucas vezes fiz alguém rir tanto...


W. J. Solha é dramaturgo, artista plástico e poeta

Descartado pelo serviço público e dado como sucata, o vasto maquinário se desviaria a tempo dos encômios da ferrugem, e alcançaria sobrevid...

A Luz do Velho Motor

Alberto Lacet

Descartado pelo serviço público e dado como sucata, o vasto maquinário se desviaria a tempo dos encômios da ferrugem, e alcançaria sobrevida num último surto de catalepsia tecnológica, embora a qualidade da iluminação que o imenso e problemático gerador a diesel conseguia ainda produzir, fosse vagamente perdurar na memória dos viventes como uma estranhamente singular e, ao mesmo tempo, dispendiosa fantasmagoria do passado.

Nem poderia ser de outra forma: a luz emanante da esquálida rede de postes era de alcance muito curto, e, a rigor, não se podia dizer que iluminasse caminho de notívago, apenas o indicasse, com jeitão de farol marítimo, que, no máximo fornece ideia de distância da costa, e, com sorte, avisa de possíveis arrecifes. Sem falar no próprio, no velho gerador em si, jurássica e gigantesca fonte de assombros: uma pechincha arrebatada da justa aposentadoria pelo prefeito da pequena cidade paraibana, quando já então aquela peça rumava para descanso eterno num ferro-velho do Recife.

A monumental carcaça carregava em si, já bem falido pelo desgaste, o glorioso princípio da indução eletromagnética, obra de Faraday
Montaram-no sobre uns trilhos de sucupira lavrados à enxó, e o passar do tempo, mais a trepidação de toneladas de ferro, aos poucos o fora enterrando no solo. As duas grandes polias de borracha chegaram já com remendos, e, todo santo dia, duas fileiras de homens agarravam-se a elas e às respectivas rodas, suando na tentativa de fazer virar a máquina, e tanto esforço resultando depois naquela luz pífia, cor de abóbora, apesar de tudo recebida com gritos de júbilo, enquanto as explosões do motor seguiam baixando o estrépito inicial, reduzindo seus estampidos a pequenos espirros, com a enorme esteira começando a entrar em velocidade constante, e toda a casa de força com o chão enegrecido pelo óleo e tremendo naquela batedeira.

Ficava impossível entabular alguma conversa dentro da casa-de-força. Um comentário qualquer saía sempre numa ofegante gritaria com tsunamis verticais a percorrer bochechas. Era preciso ouvir o barulho infernal, ver aquele óleo espirrando sobre os homens que lutavam com a monstruosidade, enquanto a enorme geringonça, com um sistema próprio de ar comprimido, impelia a água de tonéis para o próprio resfriamento, e isso numa época em que a meninada inventara uma maneira de competir com o monstrengo, e também entre si, numa disputa que consistia em apostar carreira até ao primeiro poste do sistema, já fora da casa de força, e isso, antes que a própria centelha do gerador acendesse, lá, sua primeira lâmpada.

O tal poste distava uns 30 metros da usina, e os meninos, com o pé numa linha riscada no chão, tremiam de hesitação entre a precipitação e o controle, esperando o sinal de partida, pois não podiam arrancar numa correria ao soar dos primeiros estampidos da máquina pegando partida, mas, só quando, na sequência, uma luz acendesse no interior da casa de força, e esse sim, seria o sinal válido para o arranque, quando, não raro - e por incrível que pareça --, aconteceria mesmo de algum menino conseguir tocar naquele poste antes que sua lâmpada acendesse, ganhar a disputa e ter assim seu minuto de glória inesquecível.

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Nicola Tesla
Qualquer daqueles garotos, porém, não teria jamais como suspeitar que seu prodigioso feito devera-se unicamente à dilatada distância que o gigante de ferro se encontrava das modernas conquistas da engenharia elétrica, do quanto a sombra de Nicola Tesla, “o homem que ajudou a espalhar a luz pelo mundo”, estava longe de recair efetivamente sobre a pobre malha que, apesar de tudo, representava para os habitantes do lugar uma indiscutível zona de conforto para locomoções noturnas, muito embora rarefeita e nem sequer por ruas inteiras.

A meninada, em compensação, aparentava possuir perfeita intuição sobre as deficiências do sistema ali instalado, com seu incrível mastodonte de ferro fundido, extremamente defasado, exemplar cenozoico que ali já chegara como reaproveitamento da mais primeva tecnologia, há muito suplantada, e que remontasse a Thomas Edison antes que a George Westinghouse, ex-empregado do primeiro, e por ele demitido, e por tabela, antes que a Tesla, ex-empregado dos dois outros, e por eles demitido.

Os meninos criaram aquela brincadeira em perfeita sintonia com um sistema que não possuía nenhum equipamento capaz de interferir no percurso da corrente elétrica, exceto talvez algum solitário fusível no sentido de evitar incêndios, embora contasse, no entanto, com o recurso da própria defasagem, da própria e invencível entropia no sentido oposto de paralisá-la. Programada para as duas primeiras horas da noite, a corrente elétrica caia com frequência.

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Serra de Teixeira
Não havia nenhum alternador, transformador, nem mesmo uma única chave comutadora ao longo da fiação, de modo que a energia era simplesmente posta a flutuar pelos compartimentos da rede, fisicamente presa e compartimentada. Faria uso, no entanto, de algum emoliente poder de escolha, iria até onde desse, e se nem mesmo entrava nas casas, é o tempo de se perguntar de quem era a culpa pela inexistência da outra, se da eletricidade ou das máquinas elétricas dentro delas: por aquele tempo não havia nas casas uma só máquina movida à energia elétrica. A minha aldeia era ainda bastante neolítica, como a maioria das pequenas cidades da Paraíba. Era o final dos anos 50, na então muito fria cidade serrana de Teixeira.

À beira da obsolescência, o sistema só podia contar mesmo com a feroz dedicação do encarregado geral, ‘Seu Tota‘, empenhado sempre em reduzir a enorme entropia do sistema, num eterno desespero para manter o sistema de refrigeração a contento, já que parte do óleo consumido se perdia em calor. Com o rosto quase sempre sujo de suor misturado com fumaça preta e tóxica, o motorneiro era sempre visto a corrigir desníveis do solo, alimentar a máquina, fazer o possível e o impossível para manter aquela energia circulando na rede, na hora prevista.

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Faraday
A monumental carcaça carregava em si, já bem falido pelo desgaste, o glorioso princípio da indução eletromagnética, obra de Faraday. Fazia isso, porém, numa fase terminal de vida útil, mostrando a muito custo seus últimos lampejos, e sempre a exigir cuidados análogos aos de um paciente cuja vida se esvai entre crises de humor, depressão, etc.

Uma vez, porém, estabilizada a corrente, era possível ao observador mergulhado na penumbra, contemplar a curiosa imagem de um daqueles postes, visto isoladamente como árvore solitária numa paisagem absolutamente sem vida, a lembrar uma entristecida Sarsa Ardente, com suas uivantes lições embutidas nas cordas vocais do vento, esquecida por seu Moisés e algo acabrunhada com aquela barriga de luz voejante e amarelada em torno de si, hospedando em seu bojo uma multidão de besouros - como que presa ali - girando em órbitas sobrepostas e interpondo aos olhos do observador, centenas, milhares de solenóides, de alto a baixo, como elétrons num campo gravitacional, e alguns, inesperadamente encurtando a espiral, concentrando-se num determinado ponto e ampliando a frequência, entrando numa vertigem de velocidade cujo ápice será, ou uma colisão e a consequente baixa acumulada ao pé do poste, ou uma inacreditável saída tangencial às velocidades e movimentos anteriores, a lembrar um violino numa orquestra sinfônica, ao recuar da estridência de um solo, e após rápido flanar, voltando aos andamentos de fundo


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

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